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adormecer

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Sempre tive medo de adormecer. Esperar pelo sono aterroriza-me. Num instante, estamos conscientemente acordados, no outro, estamos inconscientemente dormindo. E não damos conta disso. Não em consciência. É um clique que nos divide deste mundo do outro dentro deste. Se pensarmos todos nisto, todos vamos ter medo, ou receio ou respeito ou lá o que é, por esta repentina mudança para uma quase-morte. Por isso, deus deu-me uma doença. Toma, puto, só para não andares por aí a dizer que eu não existo. Chama-se narcolepsia (a doença, não deus). A narcolepsia não me faz ficar muito tempo à espera da escuridão da minha consciência. Fecho os olhos e adormeço. É assim tão simples. O horror é adiado para o dia em que ficar curado (espero que nunca). Ouviste, deus? Obrigado, deus. Vou dormir. Mas continuo com medo.

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prolongamento

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Nem cancro, nem sida, nem leucemia, nem nada. Hoje, toda a gente morre por doença prolongada. Não se diz o nome, tapa-se com o paninho quente e maciozinho da doença prolongada. É menos doloroso, é menos inquietante, é menos cru. Acontece que a morte é dolorosa, é inquietante, é crua. Morrer de cancro é morrer de cancro, morrer de sida é morrer de sida, morrer de leucemia é morrer de leucemia. Ninguém morre de nada. É doença prolongada que se diz agora, tal como se diz lol em vez de ahah ou tal como se diz ter relações em vez de foder. Todos morremos de tudo. E esse tudo é feito de partes com nome. É urgente chamarmos as coisas pelos nomes que elas têm. E que a única doença prolongada seja a vida.

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a dona conceição

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Foi embora a dona Conceição.

E eu fui com ela, pelo menos parte de mim, aquela parte inteira da infância que teima em se hospedar nas entranhas da memória. Foi embora a dona Conceição. E o Dinis foi com ela, o papagaio tagarela que me falava sempre que, pelas mãos dos meus pais, ou à revelia das mãos deles, me via a espreitá-lo da porta e lhe falava e me escondia e lhe tornava a falar e me tornava a esconder, esperando que ele me espreitasse e me falasse e não se escondesse. Ele estava ali, sempre ali, naquele corredor misturado de sombra e amarelo, naquele corredor que corria para muitos lados e que hoje está perpetuamente parado no lugar onde estão estas palavras. Corria para a cozinha gigante do hotel, a copa, parque infantil dos grandes onde os pequenos comiam pão com manteiga e bebiam leite, naquela mesa grande cheia de tachos e panelas e pratos e colheres e farinhas e açúcares e nenúfares, talvez não fossem nenúfares, talvez o sonho, que é memória, me dê invenções ao pensamento, mas tanto faz, era coisas boas que lá havia, era tudo em tudo grande, e eu por lá andava, pequeno, por onde andavam os grandes, que foram os meus pais e os meus tios, os meus primos e eu próprio, mais tarde, depois de ser pequeno como era neste tempo de que me lembro agora. Corria lá para fora e demorava pouco, queria conhecer o muito que estava dentro do hotel, tanto muito, tanto tanto que eu nunca o encontrei. Aos pedacinhos, toquei-lhe os dedos, mas pouco mais. E a dona Conceição por lá andava, vestida com um daqueles trapos antigos de quem manda em casas e em cozinhas, de cabelo branco e voz das típicas avós que sentem mais do que falam (eram os olhos que a denunciavam, e eles sorriam). E ela sorria. E eu sorria para ela e o meu irmão sorria para ela e os meus pais sorriam para ela e falavam, os grandes, das coisas dos passados que lá viveram, das coisas dos passados naquele hotel, casa grande onde os meus pais fizeram vida e deram vida às vidas deles, no primeiro olá, no primeiro encontro, no primeiro beijo, ali, num hotel de praia e de pinhal, com a melhor vista para o melhor pôr-do-sol do mundo, ao fundo, ao fundinho da rua, na areia e no mar de São Pedro de Moel. E eu e o meu irmão, que ainda sorríamos, andávamos por ali como se aquilo fosse o céu e como se o céu fosse nosso, e era o céu, e era mesmo nosso. E tinha pingue-pongue, e tinha sofás que faziam dormir, e tinha cortinas de filmes de cinema, e tinha uma televisão que dava os Jogos Olímpicos, e tinha um bar com garrafas e vinhos e batatas fritas, e tinha tapetes no chão, e tinha alcatifas, e tinha labirintos para lugares que nunca descobrimos. No céu, havia chocolates. Era a dona Conceição que os tinha e que os dava, a mim e ao meu irmão, ele não gostava, não fazia mal, eu ficava com os chocolates que a dona Conceição lhe dava. Ainda os tenho comigo. Foi embora a dona Conceição. E nós fomos com ela. Fecharam-se as cortinas, calou-se o papagaio, taparam-se as janelas e os labirintos e as salas e a cozinha, e foi tudo comido pelas sombras. Hoje, não há hotel nem há mais nada, só aquela parte inteira da infância que teima em se hospedar nas entranhas da memória.

