não sei matar
Eu não sei acabar. Não sei acabar um livro, não sei acabar uma relação, não sei acabar nada, não sei matar ou aceitar a morte das coisas. Por não saber matar, não sei aceitar a morte. É qualquer coisa assim. Tenho de escrever sobre isto porque
apenas eu
Se eu não me sinto bem com o meu corpo, e se eu posso mudar o meu corpo, sou livre de mudar o meu corpo e ninguém tem nada com isso. Apenas eu. O problema é haver gente que se sente mal com o corpo dos outros e julga que é livre de fazer lei sobre o que os outros sentem. Acho graça. Quem julga o corpo dos outros julga que tem a parte mais ausente do seu: a cabeça.
vinho também do bom
Oiço dois velhos a lembrar. Um vai buscar o almoço entretanto para dar à mulher acamada e ao filho que come muito – durante a semana, almoça na CERCILEI; ao fim-de-semana, está com os pais. O Frazão já lá ficou em casa, agora não consegue receber ninguém porque tem a casa destruída da tempestade. E na churrasqueira, que agora não existe, fez batatas a murro, azeite com fartura e vinho também do bom. Continuas com a cara igual, sem rugas, sem marcas, só o cabelo branco. Não tenho Facebook nem Instagram, aquilo é só lavagem de roupa suja, não se lava roupa limpa, só Whatsapp, diz-me o teu número para falarmos. Quero falar mais contigo. Tenho de ir, tenho a vida à espera. E agora uma mulher bonita, com tatuagens e arranhões.
parabéns
Parabéns ao Sporting. Grande jogo do Sporting. Grande reviravolta do Sporting. Não é fácil vencer o Real Madrid – vencedor de 15 Ligas dos Campeões, não, o AC Milan – vencedor de 7 Ligas dos Campeões, não, o Liverpool – vencedor de 6 Ligas dos Campeões, não, o Bayern de Munique – vencedor de 6 Ligas dos Campeões, não, o Barcelona – vencedor de 5 Ligas dos Campeões, não, o Ajax – vencedor de 4 Ligas dos Campeões, não, o Inter de Milão – vencedor de 3 Ligas dos Campeões, não, o Manchester United – vencedor de 3 Ligas dos Campeões, não, a Juventus – vencedora de 2 Ligas dos Campeões, não, o Benfica – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Chelsea – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Nottingham Forest – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o FC Porto – vencedor de 2 Ligas dos Campeões, não, o Manchester City – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Borrusia de Dortmund – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Olympique de Marseille – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Aston Villa – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Hamburgo – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Estrela Vermelha – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Steaua de Bucareste – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o PSV Eindhoven – vencedor de 1 Liga dos Campeões, não, o Celtic – vencedor de 1 Liga dos Campeões. Não, o Bodo Glimt, segundo classificado do campeonato da Noruega.
do meu vitorino
Purina Gourmet Revelations Mousse com Frango, Party Mix Ocean Sabor con Salmón, Carbonero y Trucha, Royal Canin Instinctive, Acana Grasslands com Borrego e Pato. Ele quer lá saber. Dêem-lhe uma lata de atum e uma fatia de fiambre, é assim desde pequenino. Eu também não preciso de grande coisa. Só do meu Vitorino. (Não, não vou comer o meu gato, apesar de muitas vezes o confundir com um leitão.) Dez anos.
sair
Quero sair, mas não quero sair porque, quando sair, se sair, sei que vou sentir que deveria ter mantido a vontade de não querer sair, mesmo indo mas, não saindo, fico com a vontade de querer sair. (Há vontade de querer ou de não querer? Vontade já não é querer ou não querer? Vontade é só querer mesmo que esse querer seja não fazer? Ter vontade já é fazer? O que estou aqui a fazer? Vou sair, não vou nada. É só a vontade de querer e de não querer. Tenho a cabeça cansada.)
inquisidor mor
O meu amigo (e católico-cristão-ex-padre – isto é relevante, atenção) Abílio Lisboa decidiu, numa das suas crónicas habituais no Jornal de Leiria, escrever sobre… mim – o que só demonstra a sua aptidão para o vazio. É uma Epístola, diz ele. E, como todas as Epístolas, digo eu, está carregadinha de imprecisões.
