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bloco de notas
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não sei matar

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Eu não sei acabar. Não sei acabar um livro, não sei acabar uma relação, não sei acabar nada, não sei matar ou aceitar a morte das coisas. Por não saber matar, não sei aceitar a morte. É qualquer coisa assim. Tenho de escrever sobre isto porque

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apenas eu

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Se eu não me sinto bem com o meu corpo, e se eu posso mudar o meu corpo, sou livre de mudar o meu corpo e ninguém tem nada com isso. Apenas eu. O problema é haver gente que se sente mal com o corpo dos outros e julga que é livre de fazer lei sobre o que os outros sentem. Acho graça. Quem julga o corpo dos outros julga que tem a parte mais ausente do seu: a cabeça.

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vinho também do bom

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Oiço dois velhos a lembrar. Um vai buscar o almoço entretanto para dar à mulher acamada e ao filho que come muito – durante a semana, almoça na CERCILEI; ao fim-de-semana, está com os pais. O Frazão já lá ficou em casa, agora não consegue receber ninguém porque tem a casa destruída da tempestade. E na churrasqueira, que agora não existe, fez batatas a murro, azeite com fartura e vinho também do bom. Continuas com a cara igual, sem rugas, sem marcas, só o cabelo branco. Não tenho Facebook nem Instagram, aquilo é só lavagem de roupa suja, não se lava roupa limpa, só Whatsapp, diz-me o teu número para falarmos. Quero falar mais contigo. Tenho de ir, tenho a vida à espera. E agora uma mulher bonita, com tatuagens e arranhões.

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parabéns

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Parabéns ao Sporting. Grande jogo do Sporting. Grande reviravolta do Sporting. Não é fácil vencer o Real Madrid – vencedor de 15 Ligas dos Campeões, não, o AC Milan – vencedor de 7 Ligas dos Campeões, não, o Liverpool – vencedor de 6 Ligas dos Campeões, não, o Bayern de Munique – vencedor de 6 Ligas dos Campeões, não, o Barcelona – vencedor de 5 Ligas dos Campeões, não, o Ajax – vencedor de 4 Ligas dos Campeões, não, o Inter de Milão – vencedor de 3 Ligas dos Campeões, não, o Manchester United – vencedor de 3 Ligas dos Campeões, não, a Juventus – vencedora de 2 Ligas dos Campeões, não, o Benfica – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Chelsea – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Nottingham Forest – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o FC Porto – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Manchester City – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Borrusia de Dortmund – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Olympique de Marseille – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Aston Villa – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Hamburgo – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Estrela Vermelha – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Steaua de Bucareste – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o PSV Eindhoven – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Celtic – vencedor de 1 Liga dos Campeões. Não, o Bodo Glimt, segundo classificado do campeonato da Noruega.

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do meu vitorino

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Purina Gourmet Revelations Mousse com Frango, Party Mix Ocean Sabor con Salmón, Carbonero y Trucha, Royal Canin Instinctive, Acana Grasslands com Borrego e Pato. Ele quer lá saber. Dêem-lhe uma lata de atum e uma fatia de fiambre, é assim desde pequenino. Eu também não preciso de grande coisa. Só do meu Vitorino. (Não, não vou comer o meu gato, apesar de muitas vezes o confundir com um leitão.) Dez anos.

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sair

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Quero sair, mas não quero sair porque, quando sair, se sair, sei que vou sentir que deveria ter mantido a vontade de não querer sair, mesmo indo mas, não saindo, fico com a vontade de querer sair. (Há vontade de querer ou de não querer? Vontade já não é querer ou não querer? Vontade é só querer mesmo que esse querer seja não fazer? Ter vontade já é fazer? O que estou aqui a fazer? Vou sair, não vou nada. É só a vontade de querer e de não querer. Tenho a cabeça cansada.)

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inquisidor mor

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O meu amigo (e católico-cristão-ex-padre – isto é relevante, atenção) Abílio Lisboa decidiu, numa das suas crónicas habituais no Jornal de Leiria, escrever sobre… mim – o que só demonstra a sua aptidão para o vazio. É uma Epístola, diz ele. E, como todas as Epístolas, digo eu, está carregadinha de imprecisões.

  • «Posicionas-te (…) como alguém muito distante da fé.»
    Ora, eu não estou «muito distante da fé», estou pertíssimo. Mas não da minha, da dos outros. E os outros estão pertíssimo de mim. Daí o meu interesse nela. (Na fé, atenção! Não me mandes já para o Inferno.)
  • «… normalmente és tu o motivador, melhor, provocador de serviço (sendo meigo).»
    Diria que afirmar a existência de um Inferno para onde vai quem não reza um Pai Nosso é mais provocador do que alguém que diz que não acredita na existência desse Deus bondoso criador de tudo (que, por ser bondoso e criador de tudo, criou, por exemplo, leucemias fulminantes em crianças).
  • «… admiro o jeito com que consegues fotografar a alma.»
    Sei bem o que estás a fazer aqui. Paga-me antes um copo.
  • «Os tempos (…) questionam a existência de um deus. Dirias.»
    Não. Eu diria, e digo, que nada me prova a existência do Deus da Igreja Católica. Para questionar a existência «de um deus», teremos, primeiro, de definir o que é deus e que deus é esse.
  • «… as discussões que provocas…»
    Errado (outra vez). Eu não provoco discussões. As pessoas que crêem no que eu não creio e que nos tentam (à sociedade) impôr a sua crença é que provocam. Dizeres que eu provoco é dizeres que a mulher agredida é que provoca a discussão ao fazer queixa por ter sido violada.
  • «… o que não te tem impedido de, facilmente, te arvorares em inquisidor mor…»
    Esta é, sem dúvida, o clímax (desculpa, sei que não é moral) do teu texto. Tu, um católico-cristão-ex-padre (eu disse que era relevante), tens a lata (a coragem, desculpa) de dizer que eu sou um Inquisidor. Talvez os meus textos carregadinhos de palavras sejam, afinal, fogueiras carregadinhas de pessoas não-crentes, mulheres viúvas, mulheres solteiras, mulheres sozinhas, prostitutas, homossexuais e deficientes (que, para a Igreja, «eram» a mesma coisa). «(Sendo meigo).»

Admiro-te e respeito-te enquanto pessoa que me convida (na verdade, há muito que não o fazes) para uma patuscada na Ti Augusta. Mas não admiro nem respeito a tua crença. Graças a deus.

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mulher

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Isto não é sobre flores, é sobre igualdade. E não é igualdade de homens e mulheres, porque homens e mulheres não são iguais; é igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres. As flores só servem para esconder o cheiro a antigo que ainda há nesta luta que, por mais flores do que luta, ainda continua desigual.

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muito lindo

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«Vhils não quis receber por quadro de Marcelo: valor vai para artistas emergentes: “Quando o elevador social funciona, transforma gerações.» Jornal Expresso

Parece muito lindo mas, além de muito feio, é muito errado. O dinheiro é do Vhils, não é de outro artista. O Vhils, ao não querer o dinheiro, está a dizer que os artistas não querem o dinheiro. O Vhils, ao não querer o dinheiro e ao querer que o dinheiro vá para outros artistas, está a dizer que o Estado não tem de se preocupar com outros artistas porque os artistas vivem da caridade dos artistas. O Vhils não tem o direito (nem o dever) de fazer de Estado. O Vhils tem de fazer de artista. O Estado tem de fazer de Estado. Não é o Vhils que tem de pagar aos artistas com o seu dinheiro que vem do Estado. É o Estado que tem de pagar aos artistas com o seu dinheiro que vem do Estado. O Vhils, ao dizer que não ao seu dinheiro encaminhando-o para os artistas, está a perpetuar aquilo que pensa estar a combater: a desvalorização e a consequente precariedade da arte. O Vhils, pensando que não, está a fazer (e a ser) pior do que o Estado. Parece muito lindo mas, além de muito feio, é muito errado.