Foi embora a dona Conceição. E eu, que sou toda a gente que a lembra, fui com ela.

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o luto

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O luto, na morte como no amor, carece da urgência do sofrimento imediato, a tempo e horas e em excesso, sempre em excesso, para que, mais tarde, quando vem a puta da saudade, ela não nos apanhar sem as forças que, sem luto, sem sofrimento excessivo como todo o sofrimento deve ser, não teríamos. A urgência do sofrimento imediato, a tempo e horas e em excesso, sempre em excesso, é colocar a vida no abismo para a morte, mas sofrer com paninhos quentes no instante imediato, sem choros nem insultos, sem gritos nem torturas, é morrer constantemente durante a vida toda, em simulado contentamento e disfarçada ansiedade, escarafunchando cada pormenor do sofrimento, sempre, que é sempre, que vem a puta da saudade.

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se a religião

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Se a religião, ou parte dela, ou grande parte dela, ou quase toda ela, assegura uma deslumbrante vida após a morte, ou durante a morte que, basicamente, é isso que se defende, pois bem, se é isso que a religião permite, então, aqueles que matam por ela amam as suas vítimas. Aqueles que matam por ela querem o bem das suas presas inocentes porque querem que elas morram, ou querem que elas morram porque querem o seu bem, seu, delas, não deles, porque eles continuam por cá a impor, coitados, trabalho duro e pesaroso, a vida eterna, carregadinha de paraísos, nuvens, anjos e virgens, a quem por cá anda. Matando, despacham o processo de chegada à, aleluia, aleluia, vida eterna, aleluia, aleluia, ao paraíso, aleluia, aleluia ou lá ao que existir nessa coisa infinita, aleluia, aleluia. Maravilhoso amigo o que nos deseja o prazer, o regozijo, a imortalidade, a delícia do céu da vida eterna, obrigando-nos a dizer adeus ao triste e horrível e mau e ruim inferno que é a vida que agora pisamos. Os que nos odeiam, os que nos querem matar, os filhos da puta dos terroristas que nos matam pela religião são os filhos da mãe dos altruístas que mais nos amam, que se preocupam connosco do fundo do seu tique-taque no coração. E, assim, por enquanto, por fim, daqui se lê que, ou quem nos mata é estúpido por não se matar sozinho ou somos nós que não entendemos a sua encantadora e peculiar forma de amar. De todo o modo, não querendo dizer que não ao amor, não querendo rejeitar a afeição maior que o mundo, este, vivo, tem, peço que me deixem não entender, que me deixem ser e estar e viver, ou ir vivendo e deixando viver, prefiro assim, do que compreender e matando, deixando-me morrer.

