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está por um

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É urgente o amor. Em todo o lado, em toda a gente. Mas mais, muito mais urgentemente, no futebol. E não só no que já tem assistência. É urgente o amor ao futebol na sua essência, ao futebol que, na sua definição, já tem o adjectivo que lhe parece faltar: amador. E a culpa é, grande parte, de quem o joga. Sem arte. Sem amor. 

Não por não saber passar ou fintar ou marcar, apenas por não o saber jogar. Camaradas da magia e da sarrafada em coletes berrantes, uni-vos! Voltemos ao futebol como era dantes. Acabemos com quem está a acabar com a substância da peladinha. Esses iletrados que, numa futebolada rasgadinha, cometem o crime tão triste de não contar os golos marcados, só a diferença que existe. Não está 9-8, está por um. Está 1-0. Um zero, exacto. Esses insensíveis que só existem pela conquista e não pelo espectáculo. Esses imbecis que só querem saber se ganham ou perdem, não lhes importando saber quantos golos marcam ou sofrem. Para esses palermas, um jogo que tenha terminado 9-8 é um jogo que ficou por um, que terminou 1-0. São esses que, à beira da morte, resumem a vida inteira num cinzento “estive vivo”. Que desalento.

Esses coninhas da diferença mínima que nos querem substituir os sentimentos por calhaus. Esses seres desumanos que negam o meu golo ao ângulo, a minha assistência de letra e o meu frango admirável porque um 9-8, para eles, é um 1-0. É um jogo que está por um. Por um fio, sim. Esses ditadores do vazio que apagam a História, que lhe dão um fim, que nos dizem a nós, Winstons vigiados, que a guerra com o Eurásia FC não foi assim tão sangrenta porque foi só por 1-0. Esses limitados, no limite, dizem que nunca houve guerra. E, se é sempre para terminar por 1-0, talvez não devesse mesmo haver guerra. Nem paz. Não se faz.

Mais valia jogar sem balizas. Vamos tirá-las, não são precisas. E os jogadores também. Jogamos sem eles, não são amadores, não amam ninguém. E a bola, para que serve? Se já nem o sangue do golo ferve em quem a põe na gaveta. Já não faz sentido haver pé-de-chumbo, podão ou vedeta. Quem faz isto ao futebol é gente sem coração. Para estes idiotas, contar os golos dá muito trabalho. Vai-se a emoção. Vão para o caralho.

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lolita

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«Lolita, brilho da minha vida, fogo dos meus flancos. Minha alma, minha lama. Lo-lii-ta: a ponta da língua enrola no palato e desliza, três socalcos, até que estaca, ao terceiro, nos dentes. Lo. Li. Ta.»

Lolita, do Nabokov, é uma obra de arte que tanto dança na pontinha da faca como no meio da cama. É um corpinho liso e porco e criminoso que nos acorda aqueles pensamentos que não deveríamos ter para depois os acariciar com palavras que nos fazem sentir nojo por as achar tão belas. Lençóis sujos, cuequinhas rasgadas e estamos no paraíso e no inferno, no amor. Coisa mais bonita e proibida de se ler, feita de repugnância e de pedacinhos do céu.

Lolita, de Vladimir Nabokov.

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a minha aldeia

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A minha aldeia não tem lugar no mapa. Não se lá chega com gps nem com indicações na estrada. A minha aldeia está onde a gente não esquece. A minha aldeia está onde não está mais nada. A minha aldeia tem a forma da minha lembrança de quando, mais do que pequeno, eu era criança. 

A minha aldeia tem as mãos gastas que me passam pela cara para tocar o neto daquela, o filho daquele, o menino tão pequenino que agora está um homem feito. A minha aldeia tem os olhos brilhantes pela noção do tempo longe que não volta e do tempo perto que pouco falta. A minha aldeia tem meninas nos sorrisos das velhinhas e velhinhas meninas nos olhos dos velhinhos. A minha aldeia tem os pés assentes na terra escaldada do sol ardente e enlameada da chuva que molha a vida da gente. A minha aldeia tem a saudade cravada nos gestos. A minha aldeia tem o uniforme negro da capela branquinha que toca o sino dolente na tarde calma. A minha aldeia arrasta o corpo em procissões e baila o vinho nos arraiais. A minha aldeia tem ais. A minha aldeia tem a crueldade do campo e do gado. A minha aldeia tem gente fora que só vem de vez em quando para a festa. A minha aldeia é fado que arde em lume brando. A minha aldeia é esta. A minha aldeia tem o coração no sítio certo. A minha aldeia é tão longe de tão perto. A minha aldeia tem a mesa rica de gente pobre que mal tem para quem lá vive e tanto tem para quem lá vai. A minha aldeia tem muito vazio. A minha aldeia tem calor e tanto frio. A minha aldeia tem o corpo da gente velhinha que num destes amanhãs já não existe. A minha aldeia é muito alegre e muito triste. 

A minha aldeia não é lugar. A minha aldeia é corpo que existe nas coordenadas do meu. A minha aldeia sou eu.

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aventuras de joão sem medo

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Sou um medricas, tenho medo de tudo – o que não facilita nesta coisa da existência. Já o João não tem medo de nada, sacana do puto que me fez desejar-lhe a vontade do risco. O João mora num sítio muito triste que bem podia ser o interior das pessoas. Um belo (soturno) dia, decide que isto não é vida e decide saltar o muro para dar início a uma épica viagem de monstros, fadas e poesia.

Uma história que deveria estar na mesa de cabeceira de todos os adultos que, mesmo medricas, ainda têm coragem de sonhar. 

Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira.

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verão azul

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Mil novecentos e noventa e quatro, o Roberto Baggio falha o penálti e eu fico triste. O primeiro Verão de que tenho memória foi o mais feliz da minha vida. Éramos muitos, uns quantos adultos e uma catrefada de putos a partilhar um rés-do-chão de uma moradia em Lagos.

Havia um jardim, pequenino, em frente ao portão de entrada, e uma palmeira nesse jardim. Era lá que eu e os meus primos brincávamos. Havia uma piscina, mas só lá ia quem morava no andar de cima, nós não. Havia um grelhador com um adulto de boné sempre por perto, o meu pai ou algum dos meus tios. Cheirava a peixe e a carne grelhada. O melão era fresquinho e ainda hoje, dois mil e dezanove, me sabe àquele Verão. O meu primo João nunca queria ir despejar o lixo mas, na volta, já vinha a cantar. Também havia muito sol e sono depois de almoço. Mas os putos felizes não dormem, então, eu, o meu irmão e os meus primos íamos para o café jogar snooker e beber coca-cola. Os adultos ficavam em casa a dormir a sesta e a jogar às cartas. 