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ao deus certo

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Gostava de saber, a sério, sem merdas, o que raio vão os crentes fazer agora à igreja. A sério, o que vão lá fazer? Agradecer ao deus que provocou esta destruição por ter provocado esta destruição? Ou o deus não existe ou, existindo, não é todo poderoso nem é bom. Ou então os crentes estão a rezar ao deus errado. Ou estão a rezar ao deus certo, mas estão a rezar muito mal. Não sei, expliquem-me.

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desenrascanço

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O que nos salva é o que nos vai deixando na miséria: o desenrascanço. Que se fodam as responsabilidades das entidades responsáveis. Que se fodam as políticas públicas. Que se foda a prevenção, a organização, a resposta. Nós cá vamos continuar a encher carros, a reconstruir telhados e a fazer o que calhar. Por muito que eles não façam, cá estaremos nós sempre a desenrascar. Quem pode e quem não pode. É isto que nos fode.

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branco

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Chamar branco a um branco não é, em si, racismo. Mas chamar branco a um branco com o intuito de o ofender, é entender a palavra branco como ofensa. E a palavra branco só é ofensa para um racista.

(Este não é um texto de racismo sobre brancos, mas pode ser que assim os racistas, ignorantes como são, pensem que é – é um teste.)

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queixinhas

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O Vini Jr. é um provocador? Pode ser, e eu não condeno isso – até acho que faz falta ao futebol alguma provocação dentro do campo. O Vini Jr. festeja como quiser? Claro, dançando, rindo ou jogando à malha. O Vini Jr. é um queixinhas? Se foi alvo de insultos racistas, acho muito bem que seja um queixinhas. É isto. Obrigado e bom dia.

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não são só

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As palavras não são só palavras. Mas as palavras que nos têm dito parecem ser. As palavras que as entidades responsáveis (Governo, IPMA, Câmaras, Comunicação Social e outras) nos têm dito são palavras praticamente inúteis. Palavras como calamidade a toda a hora tiram o peso da palavra calamidade quando ela é. Palavras como chuva intensa ou vento forte querem dizer absolutamente nada quando a intensidade e a força são relativas e apenas existentes em comparação. Palavras como volume de chuva de 10mm ou rajadas de vento a 100km/h são palavras que não têm qualquer utilidade para quem não é estudioso do volume da chuva nem das rajadas do vento. As palavras, nestes momentos, especialmente nestes momentos, devem servir para esclarecer, não para alarmar. Eu ficaria esclarecido se, em vez de me dizerem que a chuva terá um volume de 10mm, me dissessem que vai chover mais do que ontem. Ou menos. O mesmo para as rajadas de vento. Poderia comparar, poderia prevenir-me, poderia agir de acordo com a realidade. Eu sei lá calcular volumes ou rajadas. Eu sei lá o que são 10mm ou 100km/h. Isto é uma realidade que eu desconheço. Eu e tantas pessoas. As pessoas não querem folhas de excel nem teses de doutoramento de estudiosos de gabinete. As pessoas querem palavras que lhes digam o que se passa, com as palavras que elas conhecem. Mas continuam as palavras calamidade, volume e rajadas que, em vez de dizerem, ocultam, escondem e provocam ainda mais alerta, ansiedade e medo – estas palavras já conhecemos bem. As palavras não são só palavras.

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mais feio

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Tenho medo e não sei se o deva dizer. Mas digo na mesma. Por ter. Pode ser egoísmo à procura de algum consolo noutras palavras que não as minhas, mas tenho. Não quero alarmar ao dizer que tenho medo desta chuva e deste vento que aí vêm esta noite. É só chuva intensa e vento forte – não se compara com o que já veio, acho eu. Mas agora tudo parece perto da morte, muito mais feio. E eu. Tenho medo e não sei se o deva dizer. Talvez acredite que, ao dizê-lo, eu deixe de o ter.

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tentativa de crime

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Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, votou André Ventura. Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, não foi neutro, foi cúmplice de uma tentativa de assassinato da liberdade. E os cúmplices também são culpados. O André Ventura perdeu, mas a maioria queria que ele ganhasse. Isso é tentativa de crime. E tentativa de crime é crime.

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quando tenho medo

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Quando tenho medo, como agora, volto ao tempo em que julgava que não tinha. Esse tempo tinha muitas coisas bonitas que, hoje, são ainda mais bonitas – manias da memória. Uma delas é o MTV Unplugged, dos Nirvana. Estou a ouvi-lo desde que cheguei. Leva-me para lá, para esse tempo onde o medo era tão pequenino, para mim inexistente, comparado com este que agora há. Constantemente. «I’d shiver the whole night through…»

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em branco

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Fala-se dos votos válidos e da abstenção – nem uma palavra sobre os votos que talvez mais nos deveriam fazer pensar: os votos em branco. Quem vota em branco dá-se ao trabalho de ir à urna dizer que, de toda aquela gente, não há ninguém que o represente. Quem vota em branco não se abstém do voto nem da escolha. Quem vota em branco vota na ausência de escolha. Quem vota em branco escolhe dizer que ninguém lhe diz nada. Quem vota em branco quer votar em alguém, mas não tem em quem. Quem vota em branco vota em ninguém, e votar em ninguém diz mais do que não votar. Quem vota em branco não está em silêncio, está a gritar. Mas parece ser um grito que ninguém quer ouvir. Ontem, foram 61.226 pessoas que gritaram. E tantas a dormir.

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adilson

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A música é uma maravilha, quase tudo o resto é uma vergonha – guião, texto, cenografia, encenação e algumas interpretações. Mas a maravilha da música é batota – a orquestra, dominada pelo Martim Sousa Tavares, dá poder e cama às linhas melódicas das vozes, da guitarra e da percussão em palco. As vozes vão da rua ao lírico, falhando aqui e ali, como convém que o façam nesta peça que se quer de combate. As vozes Disney não fazem parte, mas também estiveram. O guião é fraco: previsível e chato. O texto é ridículo: diálogos pouco naturais, rimas forçadas e a explicação (preguiçosa) daquilo que os personagens pensam e sentem – um bom texto sugere, não explica. Os personagens são estereótipos abonecados: polícias maus, funcionárias públicas burocráticas, negros vítimas. Uma actriz interpreta um menino – a incoerência (bem clara) não é resolvida e causa ruído desnecessário. A cenografia é tralha: demasiados bancos, demasiados acessórios, demasiada informação no ecrã. A encenação é confusa: correria constante de personagens sem justificação, movimentações para preencher o palco e mudanças frequentes de cenários. O desperdício da música árabe do início é uma tristeza. Uma coisa assim tão bonita morrer assim que nasce – é triste não ter voltado e, por isso, é incompreensível ter existido. A multiculturalidade que prometia foi apenas uma promessa. Seguiu-se uma enxurrada de música africana (r&b, soul, afrobeat…) maravilhosa, mas assassina do tal mundo que a primeira música sugeria para a história. O fim, com o verdadeiro Adilson a dançar trinta segundos, revela mais sentido e simbolismo do que tudo até ali. A peça começa bem e acaba bem; pelo meio, é oca: previsível, anedótica, noveleira, estereotipada e superficial – uma má revista mal resolvida com pretensões filosóficas. Uma vergonha. Valha-nos a música.

ADILSON, de Dino D’Santiago.

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culpa negação

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Cotrim está a ser acusado de assédio sexual. Isso, por si só, é notícia seja em que momento for, em campanha ou fora dela. O facto de Cotrim estar a ser acusado de assédio sexual não significa que o tenha cometido. O facto de Cotrim negar assédio sexual não significa que não o tenha cometido. Inês Bichão não deve ser condenada por alegar ter sido vítima. Cotrim não deve ser condenado por ter sido acusado como agressor. Inês Bichão não deve ser condenada por ter feito esta acusação agora. Cotrim não deve ser condenado por não (conseguir) provar a sua alegada inocência agora. Para saber se Cotrim cometeu assédio sexual, o caso terá de ser julgado em tribunal. Só em tribunal é possível confirmar se Cotrim cometeu assédio sexual. Só em tribunal é possível confirmar se Inês Bichão sofreu assédio sexual. Devemos presumir inocência a Cotrim e a Inês Bichão. Qualquer opinião a favor de um ou de outro não passa de opinião sem provas – apenas com intuições e simpatias. Os casos de assédio sexual devem ser levados a sério. Os casos de falsa alegação de assédio sexual devem ser levados a sério. Tudo deve ser levado a sério. A acusação não equivale a culpa. A negação não equivale a inocência.