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henrique

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Foi hoje, noutro ano que não este, que tu foste embora, que tu partiste, não, que tu morreste. Não há palavrinhas bonitas nem eufemismos nem outras coisas escritas que dêem verdade ao que te aconteceu. Morrendo, porém, não deixaste de existir, de ter pai, de ter irmã, de ter mãe. Não deixaste de ter amigos e família que te velam como se fosse uma vigília da memória, por vezes, como se fosse uma história daquelas más, com lágrimas e gritos, morte, como foste capaz? E nós aqui aflitos. Foste capaz, aconteceu, e agora, para nós, ninguém te traz, mas nós esperamos e lembramos e choramos e cá estamos. Sós. E, quando a voz nos sai em gritos e clamores, só assim, só dessa maneira, resta-nos a escrita e, escrevendo, vão-se calando as dores, vai-se adiando o fim e dando à choradeira outra forma de ser aflita. Foi hoje, noutro ano que não este, que tu foste embora, que tu partiste, não, que tu morreste. Foi hoje, foi ontem e foi todos os dias que ainda não o são que tu, não falando, não ouvindo, não sentindo, foda-se, que não estando, vives na tal vigília da memória que nos parte e reparte e nos deixa na pior parte dessa história que nos vela o coração.

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longe coração

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Quando os amores estão longe, os corações estão longe também. Quando eu estou longe dela, quando ela está longe de mim, os nossos corações estão longe também.

Mas não é o meu coração, comigo, que está longe do coração dela, com ela. Não. O meu coração está longe de mim, do meu corpo, da minha razão, e o coração dela está longe dela, do seu corpo, da sua razão. Estando os nossos corações longe de nós próprios, embora perto de mim e dela (comigo e com ela), torna-se difícil suportar esta coisa que é viver de coração afastado (o meu) e de coração forasteiro (o dela). Porque, nesse momento, fugaz ou eterno, não somos nós que mandamos no nosso coração. Ele está longe, perto dela (com ela). É ela que o comanda. Tal como o dela está perto de mim (comigo) e sou eu que bem decido o que lhe fazer.

O problema é que nem eu nem ela sabemos lidar com corações que não os nossos. Ninguém sabe. E esta incapacidade para lidar com corações alheios provoca trapalhadas, sonhos, ansiedades, ilusões, borboletas, pedras, palavras, filmes, lágrimas, cabeças no ar, loucuras. Ou, noutras palavras que é só uma, amor. O amor não é o meu coração a bater no meu peito, é o meu coração a bater no peito dela.

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pretos e brancos

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Pretos e brancos a preto e branco. Não é a cor que define uma pessoa. Não é a cor que define um actor. Não é a cor que recebe um óscar.

Se há revolta na terra dos filmes por haver mais brancos a vencer óscares do que pretos, é porque (talvez por um assombro qualquer da realidade ou, até mesmo, por um temor lunático da lógica) tem havido mais brancos a representar melhor do que pretos. Mas é a primeira vez que penso nisto, eu não vejo brancos nem pretos, vejo actores, bons, maus, gordos, magros, altos, baixos, bonitos, feios, apenas actores, acho que é disso que se trata quando se fala de cinema. Pretos e brancos? Não, nem no resto da vida. Humanos, de várias cores e tonalidades, mas sem cor ou tonalidade que os defina ou que os sujeite a um tratamento diferente.

Os olhos de quem vê pretos e brancos, os olhos de quem vê mais brancos a receber óscares do que pretos, os olhos de quem organiza manifestações e boicotes tendo por base a cor dos candidatos, nomeados, vencedores e vencidos, os olhos de quem vê pretos e brancos são, tão simplesmente, olhos que olham a preto e branco, colocados num cérebro que pensa a preto e branco, por cima de uma boca que fala a preto e branco e por dentro de um vazio que existe (assustadoramente) a preto e branco.

O racismo é uma coisa linda, é a origem do preto e do branco, é o epicentro da dualidade, é o efeito da junção de dois contrários. Como o arco-íris.