Às quatro horas, voltávamos para a praia. Corríamos, jogávamos à bola e tentávamos escavar buracos até à China – nunca conseguimos, por exclusiva culpa do mar. O regresso era feito de areia nos pés, alguns desaguisados entre primos e uma vincada falta de vontade de ir tomar banho. A vontade, mesmo que vincada, dos putos não prevalecia sobre a vontade, mesmo que branda, dos adultos e então lá íamos nós de burro preso para o banho. 

A alegria regressava num instante. Era Verão e era família. E eu era criança (o que ajuda muito nesta coisa da felicidade). Nada mais importava porque, para mim, nada mais acontecia além do que acontecia ali. E, numa televisão pequenina que estava na sala, o Roberto Baggio deu balanço. Olhou para o árbitro, olhou para o Taffarel e correu. Eu adorava o Taffarel, o Raí, o Romário e o Bebeto, mas adorava mais o Roberto Baggio. Torcia pelo Brasil porque não havia Portugal, mas fiquei muito triste com aquela bola por cima da barra. Felizmente, havia Verão partilhado naquele rés-do-chão de uma moradia em Lagos.

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declarações de guerra

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Não é um livro, é um estilhaço de granada. Declarações de Guerra conta, em carne viva, as vidas de ex-combatentes portugueses no Ultramar. As vidas que foram e as que ficaram, ditas por eles mesmos, furriéis, soldados, cabos, alferes, sargentos, todos eles destroçados por uma guerra que não era deles. Ficaram-lhes as vidas que já nem vidas são. Ficaram ninguém. Um trabalho excepcional de Vasco Luís Curado que esventrou o politicamente correcto para dar voz a quem não queremos dar ouvidos.

Declarações de Guerra, de Vasco Luís Curado.

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renascimento

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Nasci em 1985, mas a minha certidão de nascimento diz 1994. Foi após um electrizante empate a zero contra o poderosíssimo Gil Vicente de Cacioli, Dito e Mangonga que o meu pai nos deu à Luz. Manuel José Andrino Pereira, sócio nº 23070. André Filipe Ferreira Andrino Pereira, sócio nº 23071.

Passaram 25 anos e passaram memórias que hoje voltaram. Quase uma vida de mão dada e cachecol ao pescoço. Quase uma vida de uma vida inteira que é o Benfica. Que é mais do que o Benfica. É o meu pai.

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welcome to the freak show

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Claro que o Conan Osíris ganhou o Festival da Canção. Não é surpresa nenhuma. E até é bem provável que ganhe o Festival da Eurovisão. Não me admirava nada. Não é a música que ganha neste festival. Nunca é. É a diferença.

No ano passado, ganhou a gorda israelita japonesa das galinhas. Como era a música? Pois, também não me lembro. Há dois anos, ganhou o Salvador. A música era, de facto, música. E lembramo-nos dela. Mas foi a diferença que ganhou. Um puto sozinho em palco com voz, sem dança nem explosões. Diferente de tudo o resto. Felizmente, coincidiu com uma música que era, de facto, música.

Já venceu um grupo de selvagens que vieram além da muralha para cantar heavy metal, Lordi, e um homem que é mulher que tem barba e vestido de gala, Conchita Wurst. Como eram as músicas? Ninguém se lembra, não interessa. A Irlanda já concorreu com um peru, a Itália com um macaco e a Ucrânia com uma espécie de hamster. As músicas eram todas maravilhosas, não eram? Pois. A Polónia já levou um saltitante grupo de mamas a baterem manteiga em palco, sim, um saltitante grupo de mamas a baterem manteiga em palco (vale a pena pesquisar) e a Moldávia já levou gnomos do Boom Festival. Que músicas lindas, não eram? Exacto. A Áustria já deitou fogo a um piano e a Ucrânia já enrolou um Boy George em papel de alumínio. E a música? Ahn-ahn. A Letónia já optou por piratas, o Montenegro por astronautas e a Rússia por velhinhas de um rancho lá do INATEL Estaline. Músicas lindas, lindas, lindas… A Bielorrússia já pôs um loiro nu a uivar com um lobo e até nós levámos o Jel e o Falâncio sendo Jel e sendo Falâncio. Pois.

Não é surpresa nenhuma o Conan Osíris ter vencido o Festival da Canção e estar nos favoritos a vencer a Eurovisão. Não é música e é diferente. Está ganho.

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o meu avô

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Foi embora o meu avô. Mas ficou.

Fica sempre quem, indo, existe ainda. Ele foi porque tinha de ir. E é no peito que ele me continua a existir. É mesmo no peito, fisicamente no peito. É lá que, pelo menos, pelo mais, me dói. É lá o aperto de já não o ter perto. É lá o soluço da respiração, o descompasso do coração, as costelas, os pulmões, os nervos, tudo comprimido. Ele não deveria ter ido. Não. Mas foi, e dói, e dói mais, tão mais, quando nos morrem aqueles que julgamos imortais. Quando eu nasci, o mundo que me apresentaram tinha o meu avô. Era assim que o mundo era e era assim – quem me dera – que deveria continuar a ser. Os imortais não deveriam morrer. Entregava-lhe, de volta, a cor dos olhos que me deixou, o sacana daquele sorriso, tudo o que fosse preciso só para ter, de volta, o meu avô. Mas ele não volta. Baralhou as cartas, distribuiu as peças do dominó e deu-me um calduço à socapa só para brincar e dizer, sem dizer, que tinha sido a minha avó. Jogou comigo às damas no sofá. Entrelaçou os dedos das mãos e encostou-lhes a nuca, como se fossem almofada. Perguntou pelo Benfica. Agora, nada. As memórias são tão reais como a carne.

Ele foi, mas ficou. Existe, ainda, o meu avô.

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um “beijinho grande”

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Enfim, gente cobarde ali à roda com as palavras só para não dar um inteiro, simples, absoluto, puro, uno, claro, real, digno beijo.