- «Posicionas-te (…) como alguém muito distante da fé.»
Ora, eu não estou «muito distante da fé», estou pertíssimo. Mas não da minha, da dos outros. E os outros estão pertíssimo de mim. Daí o meu interesse nela. (Na fé, atenção! Não me mandes já para o Inferno.) - «… normalmente és tu o motivador, melhor, provocador de serviço (sendo meigo).»
Diria que afirmar a existência de um Inferno para onde vai quem não reza um Pai Nosso é mais provocador do que alguém que diz que não acredita na existência desse Deus bondoso criador de tudo (que, por ser bondoso e criador de tudo, criou, por exemplo, leucemias fulminantes em crianças). - «… admiro o jeito com que consegues fotografar a alma.»
Sei bem o que estás a fazer aqui. Paga-me antes um copo. - «Os tempos (…) questionam a existência de um deus. Dirias.»
Não. Eu diria, e digo, que nada me prova a existência do Deus da Igreja Católica. Para questionar a existência «de um deus», teremos, primeiro, de definir o que é deus e que deus é esse. - «… as discussões que provocas…»
Errado (outra vez). Eu não provoco discussões. As pessoas que crêem no que eu não creio e que nos tentam (à sociedade) impôr a sua crença é que provocam. Dizeres que eu provoco é dizeres que a mulher agredida é que provoca a discussão ao fazer queixa por ter sido violada. - «… o que não te tem impedido de, facilmente, te arvorares em inquisidor mor…»
Esta é, sem dúvida, o clímax (desculpa, sei que não é moral) do teu texto. Tu, um católico-cristão-ex-padre (eu disse que era relevante), tens a lata (a coragem, desculpa) de dizer que eu sou um Inquisidor. Talvez os meus textos carregadinhos de palavras sejam, afinal, fogueiras carregadinhas de pessoas não-crentes, mulheres viúvas, mulheres solteiras, mulheres sozinhas, prostitutas, homossexuais e deficientes (que, para a Igreja, «eram» a mesma coisa). «(Sendo meigo).»
Admiro-te e respeito-te enquanto pessoa que me convida (na verdade, há muito que não o fazes) para uma patuscada na Ti Augusta. Mas não admiro nem respeito a tua crença. Graças a deus.
mulher
Isto não é sobre flores, é sobre igualdade. E não é igualdade de homens e mulheres, porque homens e mulheres não são iguais; é igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres. As flores só servem para esconder o cheiro a antigo que ainda há nesta luta que, por mais flores do que luta, ainda continua desigual.
muito lindo
«Vhils não quis receber por quadro de Marcelo: valor vai para artistas emergentes: “Quando o elevador social funciona, transforma gerações.» Jornal Expresso
Parece muito lindo mas, além de muito feio, é muito errado. O dinheiro é do Vhils, não é de outro artista. O Vhils, ao não querer o dinheiro, está a dizer que os artistas não querem o dinheiro. O Vhils, ao não querer o dinheiro e ao querer que o dinheiro vá para outros artistas, está a dizer que o Estado não tem de se preocupar com outros artistas porque os artistas vivem da caridade dos artistas. O Vhils não tem o direito (nem o dever) de fazer de Estado. O Vhils tem de fazer de artista. O Estado tem de fazer de Estado. Não é o Vhils que tem de pagar aos artistas com o seu dinheiro que vem do Estado. É o Estado que tem de pagar aos artistas com o seu dinheiro que vem do Estado. O Vhils, ao dizer que não ao seu dinheiro encaminhando-o para os artistas, está a perpetuar aquilo que pensa estar a combater: a desvalorização e a consequente precariedade da arte. O Vhils, pensando que não, está a fazer (e a ser) pior do que o Estado. Parece muito lindo mas, além de muito feio, é muito errado.