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tão lindo

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É tão lindo banalizar a morte com a criança afogada. Com o touro espetado. Com o cão degolado. Com o homem enforcado. Com a mulher apedrejada.

E depois disto? Depois desta banalização? Depois desta insana normalidade? Depois deste banho de sangue e de esqueletos e de entranhas servido em ouro aos nossos puros olhos de homens e de mulheres e de crianças? E depois disto? E depois desta morte?

Haverá morte, verdadeira morte, que nos mate verdadeiramente, espetando-nos com a essência da vida, com a sua rara e preciosa e sublime existência, antes de morrermos? Haverá, simplesmente, morte, depois disto? Depois desta morte? É tão feio isto da vida com a linda morte deitada na nossa cama.

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não dizer

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A solução é não dizer. Se um leão morre, não podemos dizer que é triste porque mais triste é a morte das criancinhas em África. Se um puto rouba velhinhas, não podemos dizer que é ladrão porque mais ladrão é aquele ministro que nos rouba os impostos. Se um homem viola crianças, não podemos dizer que é pedófilo porque mais pedófilo é aquele que só as viola se não estiver de batina branca a rezar o terço.

Foda-se. Se uma figura pública sorri para as câmaras e despreza as pessoas quando não há claquetes, não é hipócrita porque, mais hipócrita, é toda a gente que me diz para eu não dizer. A solução? Não, o problema.

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sem filtro

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Fui ver a Ana Bola ao Teatro Villaret. Foi ontem e foi único. A minha admiração por ela vem de longe. Pela diferença, pela inteligência, pela ousadia. Pelo talento. Ontem, nada mudou. De longe se fez perto. E tudo se manteve. A diferença, a inteligência, a ousadia. O talento. Ontem, a Ana Bola sentiu e fez sentir. Fez das tábuas sentimento e das palavras sofrimento. Fez danças, piruetas, contou histórias, cantou letras. Fez ouvir a sua voz, que é a nossa, mas calada. Disse o que não dizemos nós, falou tudo, não calou nada. Foi ao estômago das emoções, fez das tripas corações e lançou-os pelo ar. Gritou homens e mulheres, pôs a vida em tupperwares e fez rir para não chorar. Fui ver a Ana Bola ao Villaret. Foi ontem e deveria ser para sempre.

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desculpa escrever-te tão tarde

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A verdade é que, por muito que me dedicasse a juntar as palavras da forma mais cuidada possível, nunca consegui fazer com que elas transmitissem o que eu queria dizer. Hoje, porém, decidi arriscar.

Escrevo-te mesmo sabendo que a carta não te será entregue. Escrevo-te mesmo sabendo que não terei uma resposta tua. Escrevo-te mesmo sabendo que não me vais ler. Bem vistas as coisas, nenhuma dessas acções seria necessária. Esta carta, mesmo tendo o teu nome como destinatário, é muito mais dirigida a mim do que a ti.

Faz um ano que te conheço de uma maneira diferente. Mantenho comigo as nossas brincadeiras no chão em frente à lareira de tua casa, as nossas tardes de Verão a ver a Volta a Portugal em bicicleta, as nossas discussões enquanto jogávamos computador, as nossas cúmplices saídas à noite, as nossas cervejas não autorizadas, os nossos fins de tarde a ouvir rádio no teu quarto, as nossas zangas durante as férias, as nossas picardias à mesa de snooker, as nossas aventuras na serra do Caramulo, os nossos abraços no Estádio da Luz. Mantenho comigo todas estas memórias, mas desde aquele dia em que partiste, nasceram outras. Agora, por mais estranho que pareça, sinto-te mais perto.

Todos os dias brincamos, todos os dias discutimos, todos os dias ouvimos rádio e todos os dias falamos, mesmo sabendo que, tal como acontece nesta carta, nunca chegarei até ti, nunca me irás responder e nunca sequer me irás ouvir. Mas eu insisto e, sinceramente, devo dizer que me faz bem. Eu avisei que esta carta era muito mais dirigida a mim. E como eu gostaria que ela nunca tivesse sido escrita. Desculpa escrever-te tão tarde.