Primeiro que tudo, beijinho grande não faz sentido. Ninguém dá uma coisa pequenina grande a ninguém. O diminutivo existe para transmitir um menor grau do seu significado original. O adjectivo grande existe para transmitir um maior grau do seu significado original. Ora, se beijinho existe para transmitir um menor grau de beijo e grande existe para transmitir um maior grau de beijinho, então, um beijinho grande é um beijo.

Não me venham é com paninhos quentes de beijinhos grandes, que isso é fugir com a boca à seringa da palavra certa, é ir dar a volta ao bilharzinho grande só para não dizer o que se deveria dizer. E não há cobardia alguma quando se diz o que se é. Por muito que aleije, se for para beijar, que se beije.

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osso

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Há um paralelismo curioso entre a relação do ser humano com o outro e a relação do ser humano com ele próprio. Uma espécie de básico, de osso.

Na relação com o outro, o ser humano está a simplificar o mundo. Está a voltar ao piso 0 da evolução, com a intolerância, a segregação e o conflito. Há bons e maus. Na origem, talvez o medo de morrer.

Na relação com ele próprio, o ser humano está a querer procurar o simples, o mais elementar da sua natureza. Está a aprender a respirar, a conhecer o corpo, a sentir, a olhar para si, a regressar ao seu próprio embrião. Na origem, talvez o medo de não estar a viver.

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domingo

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O domingo é a permanente ausência do dia, a memória viva do ontem e a antecipação sofrida do amanhã, a noite que não é, o intervalo da vida, o fosso entre a ilusão e a realidade, o limbo dos corpos, o sofá das almas, o ir não ir e ficar, o ser não sendo a dormitar, o ronronar dos gatos, a ressaca dos sentidos e o snooze de os sentir, a chuva nos vidros da janela da sala, o falar e ouvir e tocar e cheirar e provar tudo a preto e branco, a televisão a médio-som, a solidão a média-luz, o passeio dos tristes, o sal da melancolia, a câmara lenta da ronha.

O domingo é de quem sonha a permanente ausência do dia.

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rami rhapsody

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Um filme fraco, uma interpretação brilhante. Um filme que não valeria 5 minutos se não houvesse Rami Malek. Uma interpretação digna de Óscar para um filme digno de pouquíssima coisa.

É impossível (voltar a) ser Freddie Mercury, mas Malek assusta na forma como está tão perto de negar essa impossibilidade. O jeito de andar, de cantar, de mexer, de olhar, de quase tudo roça a perfeição. A história é conhecida, talvez por isso não haja qualquer surpresa ou perturbação que me tenha feito aplaudir o filme.

Tudo acontece a correr e quase nada é aprofundado como deveria ter sido. É um filme sobre a vida de uma lenda, não há tempo para mostrar as entranhas da vida dessa lenda, eu sei, mas deveria haver. E, devendo, não deveria ter havido filme. É um resumo de Wikipédia, vá. Mas o Malek, caraças, quase me fez acreditar no renascimento do Freddie.

Bohemian Rhapsody não é um filme. Rami Malek é o filme. E nada mais interessa, pelo menos, para mim.

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#adormir

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O Bolsonaro percebe a Democracia muito melhor do que qualquer adversário. Também o Trump. Também o Putin. Também o Hitler. E fizeram-na funcionar (em seu favor, claro, mas em Democracia). Nós não percebemos. E achamos que ela funciona sozinha e sempre em nosso favor. Errado.

Estamos a dormir o tempo inteiro, fazemos nada durante o sono e, quando acordamos a suar com discursos de ódio e sangue, insultamos o Bolsonaro, o Trump, o Putin e o Hitler e o “povo estúpido” que vota neles. Ah, e criamos hashtags.

Não tentamos perceber a razão para a existência do Bolsonaro, do Trump, do Putin, do Hitler ou de qualquer outro fascista eleito em Democracia. Não tentamos perceber o voto do “povo estúpido”. Não tentamos, sequer, perceber a razão por que apelidamos quem vota neles de “povo estúpido”. Não tentamos perceber o nosso sono. Não tentamos perceber nada. Ainda bem que agora estamos acordados, para vermos a merda que temos feito #adormir.

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simone

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“Simone, o Musical” deveria ser apenas “Simone”. Tudo o resto é acessório, clichê e fraco.

Não é musical porque as músicas não foram músicas graças às palavras que não se ouviam e às guitarras, ao piano e à bateria que quase se faziam ouvir mais do que o ridículo que se ouvia. Não é peça de teatro porque o teatro que há não o chega a ser, por tão primário de guião, tão mau revisteiro de representação e tão incoerente de cenário. Nem sequer é Simone porque Simone não é aquilo rodeado por aquilo que estava em palco. “Simone, o Musical” deveria ser apenas “Simone”. Só ela. Sem palavras vulgares, personagens vazias ou emoções mal amanhadas.

A única coisa que se aproxima do teatro em si é o que se diz antes de se pisar o palco e que, neste caso, reflecte, na perfeição, o que mais há neste “musical”: muita merda.

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as árvores morrem de pé

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Vi o Ruy de Carvalho e a Manuela Maria. Vi o Carlos Paulo. Vi a Patrícia Resende. Vi todos eles e vi todos os que cada um deles é.

Devia haver cada um deles em cada um de nós. Devia haver teatro em cada teatro que cada um de nós é. Devia haver um teatro de família, a que fôssemos chamados regularmente para ver do nosso estado de saúde. Devia haver um INEM do teatro para quem se sentisse doente. Devia rezar-se ao teatro de cada vez que cada um de nós morresse. Devia tocar para dentro todas as manhãs para dizermos bom dia aos actores e nos sentarmos no nosso lugar atentos à aula de vida. Devia haver um teatro de embalar para nos adormecer todas as noites. Devia ser obrigatório bebermos um litro e meio de teatro todos os dias. Devia haver um banco alimentar contra a fome de quem não vai ao teatro, para ajudar quem não o tem. Devia cair teatro em vez de chuva. Devia brilhar teatro em vez de sol. Devia substituir-se o bom dia, o boa tarde e o boa noite por teatro, teatro e teatro. Devia deitar-se abaixo as paredes do teatro para que o teatro fosse a rua inteira. Devia haver baloiços de teatro e escorregas de teatro para as crianças. Devia jogar-se ao teatro nas mesas dos reformados. Devia ser teatro a maternidade e ser teatro o cemitério. As casas deviam passar a chamar-se camarins e os jardins boca de cena. Tudo o resto seria tábuas e adereços. A noite podia ser a cortina vermelha. O dia seria o resto. O lugar de cada um seria o lugar onde cada um estivesse. A peça era a que cada um quisesse. Mas tudo seria teatro. E havia silêncio e caos e sonho e dor e vida e morte e foda e nojo e riso e mar e céu e terra e cama e amor.

