o vício dos livros II
Quer ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores – obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem e sobre algumas pessoas que lêem – escrito por uma pessoa que julga saber escrever. É por isso que considero essencial a sua leitura – para sabermos o que está errado nisto da vida.
O vício dos livros II, de Afonso Cruz.
o livro dos filósofos mortos
«Filosofar é aprender a morrer.» Um livro sobre a maneira como alguns filósofos viram e viveram a morte. Tem Cícero, Camus, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Simone de Beauvoir, Sócrates, Kant, Pascal, Marx, Kierkegaard e outros mortos. Depois de ter lido um livro sobre um gajo que não se considera humano e, por isso, deseja o suicídio, li agora este sobre a morte ela mesma. Estou a ir por uns ricos caminhos, estou.
O Livro dos Filósofos Mortos, de Simon Critchley.
não-humano
«A minha vida tem sido vergonhosa. Não consigo sequer imaginar como deve ser viver como um ser humano.» São estas as primeiras palavras do primeiro livro que li este ano. Uma maravilha da literatura japonesa – na verdade, não conheço mais, mas esta, que conheço, é um mimo. E é triste, como qualquer maravilha que se preze.
Não-Humano, de Osamu Dazai.
crónicas da sala de espera
Dei por mim a reler o Pedro. Sim, o Pedro, não o livro do Pedro, mas o próprio Pedro, o homem, o camarada, o amigo. Reler o Pedro é a única forma de o voltar a ter na cadeira ao lado, a contar-me histórias de música, de mulheres e de jornalismo antigo, daquele que já não se faz. Eu não fazia nada. Apenas ouvia o que ele me dizia, e ele dizia-me tantas vezes para viver e escrever e não ter medo, e eu ouvia, e ele vivia e escrevia sobre o medo que dizia não ter. Ele tinha cancro, todos temos o medo de morrer. As crónicas sobre os seus tratamentos de quimio e radioterapia que escreveu foram ditas na antena do Rádio Clube, onde partilhámos uma vida inteira de um ano. Antes de as dizer, pedia-me para as ler e para lhe dar opinião, se haveria alguma coisa a mudar. «Nada, Pedro», dizia. «Só a doença, Pedro», pensava. O Pedro juntou todas as crónicas e editou este livro. Morreu pouco tempo depois. Ficámos sozinhos. E é quando o releio que ficamos só os dois.
Crónicas da Sala de Espera, de Pedro Beça Múrias.
pura anarquia
Uma espécie de Bíblia para os crentes na salvação do mundo através do riso. Deus é Woody Allen e tudo começa com Ele (atenção, letra grande por ser Woody, não por ser Deus) «lutando por conseguir respirar, com a vida a passar à frente dos olhos numa série de vinhetas melancólicas». Tudo o resto é o que se sabe: Deus a criar coisas sob a forma de crónicas tão vulgares quanto deliciosas. Ler, ver e ouvir Woody Allen é mergulhar, de cabeça, no caos. É lá que está a criação.
Pura Anarquia, de Woody Allen.
as velas ardem até ao fim
É bem possível que este livro não seja literatura, mas sim dança, ballet em pontas, levezinho, suave, de embalar, polvilhado com heavy metal, estrondo, barulho de realidade e escuridão. Este livro dança-se no subterrâneo, nos lençóis de água do ser humano, bem ao estilo soviético, sozinho, virado para dentro, com a melancolia própria do ser humano. Sem merdas, cru, poético, bonito.
As Velas Ardem Até ao Fim, de Sándor Márai.
manhã
Um livro que engana pelo nome. Muito mais noite do que manhã, este poema feito de poemas é um mergulho na infância e em todas as memórias a ela ancoradas. Uma escrita simples e bonita que engana por ser simples e bonita. Um livro para ler de manhã, ao adormecer.
Manhã, de Adília Lopes.
lolita
«Lolita, brilho da minha vida, fogo dos meus flancos. Minha alma, minha lama. Lo-lii-ta: a ponta da língua enrola no palato e desliza, três socalcos, até que estaca, ao terceiro, nos dentes. Lo. Li. Ta.»
Lolita, do Nabokov, é uma obra de arte que tanto dança na pontinha da faca como no meio da cama. É um corpinho liso e porco e criminoso que nos acorda aqueles pensamentos que não deveríamos ter para depois os acariciar com palavras que nos fazem sentir nojo por as achar tão belas. Lençóis sujos, cuequinhas rasgadas e estamos no paraíso e no inferno, no amor. Coisa mais bonita e proibida de se ler, feita de repugnância e de pedacinhos do céu.
Lolita, de Vladimir Nabokov.
aventuras de joão sem medo
Sou um medricas, tenho medo de tudo – o que não facilita nesta coisa da existência. Já o João não tem medo de nada, sacana do puto que me fez desejar-lhe a vontade do risco. O João mora num sítio muito triste que bem podia ser o interior das pessoas. Um belo (soturno) dia, decide que isto não é vida e decide saltar o muro para dar início a uma épica viagem de monstros, fadas e poesia.
Uma história que deveria estar na mesa de cabeceira de todos os adultos que, mesmo medricas, ainda têm coragem de sonhar.
Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira.
declarações de guerra
Não é um livro, é um estilhaço de granada. Declarações de Guerra conta, em carne viva, as vidas de ex-combatentes portugueses no Ultramar. As vidas que foram e as que ficaram, ditas por eles mesmos, furriéis, soldados, cabos, alferes, sargentos, todos eles destroçados por uma guerra que não era deles. Ficaram-lhes as vidas que já nem vidas são. Ficaram ninguém. Um trabalho excepcional de Vasco Luís Curado que esventrou o politicamente correcto para dar voz a quem não queremos dar ouvidos.
Declarações de Guerra, de Vasco Luís Curado.