pureza
Quem é português não é criminoso – é o que nos querem dizer. A Lei da Nacionalidade chumbou, e ainda bem. A ideia era retirar a nacionalidade a naturalizados condenados nos dez anos seguintes. Não faz sentido, por uma razão: a verdade. E a verdade diz que o português não é puro. Porque ninguém, de nenhuma nacionalidade, é. Porque somos todos impuros porque somos todos humanos porque somos todos impuros. Porque somos todos maravilha e merda. Porque somos todos tudo. Dizer que um português deixa de ser português por cometer um crime é dizer que o português está num lugar que não existe – o da pureza. Querer fazer esta depuração da nacionalidade é, mais do que tudo o resto, querer fazer uma depuração do ser humano, tirando-lhe parte daquilo que faz dele o que ele é: as coisas «más». Nós não somos apenas lindos e respeitadores. Nós também somos feios e maus. E tudo isto é ser humano, é ser português, é ser da nacionalidade que for. Quem diz que não, não está a defender os portugueses como diz estar, nem está a defender aquilo que é. E não defendermos o que somos, por não sabermos que somos tudo, é sermos contra nós. E sermos contra nós é sermos contra a vida. E sermos contra a vida não me parece que seja uma boa forma de viver.
quem é
Sobre ninguém. Na verdade, sobre alguém que eu nunca vi – eu não ter visto alguém não quer dizer que esse alguém não exista, não seja. Mas há quem seja ninguém, mesmo existindo. E talvez esse alguém, que pode ser ninguém, insista em ser aquilo que é – mesmo que uma negação. As negações também existem – tudo o resto é que não. Esta negação, ou inexistência, insiste em deixar, todas as semanas, o jornal pendurado na porta de alguém – que também poderá ser ninguém, que eu nunca vi (ou já terei visto, mas não terei ligado ao jornal pendurado na porta). É, também, uma inexistência. Ou uma existência morta – tudo da minha visão, sim, que, para mim, só existe o que eu vejo e não o que eu posso ver – se calhar, só vejo o que posso ver, assumindo que exista qualquer coisa, uma inexistência, que me autorize a visão. Talvez não. (E o que é isso de ver?) Não assumo essa utopia, essa ilusão. Esta pessoa, a que deixa o jornal, deixa o jornal durante o dia. Não entra em casa, não toca à campainha – tudo suposições da minha cabeça. Imagino que não entre em casa, que não toque à campainha. A dona da casa, que também imagino ser a dona da campainha, e que também imagino ser dona, não espera que anoiteça para lá ir buscar o jornal. Imagino que seja um jornal – está num saco de jornal. Pode ser outra leitura qualquer, para um homem, para uma mulher, para um gato que goste de ler… Pouco importa. O jornal, vamos assumir que o é, pendurado na porta, fica ali o dia inteiro como se estivesse no café – só lhe falta um cigarro e um cinzeiro. O jornal existe? E a pessoa que o foi lá deixar, um homem ou uma mulher, existe também? (Isto da existência não me faz bem.) Essa pessoa – existe, sim – tem o cuidado, o carinho, o contentamento – seja lá o que for – de deixar o jornal a alguém que não o consegue, ou que não o quer, ir buscar. É bonito ver uma coisa assim – pelo menos, para mim, que imagino que, além de um alguém e de outro alguém, seja um jornal para quem o queira ler. E, existindo ou não, isto da afeição é mais do que razão para alguém, ou ninguém, ser.