E havia teatro.

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rip

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Não me lembro de alguma vez em algum lugar ter morrido um filho da puta. Quem morre é sempre um génio, um homem de grande valor, uma grande mulher, uma personalidade ímpar, um ser humano fantástico, um ser dotado de uma inteligência brilhante, um jurista de grande gabarito, um cidadão do mundo, um nome cimeiro da cultura, uma mulher de convicções, uma voz livre da sociedade, um grande mestre da arte, um exemplo de vida, um amigo de coração gigante, qualquer coisa maravilhosa cuja morte se lamenta profundamente. Deixará saudades. O mundo fica mais pobre. E com mais filhos da puta. Se essa é condição para aqui ficar, gostaria de ser um. Não me parece muito proveitoso ser um génio na inexistência.

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a minha geração

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Sou da geração dos 1.000 euros, mas nunca ganhei mais de 800. Nunca estive nos quadros, estive perto, mandaram-me embora. Três contratos de seis meses, o clássico, és essencial, já não és, obrigado e bom dia. Fiz dezenas de formações e uma série de estágios, nunca tive – nem agora tenho – nem nunca terei – experiência suficiente para receber o que mereço receber. Mas trabalho, trabalho muito bem, trabalho melhor, não me baldo com baixas nem me levanto baixando-me. Tenho projectos do caralho, mas claro que não ganho nada com isso porque não são gourmet. Como sou da escrita, qualquer um pode fazer o meu trabalho, claro que pode, qualquer um escreve, mal, mas pouco importa. A verdade é que também ninguém lê. Lendo, saberia escrever e saberia entender o que se escreve. Vou a palco, mas óbvio que nunca lucrei com isso. Há dinheiro para o IGAC, dinheiro para a SPA, dinheiro para o Teatro, dinheiro para o produtor, dinheiro para o promotor, dinheiro para o fotógrafo, dinheiro para o técnico de som, dinheiro para o técnico de luz, dinheiro justo para quase todos, mas dinheiro injusto para mim. E o dinheiro dos bilhetes, que é pouco para mim, é sempre muito para quem quer assistir ao pobre artista no palco. Não arranjas uns bilhetes? Não arranjas uns textos? São só uns lugares. São só umas palavras. E eu não sou só isto. Mas cá me arranjo.

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o meu gato

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Há dias em que me apetece atirá-lo pela janela. Eu moro no sétimo andar. Há dias em que me apetece atirar-me pela janela. Ele mora no sétimo andar, comigo.

O meu gato faz muita merda. Adora cabos, sofás e cortinados. Morde-me as pernas e arranha-me os braços. Adora os atacadores das minhas sapatilhas e qualquer pedaço de tecido das minhas meias. Gosta de testar a gravidade com os meus livros. Envergonha-me no veterinário. É esquisito com a areia e com a água. Está, neste preciso momento, em cima do teclaijwodhreerioeoiore doftgddddjbhfgggt computadkhfdijjjj. Não me deixa fazer a cama em condições e larga pêlo em sítios cuja existência eu desconhecia. Fez-me ser sócio premium de todas as lavandarias de Lisboa. Pôs-me a dormir na sala para arejar o quarto. Fez-me gastar salários para ele ficar bem depois de operações, vacinas e pequenos cristais que lhe doíam horrores. Nunca se queixou. Apercebi-me. Talvez ele me tenha dito. Não sei, tenho quase a certeza. Não falamos a mesma língua, mas comunicamos. Ele não percebe patavina do que lhe digo – falo mais com ele do que com gente -, mas ele percebe tudo o que sinto quando lhe digo. Eu não faço ideia o que ele quer dizer com aqueles olhares e miares e palmadas de patinhas, mas sei exactamente o que ele sente quando me diz.

Ele brinca comigo sempre que eu chego a casa. Ronrona encaixado na concha que faço com as mãos e encosta-se à parede a pedir números de circo. Encosto o braço à parede e ele salta. Faz outra vez. Outra vez. E outra vez. Eu escondo-me e ele procura-me. Vou à cozinha e, quando volto, tenho cinco quilos e tal a abalroarem-me as pernas. Recompõe-se, foge e esconde-se debaixo da cama. Com a cauda de fora. Eu finjo que não o vejo e chamo por ele – que ridículo, ele não percebe, mas percebe perfeitamente, e ele brinca e eu brinco também, e somos felizes assim, que ridículo, quero ser ridículo sendo feliz e ser ridículo fazendo-o feliz. Sempre que vou à casa de banho, ele vai também. Ora espera por mim, ora espero por ele. Sai a correr e eu levanto-lhe a voz para tapar o que fez. Ele volta atrás e tapa o que fez. Sempre. Deita-se ao meu lado, ao fundo da cama, e adormece agarrado à minha perna. Mexo a perna e ele morde-me os dedos com aqueles dentinhos afiados pelo diabo. Quero atirá-lo pela janela. Levanto a voz e pára. Lambe como que beijando. Encosta-se mais e adormece. Ressona e mexe-se muito. Acordo com a língua dele no meu nariz. Ronrona-me no peito e o meu peito ronrona também. Fica especado a ver-me tomar banho e mia desalmado sempre que abro uma lata de atum. Vai para a janela ver as pombas e as pessoas. Faz muito bem de bibelô em frente à televisão.

O meu gato passa muito tempo sozinho e eu sozinho sem ele. Isto da solidão com saudade é uma merda também, mas ele faz sempre questão de me dizer, não dizendo, que me ama sempre que me vê. Eu digo o mesmo e ele ouve, eu digo-lhe que já venho e que se porte bem e ele ouve sempre. E responde. Não faço ideia o quê, mas responde.

Ele não faz anos hoje nem há hoje dia do gato ou do animal. Também não morreu – o elogio não é obrigatório apenas quando se morre. Ele existe comigo e isso basta-me para que lhe escreva coisas que ele, não percebendo, ouve todos os dias. Continuo no sétimo andar. Ele faz-me continuar.

