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Janeiro, 2026
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em branco

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Fala-se dos votos válidos e da abstenção – nem uma palavra sobre os votos que talvez mais nos deveriam fazer pensar: os votos em branco. Quem vota em branco dá-se ao trabalho de ir à urna dizer que, de toda aquela gente, não há ninguém que o represente. Quem vota em branco não se abstém do voto nem da escolha. Quem vota em branco vota na ausência de escolha. Quem vota em branco escolhe dizer que ninguém lhe diz nada. Quem vota em branco quer votar em alguém, mas não tem em quem. Quem vota em branco vota em ninguém, e votar em ninguém diz mais do que não votar. Quem vota em branco não está em silêncio, está a gritar. Mas parece ser um grito que ninguém quer ouvir. Ontem, foram 61.226 pessoas que gritaram. E tantas a dormir.

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adilson

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A música é uma maravilha, quase tudo o resto é uma vergonha – guião, texto, cenografia, encenação e algumas interpretações. Mas a maravilha da música é batota – a orquestra, dominada pelo Martim Sousa Tavares, dá poder e cama às linhas melódicas das vozes, da guitarra e da percussão em palco. As vozes vão da rua ao lírico, falhando aqui e ali, como convém que o façam nesta peça que se quer de combate. As vozes Disney não fazem parte, mas também estiveram. O guião é fraco: previsível e chato. O texto é ridículo: diálogos pouco naturais, rimas forçadas e a explicação (preguiçosa) daquilo que os personagens pensam e sentem – um bom texto sugere, não explica. Os personagens são estereótipos abonecados: polícias maus, funcionárias públicas burocráticas, negros vítimas. Uma actriz interpreta um menino – a incoerência (bem clara) não é resolvida e causa ruído desnecessário. A cenografia é tralha: demasiados bancos, demasiados acessórios, demasiada informação no ecrã. A encenação é confusa: correria constante de personagens sem justificação, movimentações para preencher o palco e mudanças frequentes de cenários. O desperdício da música árabe do início é uma tristeza. Uma coisa assim tão bonita morrer assim que nasce – é triste não ter voltado e, por isso, é incompreensível ter existido. A multiculturalidade que prometia foi apenas uma promessa. Seguiu-se uma enxurrada de música africana (r&b, soul, afrobeat…) maravilhosa, mas assassina do tal mundo que a primeira música sugeria para a história. O fim, com o verdadeiro Adilson a dançar trinta segundos, revela mais sentido e simbolismo do que tudo até ali. A peça começa bem e acaba bem; pelo meio, é oca: previsível, anedótica, noveleira, estereotipada e superficial – uma má revista mal resolvida com pretensões filosóficas. Uma vergonha. Valha-nos a música.

ADILSON, de Dino D’Santiago.

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culpa negação

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Cotrim está a ser acusado de assédio sexual. Isso, por si só, é notícia seja em que momento for, em campanha ou fora dela. O facto de Cotrim estar a ser acusado de assédio sexual não significa que o tenha cometido. O facto de Cotrim negar assédio sexual não significa que não o tenha cometido. Inês Bichão não deve ser condenada por alegar ter sido vítima. Cotrim não deve ser condenado por ter sido acusado como agressor. Inês Bichão não deve ser condenada por ter feito esta acusação agora. Cotrim não deve ser condenado por não (conseguir) provar a sua alegada inocência agora. Para saber se Cotrim cometeu assédio sexual, o caso terá de ser julgado em tribunal. Só em tribunal é possível confirmar se Cotrim cometeu assédio sexual. Só em tribunal é possível confirmar se Inês Bichão sofreu assédio sexual. Devemos presumir inocência a Cotrim e a Inês Bichão. Qualquer opinião a favor de um ou de outro não passa de opinião sem provas – apenas com intuições e simpatias. Os casos de assédio sexual devem ser levados a sério. Os casos de falsa alegação de assédio sexual devem ser levados a sério. Tudo deve ser levado a sério. A acusação não equivale a culpa. A negação não equivale a inocência.

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lugar nenhum

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Andamos entretidos nesta luta esquerda vs. direita em vez de andarmos a discutir ideias. Nem esquerda nem direita são ideias – são lugares de refúgio para quem não tem a coragem (ou a inteligência) de as ter. Enquanto andamos nesta luta inútil e vazia de lugares, os espertalhões (que são de todos os lugares) vão continuando a mandar nisto e a fazer-nos pensar que o essencial é, sim senhor, andarmos para aqui e para ali a discutir se somos daqui ou dali. E só quando já não tivermos lugar, talvez percebamos que, de facto, somos de lugar nenhum.

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o vício dos livros II

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Quer ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores – obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem e sobre algumas pessoas que lêem – escrito por uma pessoa que julga saber escrever. É por isso que considero essencial a sua leitura – para sabermos o que está errado nisto da vida.

O vício dos livros II, de Afonso Cruz.

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bom ou mau

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Não queremos perceber, queremos definir quem é bom e quem é mau. E não é fácil definir quem é bom e quem é mau porque não é fácil definir o que é bom e o que é mau.

Estas são dificuldades que vêm de uma necessidade que vem de uma ditadura do pensamento que nos obriga a ver as coisas em binómio de oposição: bom ou mau, como bonito ou feio, direita ou esquerda.

E aqui temos dois problemas a resolver: definir o conceito – o que é ser bom e o que é ser mau – e definir a quem pertence o conceito – quem é bom e quem é mau.

(Por vezes, muitas vezes, é impossível definir o conceito, o que torna, por vezes, muitas vezes, impossível definir a quem pertence esse (não-)conceito.)

Estes dois problemas fazem com que criemos narrativas antagónicas que, claro, nos colocam uns contra os outros – não pelo tema em si – a moral, a estética, a política – mas por termos – não temos – de ser de um lado – que não existe por si, que só existe por ser criado por nós para nosso conforto. É confortável saber quem somos, é desconfortável não fazermos ideia.

Parece-me que a nossa certeza na nossa crença (de sabermos quem somos e o que são as coisas) é o que nos trama a vida. A nossa única certeza, digo eu, deveria estar na nossa ignorância (que não é crença), na nossa indefinição de nós próprios e daquilo que pensamos. Diria que é esse o caminho que nos aproxima daquilo que realmente somos (que eu não sei o que é).

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