hello@domain.com +00 999 123 456

Agosto, 2020
Arquivo

o esquecimento

Comentários fechados em o esquecimento bloco de notas

Não nos ensinaram o esquecimento. Nem os professores, nem os pais, nem os amores. Só os ais que vamos berrando enquanto a vida nos vai mostrando o que é a vida. Ora coisa lembrada, ora coisa esquecida. E, num instante, durante, somos nada. Esquecemos. Deixamos de lembrar. Queimamos o que aprendemos, sabemos, conhecemos, não por nossa vontade, mas pela triste fatalidade do deixarmos de estar. O meu tio esqueceu. Não sabe quem é ninguém – parece, não sabe quem sou eu – esquece. No lar, refém da cadeira e da vida, já não tem a brincadeira que tinha antes da despedida. Não tem olhar no olhar nem estado na forma de estar. Está assim, parado, pertinho do fim de ter estado. E eu olho para ele, do lado de fora, vejo uma espécie de frio, vejo e não vejo o meu tio, ele está mas já foi embora. O meu tio esqueceu. Não é dele este lamento. Lembra pouco, talvez demasiado, o que viveu, e sofrem outros como eu por não lhes terem ensinado o esquecimento. São lamentos meus, não do meu tio. Digo-lhe adeus do portão. Ele sorriu. Também o meu coração.

Continuar a Ler

sei que estás

Comentários fechados em sei que estás poesia

sei que estás
que me lês
e eu peço que não vás
sou ainda o que tu vês
sabes que estou
que te leio
não me peças, eu vou
tu bem vês que eu anseio

Continuar a Ler

sopa

Comentários fechados em sopa bloco de notas

Desde criança que sou fiel ao artigo 1.º da Constituição da República das Crianças, alínea a) que diz que “toda a criança tem o dever humano, cívico e patriótico de odiar sopa”. Agora adulto, embora ainda criança, sou capaz de cometer o (maravilhoso) crime de adorar uma sopa da pedra, mas só. Continuo fiel ao André criança quando era criança. E, nesse tempo, fiel ao manual imaginário, rejeitava qualquer tentativa maternal dessa tortura chamada comer a sopa. Olhava o prato, cheio, sempre cheio, o sacana do prato, e evitava a colher, a de sopa junto ao prato, a de pau junto à mãe. E resmungava. A sopa está muito quente, está muito fria, está muito sopa. E, enquanto ganhava tempo para a fatalidade da ingestão de batata e legumes esmigalhados com água, olhava o admirável voo da mosca que, todas as noites, me sobrevoava a cabeça a gozar comigo ou a incentivar-me ao cumprimento da lei inventada. Eu lá ia perdendo infinitos com asas nos olhos e a minha mãe lá ia perdendo paciência com a colher nas mãos. E, no fim, apesar da minha luta pelo respeito ao mandamento irreal, perdia eu e perdia o prato, que perdia a sopa que lá tinha. E eu ali, derrotado, triste, desolado, mas de punho em riste para a próxima batalha na cozinha.

(eu contei isto tudo à Maria Carvão ® e ela fez esta coisa bonita)

Continuar a Ler

irmão coração

Comentários fechados em irmão coração bloco de notas

Amanhã vou aprender as letras, tenho medo de não conseguir, dizia eu. Amanhã vou aprender as letras, estou tão entusiasmado, dizia ele. O meu irmão sempre olhou a vida de joelho levantado, pronto a correr com ela – ou contra ela, se fosse preciso. Eu não. Preso ao chão, indeciso, braços fechados e olhar escondido (embora nunca fechado), sempre olhei a vida desconfiado. Mas fui mudando, pouquinho sozinho, mas tanto com ele ao lado. Não deixei de ser o que era no epicentro, mas comecei a ter coragem para ser o que não era e queria ser por dentro. O meu irmão trouxe-me as pernas do sonho, o arranque do desconhecido, a coragem do coração. Eu, sem ele, escondido, continuaria a ser o que era, sonhando, desconhecendo e amando, mas sem o amor – que é o impulso da vida passando – que tenho pelo meu irmão.

Continuar a Ler

é o improviso a acontecer

Comentários fechados em é o improviso a acontecer bloco de notas

Lembro-me de ser pequenino e de ter, pequenino, vontade de ser maior, de ter, fazer, olhar, criar amor – qualquer coisa que fizesse os outros felizes por instantes que, nisto da felicidade, os deslizes são constantes e o imprevisto tanto anima como entristece. E eu, desde pequenino, improvisava, e procurava ser acima para ajudar, estar do lado deste não-estado para estar. Sempre tentei ver de fora para ver, atento e espantado com o tempo passado a correr. Ajudando. E acho que tenho ajudado, mas a verdade é que fica tarde e eu vou estando posto de lado. De fora, consigo ver, mas é de dentro que preciso ser, maior. É o improviso a acontecer, amor.