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antes o poço da morte

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Fora a crença, presente ou não. Sejamos a pessoa doente que está no poço da morte (sofrendo, sem cura). Não há volta a dar. A volta é só a que vai. Não volta. E essa volta custa-me a mim, pessoa que sou neste exercício da imaginação que não está livre de ser da realidade.

Custa-me a mim, dói-me a mim, e a única recompensa – que nunca irei sentir, é um facto – é a ausência dessa dor. E não sentir não será melhor do que sentir isto que não me deixa sentir outra coisa, nunca mais?

Quem está fora da cama, desse lado onde se discute a minha vida – que é, também, a minha morte -, quer ver-me a não morrer ou a não sofrer? A primeira afecta quem me vê, quem está fora da cama, quem, eventualmente, sofre pela minha morte, não eu. A segunda afecta-me a mim. E é aqui que está a discussão certa. Em mim, não em vocês.

Eu, que estou neste poço da morte (sofrendo, sem cura), tenho a vontade de não sofrer e a recompensa de não viver com ele. Se a morte é a solução, que seja e que seja a minha, e não a de quem não suporta a ideia a que vem amarrada a suposta culpa de me ver morrer.

Não há culpa, isso não é culpa, é egoísmo. A verdadeira morte é esta que me existe enquanto vou sofrendo sem qualquer possibilidade de não voltar a sofrer.

E não trago ninguém comigo, não se preocupem. Comigo, como eu vou, vai quem quer. Quem não quer vir, quem quer continuar a sofrer, pode ficar. Não é minha vontade decidir pelos outros. Não seja a vossa decidir por mim.

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quase normal

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Quase Normal é uma peça de teatro musical que não chega a ser quase peça de teatro nem quase musical.

Quase Normal é algo – não sei bem o quê – que faz com que olhemos para os actores como quase actores. Quase Normal fala de bipolaridade e de esquizofrenia, diz na apresentação. Na verdade – na sofrível e disparatada verdade da existência desta “peça” – Quase Normal pouco fala, muito canta, nada diz. Diz-se-lhes os nomes, chora-se muito, ri-se muito, há espalhafato e clichês que nem são nossos, mas tudo o que diz é verniz e ignorância num palco que deveria ser pisado para se fazer e mostrar arte. Nem chega a ser quase arte. É quase uma merda. Quase – nem ascende a tal.

Há presença ridícula em palco e vergonha alheia na plateia. As interpretações são assustadoras de tão vulgares e a adaptação do guião é angustiante de tão medíocre. Os momentos musicais deveriam ser condenados à cadeia – é crime tratar a música e a língua portuguesa desta forma.

Quase Normal está em cena, no Teatro da Trindade, a ocupar o espaço da arte. E a embaraçar o público que vai convencido de que, pelo menos, isto possa ser quase razoável. O problema é que nem chega a ser quase merda.

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é nome de rui patrício

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Choraste e eu, não chorando, chorei contigo. Não pelos golos que sofreste, que até aplaudi. Perdeste, queria que perdesses, é a rivalidade, desculpa, também é ela que nos faz andar nisto da bola e da vida. Só por isso.

Mas choraste e eu, não chorando, tendo até sorrido por cada golo que sofreste, chorei contigo. E nem sequer foram os golos que te fizeram sofrer dessa maneira. Que se fodam os golos, foram – das coisas mais importantes das menos importantes da vida – apenas golos.

Sofreste, e ainda sofres, por não haver o respeito das palavras, dos gestos, das atitudes e de tudo o mais daqueles a quem deste sempre mais. Não a todos, que a maioria está contigo e não te deixa chorar por ela, mas a de alguns que, cegos de raiva e de ingratidão, batem e cospem em quem lhes deu pontos e sonhos e voos e, acima de tudo, coração.

Os homens não choram e tu choraste. Já sabia que eras mais do que homem. Pisámos o pelado do Marrazes, vestimos de negro. Só isso seria suficiente para seres mais do que homem. Mas sempre continuaste aquele puto que não era um Maradona a lateral esquerdo, mas que era um Rui Patricio à baliza. E Rui Patrício não é nome de homem. É nome de Rui Patrício. É nome de capitão. É nome de líder. É nome de quem dá pontos e sonhos e voos e, acima de tudo, coração.

Choraste e eu, não chorando, chorei contigo. És mais do que meu amigo. Sempre que chorares, és meu irmão.

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bob dylan

Comentários fechados em bob dylan bloco de notas, música

Não foi desilusão porque a ilusão não havia. Bob Dylan foi Bob Dylan. Apagado, chocho, fechado, autista, antisocial, músico e merdas. Disse, apenas, as palavras das músicas. Nem mais ai nem menos ui. Não que devesse ter dito, feito ou sido. Foi um palco e uns instrumentos com voz. Não foi mais nada. Muito menos arte. Foi, até, o reforço da sua ausência. O cd tocava ao fundo, com um som digno de nada, e as pessoas bocejavam e adormeciam e acordavam e bocejavam e adormeciam e acordavam – e bem e bem e bem e bem e bem e bem – e aplaudiam, não pela música bem tocada, mas por a música ter chegado ao fim – e muito bem! Não foi desilusão, já estava à espera de que fosse uma merda.

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do caralho

Comentários fechados em do caralho bloco de notas

O Jonas é um jogador do caralho. O Samaris é um jogador da piça. E nem sequer estou a discutir futebol, estou a discutir palavras. Neste caso, caralho e piça. São sinónimas, referem-se ambas ao mesmo, mas dizem coisas completamente diferentes. Aliás, na verdade, nem se aproximam do que querem dizer. E isso é bonito. É uma espécie de emancipação linguística.

Há o pénis e, do pénis, nasce o caralho e a piça e, do caralho e da piça, nasce o magnífico e o medíocre. Nascem as palavras e nascemos nós. Do caralho.

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actores

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Eles são eles e outros e eles outra vez, nunca deixando de ser quem são: pessoas e actores. Nós somos constantemente nós e outros, pela repetida dúvida que nos inquieta o entendimento. Há teatro e não há, assumindo que é possível desligar o teatro da vida. Não é. Mas eles fazem-nos crer que sim. E depois que não. Dúvida, coisa maravilhosa nisto do teatro. Da vida.