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lugar nenhum

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Andamos entretidos nesta luta esquerda vs. direita em vez de andarmos a discutir ideias. Nem esquerda nem direita são ideias – são lugares de refúgio para quem não tem a coragem (ou a inteligência) de as ter. Enquanto andamos nesta luta inútil e vazia de lugares, os espertalhões (que são de todos os lugares) vão continuando a mandar nisto e a fazer-nos pensar que o essencial é, sim senhor, andarmos para aqui e para ali a discutir se somos daqui ou dali. E só quando já não tivermos lugar, talvez percebamos que, de facto, somos de lugar nenhum.

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o vício dos livros II

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Quer ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores – obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem e sobre algumas pessoas que lêem – escrito por uma pessoa que julga saber escrever. É por isso que considero essencial a sua leitura – para sabermos o que está errado nisto da vida.

O vício dos livros II, de Afonso Cruz.

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bom ou mau

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Não queremos perceber, queremos definir quem é bom e quem é mau. E não é fácil definir quem é bom e quem é mau porque não é fácil definir o que é bom e o que é mau.

Estas são dificuldades que vêm de uma necessidade que vem de uma ditadura do pensamento que nos obriga a ver as coisas em binómio de oposição: bom ou mau, como bonito ou feio, direita ou esquerda.

E aqui temos dois problemas a resolver: definir o conceito – o que é ser bom e o que é ser mau – e definir a quem pertence o conceito – quem é bom e quem é mau.

(Por vezes, muitas vezes, é impossível definir o conceito, o que torna, por vezes, muitas vezes, impossível definir a quem pertence esse (não-)conceito.)

Estes dois problemas fazem com que criemos narrativas antagónicas que, claro, nos colocam uns contra os outros – não pelo tema em si – a moral, a estética, a política – mas por termos – não temos – de ser de um lado – que não existe por si, que só existe por ser criado por nós para nosso conforto. É confortável saber quem somos, é desconfortável não fazermos ideia.

Parece-me que a nossa certeza na nossa crença (de sabermos quem somos e o que são as coisas) é o que nos trama a vida. A nossa única certeza, digo eu, deveria estar na nossa ignorância (que não é crença), na nossa indefinição de nós próprios e daquilo que pensamos. Diria que é esse o caminho que nos aproxima daquilo que realmente somos (que eu não sei o que é).

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pureza

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Quem é português não é criminoso – é o que nos querem dizer. A Lei da Nacionalidade chumbou, e ainda bem. A ideia era retirar a nacionalidade a naturalizados condenados nos dez anos seguintes. Não faz sentido, por uma razão: a verdade. E a verdade diz que o português não é puro. Porque ninguém, de nenhuma nacionalidade, é. Porque somos todos impuros porque somos todos humanos porque somos todos impuros. Porque somos todos maravilha e merda. Porque somos todos tudo. Dizer que um português deixa de ser português por cometer um crime é dizer que o português está num lugar que não existe – o da pureza. Querer fazer esta depuração da nacionalidade é, mais do que tudo o resto, querer fazer uma depuração do ser humano, tirando-lhe parte daquilo que faz dele o que ele é: as coisas «más». Nós não somos apenas lindos e respeitadores. Nós também somos feios e maus. E tudo isto é ser humano, é ser português, é ser da nacionalidade que for. Quem diz que não, não está a defender os portugueses como diz estar, nem está a defender aquilo que é. E não defendermos o que somos, por não sabermos que somos tudo, é sermos contra nós. E sermos contra nós é sermos contra a vida. E sermos contra a vida não me parece que seja uma boa forma de viver.

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quem é

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Sobre ninguém. Na verdade, sobre alguém que eu nunca vi – eu não ter visto alguém não quer dizer que esse alguém não exista, não seja. Mas há quem seja ninguém, mesmo existindo. E talvez esse alguém, que pode ser ninguém, insista em ser aquilo que é – mesmo que uma negação. As negações também existem – tudo o resto é que não. Esta negação, ou inexistência, insiste em deixar, todas as semanas, o jornal pendurado na porta de alguém – que também poderá ser ninguém, que eu nunca vi (ou já terei visto, mas não terei ligado ao jornal pendurado na porta). É, também, uma inexistência. Ou uma existência morta – tudo da minha visão, sim, que, para mim, só existe o que eu vejo e não o que eu posso ver – se calhar, só vejo o que posso ver, assumindo que exista qualquer coisa, uma inexistência, que me autorize a visão. Talvez não. (E o que é isso de ver?) Não assumo essa utopia, essa ilusão. Esta pessoa, a que deixa o jornal, deixa o jornal durante o dia. Não entra em casa, não toca à campainha – tudo suposições da minha cabeça. Imagino que não entre em casa, que não toque à campainha. A dona da casa, que também imagino ser a dona da campainha, e que também imagino ser dona, não espera que anoiteça para lá ir buscar o jornal. Imagino que seja um jornal – está num saco de jornal. Pode ser outra leitura qualquer, para um homem, para uma mulher, para um gato que goste de ler… Pouco importa. O jornal, vamos assumir que o é, pendurado na porta, fica ali o dia inteiro como se estivesse no café – só lhe falta um cigarro e um cinzeiro. O jornal existe? E a pessoa que o foi lá deixar, um homem ou uma mulher, existe também? (Isto da existência não me faz bem.) Essa pessoa – existe, sim – tem o cuidado, o carinho, o contentamento – seja lá o que for – de deixar o jornal a alguém que não o consegue, ou que não o quer, ir buscar. É bonito ver uma coisa assim – pelo menos, para mim, que imagino que, além de um alguém e de outro alguém, seja um jornal para quem o queira ler. E, existindo ou não, isto da afeição é mais do que razão para alguém, ou ninguém, ser.

Jornal de Leiria

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assentar ilusão

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Ainda não há sol, e ele já de pé, em frente a uma parede que ele está a construir. Cimento, pedra, betão, tudo lhe passa pela mão enquanto há gente a dormir. Não está sozinho, tem gente que o acompanha naquele trabalho duro. Ouve-se música que vem de um rádio velho, daqueles da guerra que resistem ao vento, à chuva e ao futuro. E ele, este homem, de calças enfeitadas por tinta branca e rasgadas pelo dia, vai tratando da sua parede, vai olhando e orientando as paredes e os chãos dos outros, e vai criando e dando a ver o que dantes ninguém via. É ele, digo eu, que manda ali – não no sentido de ser o dono do que ali está, mas no sentido de dar sentido àquilo que há. Ele constrói e manda construir o que já outros lhe disseram. Talvez esteja ali apenas a cumprir, mas eu acredito que ele faz mais do que existir. Ele é a realidade do que os outros quiseram, sonharam, pensaram, desenharam e lhe deram para fazer. Ele é qualquer coisa como um concretizador – não concretiza dor nenhuma, como diria o da televisão. Ele concretiza o sonho, que, mesmo podendo andar de braço dado com a dor, anda aos abraços e aos beijos com a ilusão. E essa ilusão só deixa de ser quando alguém lhe dá a mão. E, mesmo deixando de ser ilusão assim que é concretizada, nunca deixa de ser a ilusão que foi, que não se perdeu, que não se esqueceu por nada. De vez em quando, passo de carro juntinho à parede que ele está, agora, a construir ou a rebocar ou a polir ou a limar, e ele a seguir o mapa que lhe permite navegar. E ele, quando eu lá passo, para eu passar, deixa de fazer o que faz, encosta-se a um lado e fica a ver, à espera que eu passe e que a vida, para ele, volte a fazer sentido. Diria que ele, este homem, não fazendo o que faz, não concretizando as ilusões de quem as tem, fica perdido, fica sem, fica escondido, fica ninguém. E não deve ser bom ser ninguém, por muito que se seja alguma coisa pequenina. Talvez, para ele, para este homem, a ilusão, não sendo dele, é tudo o que ele tem, e, entre um tijolo que vai e vem, talvez seja essa a sua sina.