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ela

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Escrever sobre ela não é fácil. Nunca foi. Porém, não é por isso que o mundo não está carregadinho de cartas com ela nas palavras. E esta é apenas mais uma. Pequena, simples e a roçar o ridículo, não fosse esta uma carta de amor.

Devo admitir, desde já, que não sei nada sobre ela, mesmo tendo sido a primeira pessoa a quem destinei o meu olhar. Desde esse dia que a vejo, que a oiço e que a sinto. De várias maneiras, em vários lugares. Ela também me vê, me ouve e me sente. Ela, que nunca foi só uma e que nunca será muitas. Ela é mãe, ela é filha, ela é avó, ela é irmã, ela é namorada. Ela é mulher. Ela, que me aconchega e que me inquieta, que me aborrece e que me estimula, que me alegra e que me obriga a comer a sopa. É para ela que eu escrevo.

Ela gosta de cores garridas e do cinzento. É simples e acha-se feia ao acordar. Mas não é. Nem ao deitar. Nem durante o dia. Só às vezes. Um bocadinho, vá. E ainda bem. É isso que a torna interessante. Ela não vive num anúncio de lingerie, numa capa de revista nem num filme de Hollywood. Ela vive aqui. No seu mundo vulgar. Ela é ela, simplesmente. Bonita e feia, calma e agressiva, única e banal. Tem todas as inseguranças dignas da sua condição e todas as convicções dignas dela mesma.

Ela manda sem dar ordens. Ela infiltra-se no sangue e controla-nos o cérebro. E o coração. E aquilo. Controla-nos tudo, caraças. Crava-nos as unhas na pele, os dentes nos lábios e os olhos na alma. É implacável, obstinada e inflexível mas, mesmo assim, nada a impede de chorar a ver uma pirosice cinematográfica de domingo à tarde.

Ela é mãe, ela é filha, ela é avó, ela é irmã, ela é namorada. Ela é mulher. E escrever sobre ela não é fácil. Nunca foi.

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diazinho oficialzinho

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Hoje é o diazinho oficialzinho dos namoradinhos. Juntam-se todinhos, trocam mensagenzinhas a dizer que se amam muitinho e que querem ficar juntinhos para todo o semprinho. Está escrito nas entrelinhas de todas estas lamechices. Hoje é o dia dos inhos e das inhasBeijinho para aqui, queridinha para ali.

Eu até gosto destas confissões de amor terminadas com mil asteriscos no final das mensagens, mas tem de ser todos os dias. Sim, tem de ser porque o amor (ou o amorzinho para os adeptos ferrenhos deste dia) não é feito apenas de 24 horas a meio do mês de Fevereiro. O amor, se é que existe, não é mais que olheiras de sono e de choro, copos vazios, camas desfeitas e dores de barriga. O amor não é feito num dia cujo santo padroeiro é um Valentim. Se fosse mesmo amor, o santo deveria chamar-se Valente. Deveria ser o dia de São Valente, e não São Valentim.

A partir do momento em que se tem contacto com o amor, a pessoa fica completamente desprotegida para o resto da vida. Qualquer olhar mais demorado numa mesa de café ou um sorriso mais provocador numa loja de roupa atira-nos imediatamente para o chão, sem qualquer cadeira onde nos possamos sentar e, pior que isso, nus, à vista descartada de qualquer transeunte desgovernado.

Como o Miguel Esteves Cardoso escreveu, “as pessoas haviam de encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela”. E é bem verdade, a felicidade só vem atrapalhar a nossa vida. Faz-nos andar com sorrisos parvos todo o dia, aceitar todos os atrasos do autocarro que nos leva para o trabalho todos os dias, compreender todos os problemas de todos os taxistas de todas as cidades, sorrir e dar dois euros a um mendigo que nos roga uma praga qualquer terminada em “Deus Nosso Senhor”, e por aí fora… A felicidade é uma anestesia que nos alucina de tal forma que não conseguimos encontrar uma rua suja, um empregado das finanças antipático ou um político corrupto.