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mundo distante

Comentários fechados em mundo distante bloco de notas, teatro

“Mundo Distante” está tão perto que nos chega a incomodar. Esta peça, escrita pelo meu amigo Nuno Costa Santos e interpretada pelo Eduardo Frazão e pelo Manuel Coelho é, essencialmente, realidade. É quase afronta ao teatro, à representação, ao ensaio, à invenção. É realidade, ponto final. E a realidade tem silêncios e asneiras e palavras e coisas inteiras que se arrastam entre as pessoas, tem internet e desemprego e poesia e muito pouco aconchego. Teatro que é realidade que não é teatro. É o que é.

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a minha tia carminda

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A minha tia Carminda foi a mulher triste mais alegre que eu conheci. Viu morrer-lhe pessoas que lhe nasceram, outras que a viram nascer, tantas que cresceram com ela, muitas que ela ajudou a crescer, todas de sangue próximo. Longe, nada. Tudo lhe aconteceu dentro, como as lágrimas que guardava só para ela – só podia guardar, nunca as vi na sua pele fim de tarde desde sempre, sendo o sempre só o pouco que eu recordo. Mas não se pode guardar tudo o que se tem por não se ter, por isso, ela só podia chorar sozinha, era a única forma que tinha de chorar sem mostrar. A tristeza não é fraca para ficar só no destruído quentinho do peito. Tem de cair dos olhos e mostrar aos outros que se sofre e que se é triste. Ela nunca mostrou nada disso, sentimentos demasiado imensos que ela tratava lá como bem entendia, com os ares do campo e com as fés do deus. Connosco, os que lhe dizem adeus e os que não conseguiram dizer, sempre sorriu e sempre brincou. E nós, pobres tristes afundados em depressões de emprego ou de amores passageiros, sorríamos e brincávamos. Fracas dores as nossas para a ternura e alegria que nasciam das dores dela. A minha tia Carminda foi a mulher triste mais alegre que eu conheci. Talvez por isso, agora, a tristeza seja mais triste um bocadinho.

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o desenho do shéu

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O Shéu fez-me um desenho. Foi em 1998, num convívio da casa do Benfica de Leiria, e o desenho que o Shéu me fez é o que mais me desenha a lembrança.

O pai do Mário foi buscar-nos a um jantar do SCLMarrazes, o meu negro clube onde jogava eu e o Mário. Éramos putos, eu tinha 13 anos. Hesitei em ir, por vergonha de estar com os maiores, mas a amizade pelo Mário e o sorriso do pai do Mário lá me levaram com eles. Era noite e havia pirilampos lá fora, no jardim. Lá dentro, no restaurante, havia estrelas. José Augusto, António Simões, Bento, Mário Wilson, Shéu, Veloso. Ficámos sentados junto do José Augusto e do Shéu. José Augusto, o bicampeão europeu, Shéu, o pés de veludo. Havia mais luz do que no jardim e eu não sabia o que fazer, não sabia para onde olhar, não sabia nada. Sabia, apenas, que estava junto de duas lendas que nunca tinha visto jogar ao vivo, mas que eram parte da linfa que me corre no meu (muito) vermelho sangue.

O Shéu, sempre discreto e sempre tranquilo, olhou para mim, pegou numa caneta, num papel e começou a rabiscar. Desenhou qualquer coisa como figuras geométricas – que era o que ele desenhava em campo – e ofereceu-me. Acho que paralisei. Olhei para aquela folha e vi genialidade que ultrapassava a de Picasso. Os desenhos eram horríveis mas, caraças, eram desenhos que o Shéu fez para mim. Que se lixe a Guernica e As Meninas. Este menino estava numa aguarela de museu e não queria de lá sair. Sou capaz de ter dito obrigado – a minha paralisia não me terá deixado dizer mais nada. Sei que o José Augusto também pegou na folha e assinou. Seguiu-se o Bento, que também lá estava ao lado, o Veloso, o António Simões e o senhor Mário Wilson que me chamou de craque (não me interessa mais nada, o senhor Mário Wilson disse que eu era craque, o número 7 do SCLMarrazes era craque, ponto final, foi o que ele disse e, se ele disse, tinha razão) – e todos sabemos que não se deve contrariar os deuses.

A terminar a noite, depois daquela enxurrada divina, dirigi-me à caça de autógrafos na mesa presidencial. Foi aí que desci à terra. Paulo Madeira, capitão de equipa, José Capristano, vice-presidente, e Vale e Azevedo. “Dá cá a folha que a assinatura de um presidente tem de ficar bonita”. Não há dúvida de que ficou bonita. Mas a anos-luz dos desenhos horríveis que o Shéu me fez.

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estou?

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Odeio atender chamadas, odeio, e há uma única razão para isso, e essa razão é a incerteza da vida. Não fosse incerteza e não fosse vida e não diríamos coisas como as que dizemos sempre que atendemos uma chamada: estou? está lá? sim? Isto é incerteza de vida, isto é filosofia pura, isto é falarmos mais connosco do que com quem está do outro lado da linha. estou? eu estou? eu sou, mas será que estou? está lá? lá onde? quem está lá? e esse alguém está verdadeiramente? se está, onde é o lá? sim? por que não? incerteza no sim e certeza no não? anseio de uma resposta que seja sim? Isto é incerteza e nós nem sequer paramos para pensar. Questionamos e falamos. É por isso que odeio atender chamadas, porque não faço ideia do que seja isto da vida.

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só me aconteço escrevendo

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Escrevo para que a vida não morra.

Acho que é isso. Se for por outra razão, desconheço-a. Aliás, se for por razão, é mentira. Escrevo porque não tenho razão para escrever, razão pura, coisa lógica com sentido, não.

Escrevo porque me acontece assim e porque eu só aconteço se eu escrever. E acontece que eu aconteço muito na vida, de uma ponta à outra, com todas as coisinhas maravilhosas e doídas que nela há.

Escrever é escavar a vida, é ir-lhe às entranhas e agarrá-las, mordê-las e cuspi-las para a folha. E depois fazer amor com elas.

Escrevo para que a vida não morra. Se eu não escrever, morro com ela. Se eu escrever, sofro-a. Na verdade, sofremos todos. A diferença é que, quem escreve, apenas sofre duas vezes, a vez em que sofre e a vez em que dá letras ao que sofre. Mas é sempre para que a vida não morra, por mais bonito ou nojento que seja.