Jornal de Leiria

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mas tão longe

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As duas, lado a lado. Hora de almoço, um cigarro na mão e um silêncio que vai sendo intervalado com conversas que vêm de todo o lado, e elas ali, a olhar o chão. Como se procurassem um passado que já lá vai e que não volta – porque o passado nunca volta, porque, se voltasse, não seria passado, seria presente e, sendo presente, não voltaria porque o que é, é agora, nunca tendo sido antes. Mas ali estão elas, encostadas ao muro, como duas estantes, a fumar e a ouvir e a olhar e a deixar ir o corpo até o corpo parar. Cada uma de bata azul, as duas iguais – trabalharam a manhã inteira, agora não querem mais. Não durante aqueles cinco minutinhos de fumarada e de silêncio e de chão e de, por vezes, conversa que, rapidamente, se transforma, novamente, em solidão. Passaram o portão e, no estacionamento, vão sendo, naquele compasso lento, o que cada uma é de si – amigas, assim parece, e nem uma nem outra esquece aquilo que a outra é: uma bengala na vida que vai sendo consumida por um cigarro e, quem sabe, mais tarde, por um café. Lá dentro, do outro lado do portão, está a limpeza das escadas, das janelas, do chão, os pequenos recados que levam da cantina ao pavilhão, da sala dos professores à biblioteca onde estão os livros, os jogos, os computadores, e elas, cada uma na sua luta, vão levando a labuta durante o dia inteiro. Entram de manhã cedo, ainda é nevoeiro naqueles dias que, mais tarde, tendo em conta o sol que arde, são de calor. Saem cedo, também, cada uma será mãe e terá o seu amor. Em casa, segue o dia, à tardinha. Já sem bata, já sem escola, já sem campainha para sair nem para entrar. Uma tábua de passar a ferro, uma sopa ao lume e uma novela a dar. Vem o marido, vem a noite e vem o teria sido se ela, não a noite, a mulher, tivesse tido outra escolha mais cedo. Talvez tudo se repetisse, talvez por vontade, talvez por medo. Talvez ela se deite com saudade do tempo que passou – em boa verdade, só se pode sentir saudade do que voou, do que já não há. O que temos não sabemos e o que teremos nunca será. E, assim, talvez tudo seja passado. E elas, por fim, as duas, lado a lado.

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balada do chão

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A minha rua não tem quase ninguém, a não ser toda a gente que a minha rua tem. Um só caminho, estreitinho, um ou outro vizinho que ali faz o dia. Os carros só entram de frente, um ou outro adolescente, pequenas porções de gente, e o meu gato que mia. Além de tudo isto, que é poucochinho embora tanto, passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça no dia daquele recanto. E, lá de vez em quando, talvez uma vez por mês, passa uma senhora limpando, de pá e vassoura junto aos pés. Veste verde, tem um boné e leva um carrinho, devagarinho, até ao finzinho da rua. Limpa juntinho à minha casa, apanha o lixo que está no chão, e lá vai de casa em casa, assim de grão na asa à procura de um coração – a minha imaginação. No carrinho, de duas rodas, um contentor, uma caixa de metal e um sítio onde pôr a garrafa de água e mais qualquer coisa que dê jeito trazer – talvez a carteira e uma ou outra vontade de deixar de ser o que ela é. Apesar de não haver nenhuma vergonha em ter a profissão que tem, talvez ela não tenha sonhado que o mundo organizado fosse este o mundo de alguém. Mas é o dela, desta mulher que limpa e varre – haja alguém que a agarre, que consiga fazer o que ela faz. Parece não ter ciência, mas há cultura na decência de limpar o que deixamos para trás. Há, até, uma certa beleza nesta coisa da limpeza que deveríamos dizer: limpar é renovar a vida, dar ao fim outra saída, numa palavra, é viver. E esta mulher lá anda, empurrando o carrinho como se empurrasse o futuro. Limpa passeios e calçadas, tristezas e gargalhadas que moram juntinho ao muro. E ela mora ali também. Não só na minha rua, mas em todas as ruas da cidade. São elas a sua casa, o seu lugar. E diria que a sua vontade é por elas continuar. Se não fosse ela, a minha rua não seria assim. Teria gente, os tais carros a entrar de frente, mas estaria, como seria, à beirinha do fim. Se não fosse ela, nem eu por lá andava, nem o meu gato miava, nem teria o que escrever. Ela empurra o seu carrinho e, assim devagarinho, lá nos ajuda a viver.

Jornal de Leiria

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os gatos

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Ainda não há noite, e ele acaba de chegar. Ainda há garotos a correr, alguns cá fora, escondidos, a fumar. A maioria dos que estão ainda anda pelo recinto da escola como se estivesse a passear. Ele chega descontraído, camisa de manga curta, como os passos que dá, entra no seu pequeno escritório mesmo ao lado do portão, numa pequena casa, e por lá fica algum tempo. Passado esse tempo, que é sempre algum, abre a porta e começa a sua caminhada pela escola. Caminha devagar, mas com passos certos e seguros do caminho e do lugar. Dá a volta à escola, sabe o que ver, já conhece o que vê. Gordinho, baixinho, lá vai devagarinho fazendo o caminho que já sabe de cor. Não sei já quantas vezes o fez, não sei há quanto tempo anda ali – nunca lhe perguntei. Mas diria que anda há eternidades. Uma, talvez, que basta ser sozinha para já ser demasiada. Cumprimenta os professores, os alunos, as contínuas, as senhoras da limpeza. Até os gatos. Parece dar-se bem com toda a gente – até com quem não é. Mas, para fazer o que ele faz, caminhar e cuidar sozinho daquele lugar tão grande, também tem de dar-se bem com ele próprio. É quando toda a gente vai que ele fica mais acompanhado. Os gatos não vão embora. Mas nem são eles que lhe fazem mais companhia. Diria que é ele, desacompanhado, que se aproxima dele, que fala com ele, que pensa com ele. Até ser dia. A escuridão não o assusta. Eu diria que custa fazer o que ele faz. Mas, enquanto quase toda a gente está a dormir, ele tem o mundo inteiro só para ele. Aquela escola. Aquela cadeira naquele escritório naquela pequena casa. Quase uma casota, um lugar de máquinas, computadores, papéis e talvez uma televisão. E ele um cão de guarda, vigilante. Como um super-herói. Um Rorschach sem a máscara e sem a dor. Atento ao mundo da noite, aos pesadelos, aos bandidos e aos gatos. Tem uma lanterna. De vez em quando, já noite, vejo, da minha varanda, uma luz a dançar nas paredes da escola. É dela, da lanterna, a luz que dança. E ele, o segurança, a mão que a controla.