Continuar a Ler

o recreio sempre foi

Comentários fechados em o recreio sempre foi bloco de notas

O recreio sempre foi o lugar dos sonhos. Atrás das casinhas que eram salas de aula, sonhava-se como as crianças devem sonhar, vivendo o que sonham. A minha vida, naquele recreio, foi quase sempre a de camisola dez do Benfica, de Luz cheia até ao terceiro anel e de bolas no ângulo. Agora, estão as bolas no chão e os sonhos não estão. Tomaram lugar as lembranças de quando, mais do que sonhos, éramos crianças.

Continuar a Ler

havia aqui um escorrega

Comentários fechados em havia aqui um escorrega bloco de notas

Havia aqui um escorrega gigante que demorava seis meses a subir e cinco segundos a descer, ora sentado ora em pé, a correr, para os mais fortes e corajosos e completamente loucos. Cheguei a ser tudo isso graças a esse topo do mundo feito de ferro. Havia aqui um baloiço onde eu me lançava ao céu de pernas esticadas e a tremer. Havia aqui muros riscados a pedaços de tijolo para o jogo do três em linha. Havia aqui barrocas para os berlindes, os abafadores e as pitoninhas. Havia aqui uma pista de alta tecnologia manual onde se faziam corridas de caricas. Havia aqui bicicletas que subiam e desciam e joelhos que esfolavam e rabos que raspavam na radical descida dos skates. Havia aqui infância pura sem futuros e com cheiro a eucalipto e a leite achocolatado dos Tempos Livres. Havia aqui eu. E ainda há. Nada se perdeu, especialmente tudo o que já não está.

Continuar a Ler

feitos de escuro

Comentários fechados em feitos de escuro ansiedade meu amor, bloco de notas

Somos seres feitos de escuro. Seres sós. Os tecidos, os órgãos e os sistemas do nosso corpo são apenas coisa irrelevante que nos limita o constante do futuro, não são nós.

Continuar a Ler

parece que a escuridão

Comentários fechados em parece que a escuridão bloco de notas

Às vezes, parece que a escuridão ganha forma de rosto – como se a emoção fosse o oposto do que se deveria ver, nada, vazio, escuro, ausência, bruma, coisa nenhuma. Mas vejo o rosto que ganha forma na escuridão, não sendo rosto, não sendo. Não. Não é rosto, nem sequer escuridão. É espelho meu, espelho meu, o rosto sou eu, o resto é ilusão.

Continuar a Ler

cão outono

Comentários fechados em cão outono bloco de notas

É Verão, e o meu cão Outono. Calor cá fora, e ele, devagarinho, passo a passinho, olha o seu dono com outro olhar. Olha mais perto por estar mais perto de acabar. E lentamente, olha a gente que o sente, que o lembra arrebitado, e ele olha de volta e volta para a volta que o mantém acordado. E eu não cedo perante a tristeza. Tenho medo, mas tenho a certeza da sua felicidade. Também a minha de o lembrar, de o ver olhar apesar dos pesares da idade. É Verão, e o meu cão é Outono. Ão ão, dá a patinha ao dono.

Continuar a Ler

ela à minha espera

Comentários fechados em ela à minha espera bloco de notas

Três dias depois, regressei a casa. Não foi tempo nenhum, mas foi tempo suficiente para estar ausente ela à minha espera. Esteve o dia inteiro a pensar na melhor forma de me dizer saudades e de se mostrar contente, feliz, eufórica por me voltar a ver – mesmo que por apenas três dias ausente. Foi buscar os meus dois livros e uma das minhas pulseiras. Foi buscar um boneco do Benfica. Foi buscar o senhor Alfredo, tão importante para mim como para ela, tão família minha como família dela – foi ele, este homem de bigode muito parecido com uma marioneta, que lhe alegrava todas as noites de um ano quando ela era pequenina, quando me ligava em videochamada, não para falar comigo, mas com o senhor Alfredo que, todas as noites de um ano quando ela era pequenina, falava com ela com a inocência de um homem do campo que a fazia rir e estar atenta e rir e perguntar e rir e falar e rir e, acima de tudo, acreditar. Escreveu-me que eu era fixe e escreveu o que o Vitorino lhe disse para mim. Escreveu-me um desenho e escreveu-me um poema. Recebeu-me assim, com a vontade mais pura e inocente de me agradar. E eu, chegando, deixei-me abraçar. Mas, acima de tudo, acreditar.

Continuar a Ler