Só me aconteço escrevendo, mesmo sabendo que escrever aleija.

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essa galdéria que me chupa

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Raramente estou vivo. Quase nunca. É a puta da ansiedade, acho eu, essa galdéria que me chupa a vida.

Olha o futuro, meu querido, pensa já o amanhã, sente-o, vive-o, estás a pensar?, estás a sentir?, estás a viver?, que merda, não é?, aproveita já para sofrer. Vivo o amanhã, penso o ontem e desprezo o hoje. E isto vai aglomerado em carruagens de ilusão, porque imagino o amanhã sempre horrível, o ontem sempre maravilhoso e o hoje sempre ausente.

Uma estupidez em loop que me dói no peito mais do que me dói o amor. É no peito, esse ninho especial das dores, que as coisas importantes vivem e morrem quase em simultâneo. E depois lá vem o xanax, o valium, a paroxetina e todas as outras merdas pela boca adentro.

Engulo a ansiedade em copos de água e encaro a rua a fingir que a vida é minha e é linda. Não é nem uma coisa nem outra. A minha vida é hoje, e eu nem sequer a vivo.

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o medo

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O perigoso destes atentados não é a morte, é o medo. Todos morremos, mas nem todos temos medo (ou não deveríamos ter). A morte vem da explosão. Depois da explosão, depois da morte, vem o medo e, com o medo, as palavras. É o medo, com as palavras, a maior doença disto tudo. “Eu sou contra radicalismos, mas era mandar os árabes todos de volta para a sua terra”, “eu não sou violento, mas era matá-los todos”. Para além das feridas da morte, vêm as feridas do medo. As feridas da morte tratam-se sempre depois, com curativos, medicamentos e caixões. As feridas do medo tratam-se sempre antes, com educação e conhecimento. As feridas da morte vão desaparecendo. As feridas do medo nunca deixam de crescer. Não é a morte, é o medo.

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1994

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Foi em 1994. Havia Neno, Abel Silva, Hélder, Mozer, Veloso, Kulkov, Rui Costa, Vítor Paneira, Schwarz, Aílton, Rui Águas, Silvino, Nuno Afonso, Kenedy, João Vieira Pinto, Yuran e Toni, os meus primeiros heróis que vi serem humanos. De vermelho e branco, de carne e osso, mesmo ali à minha frente. Ao meu lado, o meu pai; em todo o lado, o meu nervo. Não sabia o que dizer nem o que fazer. Olhava em volta e só via sonho. Zero a zero, foi assim que acabou o jogo contra o Gil Vicente a 9 de Janeiro daquele ano e foi assim que começou o amor ou loucura ou paixão ou lá o que se chama isto que eu sinto pelo Benfica.

Digo amor ou loucura ou paixão porque não sei dizer mais, digo amor ou loucura ou paixão porque esta coisa que me tem vai além da definição exacta de uma palavra só e só as definições destas três se aproximam desta assombrosa indefinição maior que sinto pelo Benfica. Nem vida é palavra que se preze. Nem morte. Talvez Benfica. Sim, sinto Benfica pelo Benfica, dizendo amor ou loucura ou paixão. Foi em 1994 e foi para sempre.

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a beleza

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A beleza da música, como de qualquer outra arte, não está no grito nem na explosão. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está no silêncio e no quieto. A beleza da música, como de qualquer outra arte, existe por si mesma, sem artifícios nem malabarismos, sem cambalhotas nem maquilhagens.

A beleza da música, como de qualquer outra arte, é a beleza da vida, que basta sê-la para ser bela. E o difícil é encontrar esta entranha quer na música quer em qualquer outra arte. E o fácil é gritar e explodir. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está na simplicidade. Foi ela que deu a vitória ao Salvador e os suspiros a toda a gente que o ouviu e ouve em repeat no trabalho, no carro, no ginásio e em casa. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está em ser nada mais do que aquilo que é. Nós é que teimamos, ignorantes da vida, em querer ser sempre outra coisa.

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crença, a puta da doença

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A morte é o gatilho para a crença, deus é o segredo (só existe no medo), nós somos a doença.

A tríade é simples e a ignorância também. Depois da morte, o que vem? Não sabemos, e, não sabendo, inventamos algo que nos mate (em vão) essa angústia. A invenção chama-se deus que é ilusão, ser todo-poderoso, criador do céu e da terra, nascido do ventre sujo do medo, do nosso medo, do medo da gente crente que é doença, criatura toda-poderosa, criadora do deus e do diabo, nascida do ventre embaciado da incerteza.

Enquanto inventamos o depois da morte, a vida vai acontecendo sem darmos conta. Ela passa e nós passamos por ela morrendo aos poucos e crendo aos muitos.

É a crença que nos faz ser a puta da doença. Nada mais há para além dela, nada mais pode haver, toda a vida é pecado, mesmo que real, toda a morte é real, mesmo que inexistente – a visão de um cego. Se deus existe, já nasceu doente.

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caminho da fé

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Caminho da fé? Não, caminho da facilidade. É fácil acreditar. É fácil não questionar. É fácil existir quieto do cérebro. É fácil. Houve uma coisa boa? Foi deus. Houve uma coisa má? Foi o homem. É fácil a dualidade. É fácil. Há sempre justificação para tudo. E isso é fácil. Para mim, não, que sou ateu praticante. Para mim, é difícil. Não tenho justificação para tudo, não sei tudo, e isso cria-me angústia. E dói. O crente acredita, mas de certeza absoluta que não tem a certeza absoluta da existência de deus. Só que é fácil. E dá-lhe jeito. Se deus existir, o crente vai para o céu. Se deus não existir, o crente não vai para lado nenhum. Em caso de dúvida, não vá deus existir, é melhor acreditar. Eu é que estou fodido, porque vou para lado nenhum. Quer dizer, agora vou para a cama, que a minha vida não é escrever sobre paragens cerebrais.

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o medo

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Não é o medo de cair, é o medo de ter vontade de cair. E isso assusta como assusta o terror à noite. Não é a dor do corpo em pedaços lá em baixo, é o orgasmo do corpo em tesão cá em cima.

É como se a puta do abismo me batesse à porta e, de mini-saia e decote, me dissesse: olha lá, fofinho, não queres vir dar uma volta? E eu ali, ébrio de ânsias, sem leis nem moral. Digo-lhe que sim ou que não, mas o que lhe digo é sempre medo.