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a porteira da minha rua

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A minha rua é pequenina, tem lá pouca gente a morar. E, sendo uma rua pequenina, é fácil encontrar a minha vizinha que lá anda sozinha pela rua a passear. Mora quase ao fundo da rua – ou ao princípio, se olharmos de lá – numa casa baixinha, velhinha e que ainda lá está. À porta, protegida por um estore, muitas plantas pelo chão. Lá dentro, qualquer coisa de amor e uma televisão. Imagino que ela, a minha vizinha, se senta no sofá ao final do dia a tricotar. A televisão ligada, só para ela não estar sozinha e ter alguém a acompanhar. O marido também lá anda, mas nunca se deixa ficar por ali. Ele sai de casa bem vestido, fato engomado, mãos nos bolsos ao comprido, como se fosse cantar o fado. Sim, ele já esteve por aqui. E ela lá fica na sua cantoria de quase solidão, arrumando e tricotando o dia que lhe vai passando pelo coração. Quando ela sai, sai devagarinho, sem aleijar. Olha a leste, olha a poente, sente o vento quente e deixa-se levar. A rua é também pequenina para ela que, por ela, caminha toda a manhã. Conhece-a pela janela, cada vaso, cada pedrinha, cada pedacinho de lã que, não sendo, assim parece tal é o jeito que ela, percorrendo, dá aos pés que, no chão batendo, fazem dela guardiã. Ela é como se fosse a porteira daquela rua. Só lá passa quem ela deixa passar. Só à noitinha, quando há lua, ela deixa a rua da sua rua e vai-se deitar. De noite, passa quem quiser. A minha rua não dorme, mas dorme a mulher. E a noite tem gatos e gente e gente que se parece com gatos e gatos que não são menos do que gente. É a mesma rua, sendo tão diferente. De manhã, a minha rua só desperta quando a minha vizinha sai pela porta aberta e faz a vistoria. As plantas ainda lá estão. A lua é que não, que já é dia. E há gente a passar, uns miúdos a namorar e gatinhos e passarinhos e carros – só um ou dois. A minha rua, pela fresquinha, tem sempre a minha vizinha e o fumo adolescente de alguns cigarros. E, depois, quando já não há ninguém ali, a minha rua renasce numa vida diferente. A minha vizinha pouco sorri, mas caminha contente. E anda por ali, como se ela fosse toda a gente.

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ele e ninguém

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Sozinho, com tanta gente. Bebe a cerveja devagarinho, intermitentemente. A vida dele não é poesia. É qualquer coisa rude, amarga, que lhe acontece todos os dias. Vejo-o caminhar pela cidade sempre sozinho, mas sempre acompanhado pelas pessoas que ele vê e com quem fala. Depois, senta-se no café, como se estivesse rodeado de gente. Vem o empregado, ele fala, também, com o empregado, pede uma cerveja e continua a conversa com todos os amigos que tem ali à volta. Não tem amigos ali à volta – pelo menos, eu não os vejo. Mas ele fala como se eles ali estivessem – e talvez até estejam. Tem longas conversas que eu não percebo, sorri, ri, enerva-se, levanta a voz. Mexe os braços e inclina o corpo para sussurrar qualquer coisa a qualquer pessoa que ali esteja. Leva, à boca, a cerveja. Bebe muito. Já tem pouca. Olha para o amigo, olha para a cerveja, e bebe o resto. Continua a conversa com quem ele vê, e encosta-se na cadeira. Levanta o braço, volta o empregado e volta o pedido. Na verdade, ele não diz nada – apenas levanta o braço segurando o copo. O empregado percebe, claro que percebe, todos os empregados percebem, toda a gente percebe, e regressa com um cheio. Coloca o copo na mesa, pega no copo vazio e volta para o balcão. Entretanto, tantas conversas com aquela multidão. Ela não se vê, é um exército de fantasmas que ali está, alinhado, pronto para qualquer ordem de ataque. Bebe mais um pouco, olha em volta, fala para um lado, fala para o outro, fala em frente, vira-se para trás e dá um grito. Volta à cerveja, voltando um bocadinho a si. Já não fala. Olha em frente, como se olhasse para dentro. Fica assim durante uns instantes, parecem muitos, parecem longos, parecem infinitos. Eu olho para ele de longe e vejo que ele, mesmo olhando, não olha para lado nenhum. Mexe os lábios devagarinho, mas não fala – parece dizer qualquer reza que sabe de cor, que lhe silencia todas aquelas vidas que lhe existem ao redor. Volta a parecer um homem a beber uma cerveja. Talvez esta seja a solidão mais só.

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desenho

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Ele anda deambulando, rabiscando em folhas que lhe aparecem à mão. Ora sentado, ora andando, ele vai sendo e vai estando em cada recordação. Porque são recordações aqueles desenhos que ele faz durante todo o dia. São como pequenos corações que trazem alegria a quem passa pelo seu caminho. Desenha o que lhe aparece, o que ele quer. E lá anda sozinho, em troca de um copo de vinho, a percorrer a cidade. Parece não ter idade, mas já é velho – pelo menos, aparenta. E os desenhos que ele inventa estão todos na sua cabeça sem pente. Ele desenha o que vê, ele desenha o que sente. De perna cruzada, sentado na esplanada de um café ou no degrau de uma porta, ele vai desenhando aquilo que ele é – o resto pouco lhe importa. Só quer ter liberdade para desenhar, para se sentar, para parar e olhar com atenção. Ele só se desenha a si mesmo, mesmo só desenhando tudo o que lhe está fora. Não demora quase nada a fazer a sua arte – é só o tempo de um instante. O instante faz parte, a inspiração é constante. Seja Inverno, seja Verão, seja Outono ou Primavera, lá anda ele, de pés colados ao chão, viajando de estação em estação, talvez pensando naquilo que era. Talvez não. Não sei dizer. Não sei se ele é assim por obrigação, se por querer. Mas a verdade é que ele anda sempre de caneta na mão, a tentar viver. E o que se pode dizer de quem tenta viver assim? Ele é o que tem de ser, uma espécie de fim ambulante. Sempre encostado às paredes das ruas que percorre, sempre distante. Às vezes, parece que morre, mas é durante essa pequena ausência que ele faz magia. Como se a noite virasse dia, assim, num repente. E toda a gente vê tudo o que não via, e ele vê toda a gente. De barba branca e de gorro na cabeça, parece esconder-se do mundo. Anda durante o dia, à espera que anoiteça para voltar para a sua casa – seja lá ela o que for. Talvez durma na rua, talvez tenha um amor à espera dentro de quatro paredes e um telhado. Que vida será a sua? Por quem será desenhado?

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ela e a vida

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Ela fica ali a tarde inteira. Parece não se mexer. Sentada, na cadeira, a fumar e a beber. Está sempre naquele café junto à estrada. Eu desço a rua, eu subo a rua, e vejo-a sempre a fazer nada. Só ali a existir, a conversar, a sorrir e a tentar passar o tempo, como se o tempo fosse tudo o que lhe restasse. Não terá trabalho, não terá família, talvez um cão que estará em casa a dormir no sofá velho que ela terá na sala. A casa será velha, arrendada, um apartamento escuro num prédio da cidade. Terá sido casada, uma vida infeliz, triste, amargurada. Decidiu abandonar, não aguentava mais os gritos e as ameaças do marido. Ao início, sonharam com tudo, com uma vida bonita, filhos e uma cabana. Mas cedo o casamento caiu. Foi ele quem a traiu. Olhou para outra, foi atrás dela, mas não fugiu. Foi vivendo duas vidas, assim escondidas, pela tristeza e pela mentira. Foi chegando tarde a casa, foi rejeitando a cama, o coração já não estava em brasa, só berros e lama. E ela foi hesitando, sofrendo, desconfiando e sendo o melhor que poderia ser naqueles instantes de tortura. Já não havia amor, só amargura. Toda a ternura tinha desaparecido, ele já tinha ido embora, não se aguentavam nem um pouco, e agora, ele, louco, já sem ela e sem ninguém, volta de vez em quando para ter o que já não tem. Mas não consegue. Ele vem, mas ela diz sempre que não. Ele insiste, não desiste, mas ela não quer, e fica triste, ali a mulher. Ela tem outra solução, seguir com a vida dela. Já tentou, mas a sacana da depressão não a deixou. E ela por ali ficou. Sentada na cadeira, a fumar e a beber. À procura de nada, só de um sítio onde se proteger. Estão outros sentados noutras mesas à volta dela, bebendo e fumando também, vendo televisão, lendo revistas e jornais, falando das vidas dos iguais a eles que se passeiam por aí. E ela aqui, neste café, passando a tarde com a vida como a vida é. Acorda, faz qualquer coisa pela rua, e lá vai para o café. Desempregada, sem nada para fazer, lá está ela sentada, a fumar e a beber.

