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Janeiro, 2024
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ele, alguém, telefonia

Comentários (0) cada um é muita gente, contos

Não sei quem é, nunca o vi – não sei se existe alguém que já o tenha visto. Mas ele existe e, se eu o oiço, também eu existo. Na verdade, nunca o ouvi – o que me leva à dúvida lógica de se alguma vez eu existi. Oiço, isso sim, o que ele põe a tocar. Diria que é para mim, mas é para toda a gente que por ali vai a passar. Ou só para ele – nem toda a gente vive só para os outros, para mostrar. Sábado de manhã e lá está o senhor, ou a prova sonora de que, de facto, o senhor está, com o rádio sintonizado, certamente com amor, algures entre o chuvisco e as canções, entre as palavras e os trovões, mas numa espécie de som bordado que faz daquela manhã, naquele lugar, um espacinho bom onde estar. Olhando a porta, assim do fundo das escadas, um chapéu de palha pendurado e uns pedaços de pano – um Tom Sawyer escondido. E ele em nenhum lado, talvez lá dentro, fechado, desumano. Ou perdido. Como se apenas comunicasse assim, através do éter da telefonia. Lá, do meio do jardim, durante o dia. Nem é bem jardim, é casa velha e um pomar, coisas a chegar ao fim, e o rádio a tocar. Nem sempre é melodia. De vez em quando, é chinfrineira. A vizinhança bem queria mas, naquela manhã daquele dia, parece a feira. Contrasta com o castelo e com o verde que se vê, com os passarinhos que cantam, com o jornal que se lê. E está tudo bem com isso – pelo menos, parece estar. É como se houvesse o compromisso de, naquela manhã daquele dia, o rádio tocar. E não se ouve mais nada. Só, de vez em quando, o cão a ladrar – uma espécie de locutor que mantém o ouvinte no ar. Tudo ali é quase Kusturica, quase Chopin. E tudo ali fica, naquela manhã. É como se fosse uma ilha e, à volta, a cidade que é o mar. Um chinfrim de maravilha logo ao acordar. Eles fazem parte daquela paisagem – ele, que não o vejo, a casa e o barulho. Há também uma garagem, quase de certeza com entulho: ferramentas e pó, tudo ao calhas, um homem só e um rádio com falhas. Uma algazarra, naquela casa deserta. Um grito de garra, com notícias à hora certa.

Jornal de Leiria

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sete, trinta e nove

Comentários (0) bloco de notas

À minha mãe, ao meu pai. A quem me ouve, a quem me lê, a quem me abraça, tudo passa e eu só vejo passar e eu não sei porquê, a quem me inquieta, a quem me sossega, quem me sossega? se é tudo seta, a quem me diz o caminho, a quem não me sabe dizer, e eu não sei sozinho, só ando a aprender, será esta a vida certa? o que raio quer isto dizer? a quem me aperta, a quem me faz viver, que a vida até que é bonita, mesmo quando quase me mata, à minha escrita que tantas vezes me resgata, aos sonhos que ainda tenho, à dúvida, à crença, a quem me vê como um estranho, talvez eu mais do que qualquer outra pessoa, parece doença, eu sei que consigo, só tenho medo que doa, já dói estar comigo, para onde foi o meu eu antigo? aquele pequenino bebé, eu sei que consigo, só tenho de ser o André, à minha culpa, o meu calvário que eu invento, à minha vontade de sair, de não cair, e eu bem tento, a quem me faz rir, até ao dia, a quem está por vir, a quem me mia, a quem vem ao fundo, a quem me diz que tudo é mundo e que serei feliz, ao meu victan, ao meu irmão, nunca ao presente, sempre ao ontem, ao amanhã, ao coração, a quem? que a vida vai. À minha mãe, ao meu pai.

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