ao deus certo
Gostava de saber, a sério, sem merdas, o que raio vão os crentes fazer agora à igreja. A sério, o que vão lá fazer? Agradecer ao deus que provocou esta destruição por ter provocado esta destruição? Ou o deus não existe ou, existindo, não é todo poderoso nem é bom. Ou então os crentes estão a rezar ao deus errado. Ou estão a rezar ao deus certo, mas estão a rezar muito mal. Não sei, expliquem-me.
lugar nenhum
Andamos entretidos nesta luta esquerda vs. direita em vez de andarmos a discutir ideias. Nem esquerda nem direita são ideias – são lugares de refúgio para quem não tem a coragem (ou a inteligência) de as ter. Enquanto andamos nesta luta inútil e vazia de lugares, os espertalhões (que são de todos os lugares) vão continuando a mandar nisto e a fazer-nos pensar que o essencial é, sim senhor, andarmos para aqui e para ali a discutir se somos daqui ou dali. E só quando já não tivermos lugar, talvez percebamos que, de facto, somos de lugar nenhum.
o vício dos livros II
Quer ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores – obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem e sobre algumas pessoas que lêem – escrito por uma pessoa que julga saber escrever. É por isso que considero essencial a sua leitura – para sabermos o que está errado nisto da vida.
O vício dos livros II, de Afonso Cruz.
bom ou mau
Não queremos perceber, queremos definir quem é bom e quem é mau. E não é fácil definir quem é bom e quem é mau porque não é fácil definir o que é bom e o que é mau.
Estas são dificuldades que vêm de uma necessidade que vem de uma ditadura do pensamento que nos obriga a ver as coisas em binómio de oposição: bom ou mau, como bonito ou feio, direita ou esquerda.
E aqui temos dois problemas a resolver: definir o conceito – o que é ser bom e o que é ser mau – e definir a quem pertence o conceito – quem é bom e quem é mau.
(Por vezes, muitas vezes, é impossível definir o conceito, o que torna, por vezes, muitas vezes, impossível definir a quem pertence esse (não-)conceito.)
Estes dois problemas fazem com que criemos narrativas antagónicas que, claro, nos colocam uns contra os outros – não pelo tema em si – a moral, a estética, a política – mas por termos – não temos – de ser de um lado – que não existe por si, que só existe por ser criado por nós para nosso conforto. É confortável saber quem somos, é desconfortável não fazermos ideia.
Parece-me que a nossa certeza na nossa crença (de sabermos quem somos e o que são as coisas) é o que nos trama a vida. A nossa única certeza, digo eu, deveria estar na nossa ignorância (que não é crença), na nossa indefinição de nós próprios e daquilo que pensamos. Diria que é esse o caminho que nos aproxima daquilo que realmente somos (que eu não sei o que é).
pureza
Quem é português não é criminoso – é o que nos querem dizer. A Lei da Nacionalidade chumbou, e ainda bem. A ideia era retirar a nacionalidade a naturalizados condenados nos dez anos seguintes. Não faz sentido, por uma razão: a verdade. E a verdade diz que o português não é puro. Porque ninguém, de nenhuma nacionalidade, é. Porque somos todos impuros porque somos todos humanos porque somos todos impuros. Porque somos todos maravilha e merda. Porque somos todos tudo. Dizer que um português deixa de ser português por cometer um crime é dizer que o português está num lugar que não existe – o da pureza. Querer fazer esta depuração da nacionalidade é, mais do que tudo o resto, querer fazer uma depuração do ser humano, tirando-lhe parte daquilo que faz dele o que ele é: as coisas «más». Nós não somos apenas lindos e respeitadores. Nós também somos feios e maus. E tudo isto é ser humano, é ser português, é ser da nacionalidade que for. Quem diz que não, não está a defender os portugueses como diz estar, nem está a defender aquilo que é. E não defendermos o que somos, por não sabermos que somos tudo, é sermos contra nós. E sermos contra nós é sermos contra a vida. E sermos contra a vida não me parece que seja uma boa forma de viver.