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um passado

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Tem cara de Adelino. É dos olhos, da boca, do nariz, mas, essencialmente, do nada que ele diz enquanto está ali encostado àquela porta. Tem cara de Adelino. Na verdade, não sei bem por que razão. Mas é como se ele rejeitasse todos os nomes, e aquele não. Adelino, um abraço de velho com menino. Um só, eles os dois, ali bem vestido, olhando as pessoas a passar, olhando as pessoas a dançar, mas parecendo olhar o tempo que vê a contar. Em casa, certamente, terá alguém. Uma mulher que o espera vendo televisão ou que não o espera, de todo, sabendo que ele vem, um bocadinho mais tarde, como o Pessoa, p’ra ao pé do seu coração. Ele agora está ali. É de noite, e eu não sei quem é. Olho para ele, e tento descobrir qualquer coisa, ali, de pé. Já é um senhor de alguma idade – como se todos os senhores não fossem de alguma idade, seja ela qual for. É de noite, e ele parece não pertencer. Mas há qualquer coisa de amor, de enternecer. Uma imperial na mão direita e um vazio na mão esquerda, que ora vai ao bolso, que ora fica suspenso no ar. E ele, ali, a olhar. As pessoas dançam, as pessoas falam e bebem. Ele, bem mais velho do que todas elas, como se fosse uma estátua dos que já foram, uma representação dos que já não estão ali, um guardião dos que passam por ele, brincando, rindo, cantando, e ele sereno, como se o seu único propósito fosse ocupar aquele espaço junto à porta, ora do lado de dentro, ora do lado de fora. Quieto, sem ir embora. O Terreiro tem ali a sua gente concentrada, nos Filipes, e ele à entrada. Bem vestido, postura firme, barriga saliente. Ninguém fala com ele, e ele, discretamente, vai ouvindo e vendo o que se passa, fazendo o que eu faço também, inventando histórias das pessoas que aquele lugar tem. De cabelo branco, cara enrugada, olha e vê tanto, olha e vê nada. Mais uma cerveja para entreter o que ele deseja compreender. Tanta gente e ele sem ninguém, certamente em casa o espera alguém. E ele lá há-de ir, assim meio a sorrir, assim meio menino. Não parece fingir. Tem cara de Adelino.

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madrugada

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É madrugada e nada existe. Só um corpo meio morto, meio triste.

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um dia normal

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É um dia normal. Não é. É mais um dia, e o fim aqui ao pé. Mais perto. E o caminho. Sozinho. E um deserto. Mais perto. Ainda falta um bocadinho. É viver enquanto dá. Tudo é farpa e tudo é ninho. E a vida é o que há.

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o velho no muro

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Na esquina, dizendo adeus. Lá está ele, velhote, vivendo enquanto partem os seus. Já não há ninguém da sua idade, da sua geração. Todos partem, ele não. E insiste em ficar, como quem não quer a coisa, como quem nem liga à vida, a observar. Sentado ao sol, num pequeno muro de pedra, vê as vidas dos outros a passar. Ora de carro, ora a pé, muita gente lhe levanta a mão para o cumprimentar. E ele levanta a sua de volta, e volta a vida a passar. O que lhe vai na cabeça, nos olhos que controlam a estrada? Tanta coisa, talvez nada. A sua vida é estar ali, observando o que se passa à sua frente, dando um certo objectivo ao seu dia, dando-lhe que fazer. Se alguém lhe perguntar, ele dirá que está a viver. Tanta gente que ele vê, que passa ali naquele lugar. Tanta vida que ele, ali, deve inventar. Aquela leva os filhos à escola, aquele vai almoçar, aquela vai às compras, aqueles vão trabalhar. Esteja frio ou calor, ele não sai dali durante uns bons infinitos. Sempre que o vejo, ele está lá. Mas não passa lá os dias inteiros, obviamente. Tem a sua vida noutros lugares, em casa, na horta, no café, nos caminhos, na família. Eu é que olho para ele ali, naquela esquina, naquele lugar, e parece mobília. Parece tudo aquilo que nós quisermos pensar. Um velho ali quieto, a olhar. Faz parte da paisagem, fará parte da miragem quando ele deixar de existir. É ele a sua imagem, é ela que nos diz adeus a sorrir. Ora de boné, ora de gorro, o tempo não lhe mete medo. O que será que ele vê além do óbvio? Qual é o seu segredo? Será que conhece mesmo toda a gente? Será que está ali só por estar, indiferente? Talvez sim, talvez não. A verdade é que ele existe naquele lugar, naquele instante, levantando a mão. Por vezes, faz só um aceno com a cabeça. E aquele gesto ameno faz com que tudo aconteça. Se eu o olho e lhe digo olá, todo o seu rosto brilha, e parece que ele sai da ilha onde está. Todo ele sorri, todo ele é dono de si, da sua felicidade. Alguém o viu, alguém lhe disse olá ou disse adeus – é tão difícil distinguir – e ele respondeu do lado de lá, sempre a sorrir.

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o meu pai

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O meu pai conta sempre as mesmas histórias. O meu pai inventa canções. O meu pai está sempre a rir. O meu pai é corações.

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era o meu padrinho

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Era o meu padrinho. Era um homem forte além de todas as medidas. Era um menino de olhos grandes azuis com medos que lhe vieram do outro lado do mar. Era assim, da forma errada, que se fazia na guerra. Era assim, da forma triste e revoltada, que ele vivia desde o dia em que voltou à sua terra. Era um estudioso, um exemplo, um herói. Era um senhor, um lutador, um amor que já foi. Era o meu padrinho. E era muito mais do que tudo isto. É por isso que dói.

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volta a leiria

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Anda vadio pela rua, e lá anda pela estrada. Ele e uma bicicleta. Mais nada. Ele de colete fluorescente, equipamento obrigatório em cada corrida, passando assim pela gente como se passasse pela própria vida. É uma bicicleta vulgar, mas parece um foguetão que o leva sempre a voar sem nunca sair do chão. Já o apanhei a pedalar, já o apanhei ao lado dela. Depende do lugar, parece uma caravela e ele um daqueles marinheiros antigos de cara cansada e postura forte, passando assim por nada como se passasse pela própria morte. Não se deixa abater. Faça chuva ou faça sol, lá está ele a ser o ciclista que tem na sua imaginação. Uma espécie de artista, de camionista de coração. O olhar é inquieto, parece estragado, por estar muito aberto a olhar para todo o lado. E o cabelo aos caracóis, quase inexistente, puxado para trás, por um pente. Assim parece, assim é, umas vezes montado, outras vezes a pé. Mas sempre focado no seu objectivo de andar de um lado para o outro, de fazer um percurso que ele tem na sua cabeça. Sempre, todos os dias, a subir, a descer, lá vai ele a ser, a pedalar. A vida não lhe parece ser mais do que aquilo que ela é, uma pista de corrida. Nunca o vi com alguém. Vejo-o sempre sozinho, destacado do pelotão, o camisola amarela. Talvez a mãe o chame para casa, da janela. Talvez ninguém o chame. Parece-me mais assim. Parece haver pouca gente à volta dele. Pelo menos, para mim, que o vejo todos os dias compenetrado, embora vadio, concentrado, no meio da estrada ou junto ao rio. Será que ele se imagina numa Volta a Portugal? Será que ele sobe a rua como quem sobe a Nossa Senhora da Graça? A verdade é que ele leva aquilo a sério, e aquilo não lhe passa. Fica-lhe na cabeça como se fosse realidade. Por mais estranho que pareça, sim, é mesmo realidade. Tudo o que ele imagina, existe. Mesmo para quem olha de fora, e lhe pareça um cenário triste. Ele pega no guiador e lá vai ele sem destino. Talvez a meta seja o amor, mesmo que pequenino.