Por outro lado, viver sem qualquer felicidade também chateia. Nem que seja aquela felicidade de ver o Aimar a fintar meia equipa e a meter a bola no fundo da baliza. Ou a outra felicidade de dar uma gargalhada de 20 minutos sem ninguém ter contado uma anedota.

São felicidades relativas, ao contrário do amor, que não acontece num só dia e não deve ser relativizado por programas de televisão com balões em forma de coração. O amor é absoluto e impossível de alcançar. Apetece-me mesmo dizer o título de um livro do Miguel Esteves Cardoso, mas não digo. Fica nas entrelinhas.

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a nossa piegas condição

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O nosso primeiro-ministro pediu aos portugueses para serem “menos piegas”. Que idiotice! Um pedido destes é tão ridículo quanto uma ordem de fuzilamento. Diminuir a nossa pieguice é um acto homicida. Enquanto portugueses, temos o direito – e, até mesmo, o dever – de defender esta nossa condição.

De norte a sul do país, do interior ao litoral, passando pelas ilhas, todos nós somos piegas. Ora porque não temos dinheiro, ora porque nos dói as costas, ora porque está sol, ora porque chove. Do que precisamos é de uma mão no ombro, de um simples aceno com a cabeça e de um leitinho quente. Do que precisamos é de mimo. O nosso nível de pieguice é equivalente ao nível de necessidade de mimo. Não vamos lá só com ordens. Não há solução. Está-nos no sangue. Nós somos piegas e gostamos de o ser. Adoramos chorar, suspirar, bradar aos céus… No fundo, só queremos atenção.

Podemos não ser os únicos a chorar a nossa tristeza, mas somos, certamente, os únicos a chorar a nossa felicidade. Até uma boa notícia merece um olhar atento sobre o seu lado mais triste. Porque, para nós, todas as coisas comportam tristeza. Ora mais, ora menos, mas ela está sempre lá. E, agarrada a ela, a pieguice. Mesmo quando está longe de aparecer, numa festa de reencontro de velhos amigos ou num jogo de futebol em que já festejamos o quarto golo, há ali um certo momento em que paramos e “alto lá, não deveria estar assim tão contente”. E voltamos a colocar de lado os sorrisos do momento e desatamos a carpir mágoas por já não podermos viver as histórias que recordamos ou por aquele golo não ser mais do que uma bola a entrar na baliza. Atiramo-nos para o chão agarrados à perna e, num excruciante esgar de dor, levantamos o braço para o árbitro, pedimos falta, dizemos que nos dói muito e esperamos pelo som do apito. Paramos para o ouvir, mas ele demora e nós temos que sair do chão. Para isso, não nos basta chorar sozinhos. Precisamos de chorar acompanhados por alguém que nos meta a mão no ombro e nos estenda um leitinho quente. Tal como nós gostamos.

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paixão ou lá o que é

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“Para mim, o sucesso não está relacionado com dinheiro, fama e poder, mas sim com o número de olhos que estiverem a brilhar à minha volta”. Benjamin Zander, um carismático maestro inglês, disse esta frase perante uma plateia de 1600 pessoas. Perante 3200 olhos que brilhavam mais do que uma tonelada de diamantes. Zander tinha alcançado o sucesso. Tudo graças à enxurrada de emoções que transmitia ao tocar um simples prelúdio de Chopin. Para Benjamin, aquilo não era apenas música (como se à verdadeira música se pudesse associar um “apenas”). Para Benjamin, aquilo era mais. Muito mais. Em cada respiração, em cada palavra, em cada olhar, em cada partícula do seu corpo havia uma camada monstruosa daquela coisa a que se costuma chamar paixão.