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uma série, tantas repetições

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O senhor Alberto vai todos os dias ao ginásio. Acho que é assim que ele se chama. E acho mesmo que vai. Ele diz que sim, sempre que o encontro por lá. E eu só tenho de acreditar. Ele não mente, não tem cara de mentir. Tem cara de lá ir – ou de dizer verdade quando diz que vai. É simpático, está sempre com um sorriso naquela cara bochechuda e pequenina daquele corpo bochechudo e pequenino também. E anda pelas máquinas a experimentar uma e outra, sempre a sorrir e com os olhos pequeninos, de toalha ao ombro e olhar fisgado numa ou noutra conversa que lhe apareçam à frente. Eu acho que ele só vai ao ginásio para poder estar rodeado de gente e de conversas. Na sua horta, que diz que é pequenita, mas com tomates, romãs e batatas, deve sentir-se sozinho. Fala para ninguém. Ali, no ginásio, ainda encontra alguém. Muita gente, até. E ele lá manda uma laracha daquelas que são o que ele é, do estado do tempo ou do cá estamos, tem de ser, cá se vai andando. E nós todos estamos, temos de ser, cá vamos andando. Com ele. Dá-me sorriso olhar o senhor Alberto. Está lá sempre de manhã. Por entre musculados e delineadas, a olhar para um lado, a olhar para o outro, como se estivesse a ver um filme de que gostasse muito e que o levasse às nuvens – qualquer coisa assim muito poética para a visão que tenho de um velhote, ainda não muito velhote, num lugar que não é o seu, a apreciar o que não tem, o que o rodeia. Só gente linda, nada de gente feia. E ele faz parte daquele lugar. Mesmo não lhe pertencendo, é lá que ele deve estar. E é lá que ele faz os seus exercícios de braços, de pernas, de tronco, de cabeça – de imaginação, talvez melhor dizendo. Ele trabalha o coração, e eu vou vendo. O senhor Alberto vai ali só para estar, só para ver e só para falar. Ser ginásio é irrelevante. Poderia ser um talho ou um jardim. Mas sei que tudo é bastante, e que o senhor Alberto também olha para mim. E fala comigo vulgar, como se tudo fosse importante, e o mais importante fosse estar.

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os dois e a noite

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Ele e ela, ali os dois, no mesmo lugar. Um lugar pequenino, sobre rodas, a trabalhar. De noite, lá estão eles. Não todas as noites, só algumas, até às tantas, no estacionamento do mercado. Vendem bifanas, cachorros, hambúrgueres, kebabs. Cervejas, águas e sumos. Oferecem conversas e companhias a quem vem da noite ou a quem só a terá como destino depois daquela bifana especial com todos os molhos. Para beber? Pode ser uma média. Ela, vestida de branco, com a farda quase militar de quem pergunta, organiza, cozinha. Ele, vestido de uma cor qualquer, com uma farda que é uma t-shirt que tem vestida e que tem nódoas de conversa com quem se alimenta ali encostado ao balcão. É ela que orienta, é ela quem manda ali. Ele nem tenta, apenas sorri. À sua maneira, fazem o que têm de fazer. Muito mais do que cozinhar ou de pôr maionese numa bifana à casa. Eles conversam, ouvem lamentos e desejos, vêem abraços e beijos de quem chega ali esfomeado de falar. E de comer, que a noite também dá fome. Como se aquele lugar, àquelas horas, fosse um confessionário da comida, uma espécie de santuário para quem acaba e para quem começa a vida escura. Fala-se da vida e das coisas que a vida tem. A bifana é um pretexto. Há fila como se fosse romaria, existência como se fosse dia. Mas é a noite que existe. E lá está ela, a fazer o cenário para aqueles dois e para todos aqueles que por ali passam. Aos pares, em grupo, sozinhos. E a noite é deles todos. De quem lá vai contente e quase no fim, de quem lá vai triste, de quem lá vai só porque sim, porque faz parte da rotina que leva quando sai. E eles os dois, ali, quase como mãe e pai. Recebem toda a gente, falam com toda a gente, decoram os pedidos de cada um. Por atender? Nenhum. Toda a gente lá acaba por comer. E dar uma palavrinha ou outra. Seja jovem, seja velho, qualquer um é recebido e ouvido por ele e por ela. Há simpatia, simplicidade, alegria, e a cidade ali estendida entre dois dedos de conversa e outros tantos de comida.

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sem pregões

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Duas douradas, uma escalada, outra não. Choco e lula. Corvina e sardinha de mão em mão. Meu amiguinho, obrigada. E lá vai ela agradecendo, enquanto amanha mais uma pescada. Terças, quintas e sábados, lá está ela na sua banca a vender o peixe que lá tem. Sempre bem apregoada, entre gente que vai e gente que vem. E a gente faz fila e espera pela sua vez. Quantos carapaus? Hoje, levo três, vai lá o meu filho almoçar. E lá vão os três carapaus, acabadinhos de pescar. Ela de um lado para o outro, a ouvir, a falar, a sorrir, a escamar. Tem contas apontadas nos azulejos azuis da sua banca por cima de um Santo António, uma Nossa Senhora e um telemóvel. Cento e vinte e quatro mais cento e quarenta e um dá duzentos e sessenta e cinco. Cento e dezasseis mais duzentos e catorze dá trezentos e trinta. Contas certas, rezas feitas, telefonemas atendidos. Diga, diga. Está guardado, não se preocupe. E, por entre toda aquela algazarra que lá vai dentro, lá vai ela fazendo contas, vendendo, rezando. E o tempo lá vai passando. Este é para levar ao forno, aquele é para grelhar, o outro ainda não sei. São todos para levar. Peixe fresquinho, acabadinho de chegar. Tem companhia, a mulher. Outra que a ajuda a atender, a preparar, a receber. Em silêncio, ali na sombra, sem se notar. Cabelo esbranquiçado e apanhado, para não estorvar. Voltemos a ela. Cabelo loiro, um pouco apanhado também, e lá vai ela atendendo a tal gente que vai, a tal gente que vem. Sorri assim quase por vergonha. É tímida – pelo menos, parece. Tem sempre palavras serenas para quem chega. Não faz alaridos, não berra. Destoa, até, um pouco das colegas que lá tem a vender o mesmo peixe, que não é o mesmo peixe, que ela. Ou a fruta. Ou os legumes. Ou as plantas. Ou as ervas. Ou o que for. Melões, cenouras, batatas, tomates, feijão, alecrim. Tudo em torno dela. Ela em torno de mim. Duas douradas, uma escalada, outra não. Choco e lula. Corvina e sardinha de mão em mão.

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rock and roll leiria

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Ele é do rock. Desce e sobe ruas como se subisse e descesse escalas no braço da sua guitarra. A rua, por agora, é sua e é o palco. Sem guitarra e sem escalas. Tudo na sua cabeça. E na minha. De cor e salteado, por aí, por todo o lado, cabelo grisalho e comprido ao vento, sentindo o tempo, marcando o tempo. Batida acelerada, como o passo, andar seguro, mas não severo, com aquela ginga do rock and roll, dos músicos dos outros tempos que agora existem a lembrar e a conversar e a ouvir o que lhes foi a existência. Olho para ele e vejo épicos solos numa Fender ou numa Gibson. Uma maravilha. Também o poderia ver numa Tama ou numa Pearl, sete tambores, quatro tarolas, três bombos, vinte pratos. Outra maravilha. Mas, por qualquer razão da minha visão, lá está ele com uma guitarra amarrada ao pescoço. Parece que procura alguém que o acompanhe no riff que criou para a sua vida. Como se procurasse alguém para o acompanhar na sua despedida. Já não é novo, já tem as suas entradas e as suas conversas de tempos que só ele e outros como ele viveram. Mas ainda está aí para as curvas e contra-curvas que a vida certamente lhe vai apresentando. Como a idade. Filipes, Farmácia, Arquivo, Centro de Saúde. Lá vai ele, mais amiúde. Como os Xutos. Mas sozinho e sem pontapés. Cabelo sempre solto, calças sempre justas, conversas sempre prontas. Quando alguém o pára, ele fala e continua a falar – e parece que se ouve, outra vez, a guitarra a tocar. Antigamente é que era. Os putos não sabem. Era ele e outros tantos, ali, a viver a vida louca das canções. Mas os putos sabem, claro que sabem, e sabe ele também, mesmo sabendo que antigamente também era – tal como é ainda hoje. É o que eu penso que ele pensa – a vida é que já lhe foge. Mas ele é do rock. O que lhe interessa isso da vida, mesmo que, tendo em conta o que ela é, ela já lhe ande fugida? Claro que nada. Ele continua a tocar, guitarra ou bateria, e continua a passear, a ser e a rockar por Leiria.

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flor

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Ele existe nesta cidade como tantos outros como ele existem em tantas cidades. Bem vestido, geralmente de calças de fato, de sapatos e de camisa branca, anda por entre as multidões vendendo flores, tentando, de certa maneira, acordar corações, juntar amores. E algum dinheirito para si e para a sua família, imagino. Não o conheço, não lhe sei a vida. Mas, quando o vejo, soa-me sempre a despedida. Tem um olhar triste que parece não querer ser outro – é aquele que ele tem e é aquele que está condenado a ter para o resto da sua existência, como se fosse um mártir daquilo que faz. Parece que as flores que carrega são pesadas como a consciência que traz ou como a saudade que sente sabe-se lá de quem, sabe-se lá de onde, talvez do pai e da mãe, talvez do país. Por vezes, há quem lhe pergunte. Ele não diz. Guarda as palavras para si, talvez por vergonha do erro ao dizê-las numa língua que não é a sua, talvez, simplesmente, por não as querer dizer – não tem de as dizer. Basta-lhe a rua. Só pergunta à gente se a gente quer flor. Mais nada. Anda vagabundo com vários ramos, como se fosse um chefe de mesa deambulando, vendendo amor. Meia dose, meia dúzia do que for. Vai a festas, vai a ruas, vai a todo o lado desde que haja gente a conversar, a jantar, a namorar. Vai a todo o lado, é de todo o lado, talvez por não se saber encontrar, talvez por não ser deste lugar. Mas, mesmo não sendo, faz parte dele. Este lugar não existe da mesma maneira se ele não existir também. Faz parte da cidade, da calçada, do dia e da noite, das brincadeiras e dos engates. Por vezes, até faz parte das palavras preconceituosas, dos espinhos das suas rosas, e dos ataques. Mesmo assim, talvez ele até seja feliz. Talvez o rosto que aparenta não seja reflexo do que sente. Se calhar ele até tenta ou, para ele, a felicidade é uma coisa diferente. E ele lá anda, sempre discreto, contornando vidas e conversas e bebidas e sem pressas. Devagarinho, fazendo a sua vida ao seu jeito. Pela sua cidade, com as suas rosas ao peito.

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pela vida, cidade

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Anda pela cidade devagar, como se a cidade só andasse se ele andasse também, como se ela não pudesse respirar, como se ele fosse os pulmões que ela tem. E ele fala assim, envergonhado, com medo de falar, vai-se chegando aos outros encurvado, numa forma tremida que parece venerar. Anda pela cidade às escondidas, como se ninguém o visse e toda a gente o encontrasse, como se ele se despedisse e logo depois se mostrasse a quem está aqui e ali, numa esplanada, a quem anda a passear, a quem faz nada, a quem faz o nada durar. Anda pela cidade como se andasse pelos corredores da sua casa, pôr a mesa, mudar de canal, vestir o pijama, ler o jornal, e lá anda ele com os talheres e o comando, a flanela, o papel e o vai-se andando que a vida vai passando, e não é que a vida passa? E nem sempre é alegria, e nem sempre é desgraça. É o dia que ele vê e que ele tem, é o fim de tarde, o fim de dia, o fim de um filho de um pai e de uma mãe. Quem são, por onde andam, e ele por aqui, pelas ruas que desandam, pelo sorriso que, lá de vez em quando, sorri. Anda pela cidade parecendo assim, um caminhante cumprindo uma promessa de quem anda sem fim, sem promessa alguma, só com a crença numa espécie de doença que parece que o aproxima da loucura. Caminha e, por caminhos, vai sendo quem ele é, uma espécie de peregrino, um menino apregoando a fé. Anda pela cidade parecendo pedinte, lotarias, raspadinhas, sendo ouvinte de sins e de nãos, muito mais de nãos, e das ladainhas que ele diz para aceitar uns e outros, não infeliz, também não contente, parecendo assim, por um triz, ser gente. Anda pela cidade parecendo perdido, magrinho, olhar alto e no chão, conhecendo as pedras por onde anda, um homem sozinho numa banda com trombones, tambores, oboés, tudo calado rente aos pés num guarda-chuva fechado, pendurado à espera dela. Mesmo sem previsão, ele anda com ele à mão e não se desfaz da vontade que se acomoda. Ele e ele, a vida, e anda a roda.

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henrique

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Fazes falta nas festas, nos lugares cheios de gente, nos espaços vazios, nos cantos, nas renúncias, nas canções, naqueles inícios de tarde e fins que não chegavam por tu estares e prolongares a vida, nas noites todas, nas manhãs que não têm nada, nos dias de sol, nos de chuva, nos de tudo. E a noção de que somos pouco.

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artista

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«Já pedi a conta à menina, mas ela não vem.» Vim eu sem saber como. Parei neste tasco na Nacional. Mesa para um. Pode ser aqui. Boa noite. Bebia vinho, olhava a CMTV e, de vez em quando, lá desenhava. Uma obra de arte. Obrigado. Estava só a passar o tempo. Sou designer, fiz isto em três minutos. Eu nem em três anos. Desculpe incomodar. Obrigado por reparar. Não contava, não esperava. Aconteceu. Um jantar com um artista e um desenho que agora é meu.

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sessenta e três

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Abraço beijinho copo de vinho branco já para a mesa ansiedade saudade força lareira sofá o que tenho inteira cansaço dores nos ombros dores nas mãos só uma sesta jardim e assim são os sonhos amor canários acordar de manhã ir embora e agora mamã e agora? suspiro ao final do dia hora de almoço sozinha mulher menina também cão gato galinha laranjas pedronhe maninha são pedro nelito cartuxinha tudo é a minha mãe.

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maringá menino

Comentários (0) bloco de notas, cada um é muita gente, crónicas

Há tanto tempo que ele anda por cá, que eu o vejo por aqui a caminhar. A sua casa é o Maringá. É sempre onde ele está, quando o quero encontrar. Nunca fui ter com ele, não sei como se chama, nunca lhe disse nada. Sei que, para mim, aquele lugar, para ele, é morada. Ele faz parte da cidade. Toda a gente o conhece, mas parece que ninguém lhe dá um nome ou uma medalha que ele merece ter apenas por ser. É que ele faz parte dali, ele é ali, mesmo sem saber – julgo eu que ele não sabe. Eu só vejo de fora e imagino. Ele passa por mim, como passou agora, como se fosse um menino. A cara é igualzinha à do Robin Williams – ou eu é que vejo na cara dele a cara de alguém de quem eu gosto para que ele, de certa maneira, se aproxime de mim. A culpa não é dele, eu é que sou assim. E ele é como é, obviamente. Num lugar dele, com tanta gente. Com tantas lojas, tantos corredores, tantas portas, tantos amores que são família. Tudo é casa, ele é mobília. Ele por ali, a cuidar de tudo o que lá está. Vai às raspadinhas ver se alguma tem prémio, na esperança de que alguém a tivesse raspado e, sem atenção, não tivesse reparado e a tivesse atirado para o chão. Se, algum dia, alguma tiver, se ele encontrar os milhões que procura, o que irá ele fazer? Alguma loucura? Ele já é visto como louco. Nenhuma loucura seria maior do que aquela que lhe dão. Ele vive bem com pouco. Nós é que não. Certamente, ele não faria nada. Olharia a raspadinha premiada, sorriria e seguiria com a sua vida. Que vida é essa que ele tem? Sempre cheio de pressa, como quem estivesse muito ocupado a cumprir um horário. Rica vida a deste quase milionário que anda por aí. O rosto diz ternura e o rosto sorri um sorriso leve, a passar por despercebido. Ele vive a vida breve, de cabelo comprido. Parece um fantasma – não lhe ouvimos os passos nem a voz. Os gestos são escassos, o resto somos nós. Faz parte da paisagem, confunde-se com tudo o que nela permanece. E lá anda ele em viagem, a pé, pela vida que lhe aparece.

Jornal de Leiria

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