Aquela era dele. Encontrou-a ali. E a nossa? Onde está? É urgente descobrir aquilo que nos move, que nos congela, que nos faz gritar, que nos cala, que nos torna maiores, que nos aperta no peito e que nos faz perder a noção do ridículo quando até mesmo o ridículo sente vergonha. Fazer com que os olhos brilhem. Os nossos e os deles. Com uma música, com um poema, com uma equação de Matemática, com uma dança, com um levantamento de peso, com o carimbar de um formulário, com a limpeza de um passeio, com um golo, com a pintura de uma parede, com tudo! Fazer com paixão é apaixonar os outros. E os outros estão cada vez menos vivos. Esses outros que somos nós. Que andam de um lado para o outro com a cabeça no chão, com as mãos nos bolsos e com a esperança no lixo.

De que vale chegar a velho, olhar para trás e escrever uma autobiografia a preto-e-branco, com as palavras no sítio certo, sem erros, sem capítulos inacabados? De que vale chegar a velho e reparar que, de facto, até vivemos uma vida perfeita, carregadinha de ângulos rectos e de ordens alfabéticas? Muito provavelmente não fomos felizes. Tivemos dinheiro, fama e poder, mas onde estão os olhos a brilhar à nossa volta?

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elogio do sofrimento

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Sinto necessidade de fazer um elogio ao sofrimento, particularmente àquele que se apodera de todos os que vestem vermelho. Vermelho-Benfica.

Ser benfiquista é muito mais do que ter na alma a chama imensa. É ter várias chamas. É ter um Portugal inteiro durante o Verão a arder no nosso corpo. É ter uma explosão nuclear em cada cantinho da nossa alma.

Eu sofro. Claro que sofro pelo Benfica. Quem seria eu se não sofresse? Com que cara me olharia ao espelho se não me doesse o coração quando vejo o meu clube perder? Sofro, com certeza! E vou continuar a sofrer. Quer o Benfica jogue bem, quer jogue mal. Quer o Benfica ganhe, quer perca. Eu sofro! Junto os pés, bato com eles no chão e grito para o megafone: eu sofro! E ninguém me pode impedir. Tenho esse direito, ora essa. O sofrimento é condição essencial do ser benfiquista. É o que está no seu código genético, no seu ADN, no seu código de barras, naquilo que quiserem chamar.

Aqueles que não ficam irritados com a derrota da sua equipa é porque não a sentem verdadeiramente como sua. São assim-assim. São mais ou menos. E ser assim-assim ou mais ou menos é não ser. É a total ausência de identidade.

Ser benfiquista é insultar sem piedade, é elogiar sem frieza. É sentir ao máximo. É ter uma só cor, um só rumo, um só destino.

Ser benfiquista é ter um vírus alojado não se sabe bem onde, nem como, nem porquê mas, a verdade, é que ele está lá e faz o que quer. Não é hereditário, mas é extremamente contagioso e implacável. Não dá hipótese. Deixa-nos de cama, rabugentos e encharcados em comprimidos. Mas também nos deixa eufóricos, estupidamente felizes e com vontade de distribuir beijos e abraços a toda a gente com que nos cruzamos no trânsito. É contraditório, incoerente e irracional. No entanto, não deixa de ser o vírus mais apetecível de contrair.

É por tudo isto que eu sou do Benfica. Porque amo, porque odeio, porque grito, porque choro, porque salto, porque festejo, porque sofro! E sofrer dói como o caraças. Mas dá-me a certeza de que estou vivo, de que sinto. E não há nada melhor do que sentir o Benfica.

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o amor é fodido

Comentários fechados em o amor é fodido primeiros parágrafos

«Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar. Merecias uma morte mais violenta. Se eu soubesse, não te tinha deixado suicidar com aquelas mariquices todas. Aposto que não sofreste quase nada. Não está certo. Eu não morri e sofri mais do que tu. Devias ter sofrido. Porque eras má. Eu pensava que não. Enganaste-me. Alguma vez pensaste no que isso representou na minha vida miserável? Agora apetece-me assassinar-te de verdade. É indecente que já estejas morta.»

Miguel Esteves Cardoso

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