É o medo, só o medo, nada mais que o medo. Existe-nos mais do que nos existe o sangue. Cabrão do medo. Fosse ele ausente e eu seria morte, é ele presente e nem vida sou.

Olhando o abismo, temendo a vontade, réstia de horror que nos resta a todos, escondida na subterrânea lama louca do inconsciente. É de mim o corpo e é de mim que tenho medo. Sou eu o abismo.

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do que sou

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Sei pouco do que sou. Talvez por ser demasiadas coisas, talvez por ser coisa nenhuma, talvez, não sei, nunca sei. Todas elas se confundem e misturam nos dois poços mais fundos de mim mesmo: o sentimento e a imaginação. Sinto o que vivo e o que é verdade, só isso é sentir. Imagino o que quero viver e o que só é verdade para mim, só isso é imaginar. De um lado, entranhas. Do outro, nuvens. No meio, qualquer coisa que não eu. Não sou nem uma coisa nem outra, sou uma coisa e outra. E esta coisa e outra lutam a toda a hora nesta coisa que me demora a saber.

Sentir é ter a vida verdade puta a viver-nos no estômago. Imaginar é pensar o estômago com essa vida mentira bela. Imaginar é maravilhoso, mas uma merda também. Imaginamos o que vai, imaginamos o que vem, nunca imaginamos o que está nem o que é. Estaríamos a sentir. Sentimos pouco, imaginamos muito, é o problema da gente que julga ter vida dentro. Imaginar é maquilhagem, anestesia. Sentir é selvagem, nevralgia. E é sempre num (sono) e noutro (nervo) que eu estou. E é sabendo os poços que me vivem dentro que eu vou sabendo cada vez menos do que sou.

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antónio e maria

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Há uma coisa no teatro que é mais do que a sua representação. Chama-se vida. E a que houve ontem viveu-me mais do que muitas outras tantas já me viveram.

Não era a Maria nem o António que estavam em corpo e letras, todo e todas em génio, no palco do Meridional. Era a vida de cada um deles, dissecada e cortada a sangue frio e servida a alma quente a toda aquela gente que viveu comigo. Era também a nossa vida que ali estava. Era, essencialmente, a nossa vida que ali estava.

Chorei o tempo inteiro. Como uma criança das pequenas ou das grandes, que isto deste choro não tem idade, que isto deste choro só tem uma coisa, e essa coisa chama-se vida, que é outro nome para a verdade.

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não digo

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Sou contra o não digo. Sou contra a boca calada e os dedos inertes. Sou contra o silêncio em estado, mesmo que noite. Sou contra a folha em branco, mesmo que carta. Sou contra a ausência de palavras. Sou contra a ausência. Contra. Ausência. Palavras. Sou contra o nada, mesmo que vazio. Mesmo que alegre. Sou a favor do coração na boca e nos dedos. Sou a favor do barulho no silêncio e na folha. Sou a favor da palavra. Sou a favor do tudo, mesmo que excesso. Mesmo que triste.

Que seria a vida sem a palavra para a dizer? Que seria a palavra sem a vida para a ser? Até na morte, quando a palavra é mais ausente do que a vida, é a palavra a única coisa que nos resta para dizer despedida.

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a minha mãe

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Faz anos a minha mãe. A minha mãe. É tão bonito dizer “a minha mãe”. É como dizer poesia em apenas três palavras. A minha mãe. Talvez “a minha mãe” seja a única poesia que há no mundo inteiro, a única poesia que realmente interessa dizer, a única poesia que deu origem a isto tudo que nos é e que nos tem. A minha mãe. Eu, que amo palavras mais do que amo a vida, trocaria todas elas para dizer, até à eternidade, “a minha mãe”.

A minha mãe é berço e leito, a minha mãe é a minha noite onde me deito. A minha mãe é grito e carinho, a minha mãe é o meu próprio ninho. A minha mãe é luta e choro, a minha mãe é ouro. A minha mãe é Freud e Vitorino, a minha mãe é o seu destino. A minha mãe é terra e verdade, a minha mãe é a mãe da saudade. A minha mãe é beijo e abraço, a minha mãe é mãe de um palhaço. A minha mãe é come a sopa e cuidado com o frio, a minha mãe é tens mesmo o meu feitio. A minha mãe é mãe-galinha, a minha mãe é minha. A minha mãe é preocupação, a minha mãe é exagero do coração. A minha mãe é princípio, meio e fim, a minha mãe é igualzinha a mim. A minha mãe é riso e melancolia, a minha mãe dá-me cabo do juízo, e o que eu lhe dou é poesia.

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o amor não é arte

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Ser criativo é lindo para a arte e uma merda para o amor.

No amor, criamos mais do que existe e menos do que é. Criamos bocas que a beijam e corpos que a fodem. Criamos enredos de traições. Criamos pensamentos nos pensamentos dela, dando de comer aos nossos medos que estão sempre ali, de mão estendida, à nossa espera, de mão cheia durante, de mão beijada depois.

Criamos pesadelos, matamos sonhos à nascença e fazemos respiração boca a boca às angústias e às ansiedades que nos renascem nas veias e naquele tic-tac furioso do coração.

A maravilhosa arte de criar é uma porta escancarada para o infinito, e o infinito tem muito de escuridão. Nisto do coração, tudo o que não deve ser criado é tudo o que acabamos, nunca acabando, por criar.

Ser criativo é lindo para a arte e uma merda para o amor. Porque o amor não é arte, porque só há arte no amor.

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além da vida

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O que existe além da vida? Não além da vida em si, que é a morte e a morte é nada. Mas o que existe além da vida das pessoas que eu vejo? Esta gente que está à minha volta mostra-me a sua vida e eu não sei o que há além dela. O que há? O que pensa? O que a faz sorrir? O que a faz pensar? O que bebe? Como reage a determinado filme? Chora ao ouvir esta música? Que vida tem esta gente toda que se aglomera em aleatório à minha volta?

Sempre que me distraio, não estou distraído. Estou a imaginar essa vida de cada pessoa. Imagino-lhe uma história, uma família, um cão ou um gato ou um jacaré, um homicídio, um casamento, uma forma de falar e uma dor ou alegria ou ausência totais. Sair desta vida que é minha para imaginar a vida de outra gente além da vida que lhes vejo é viver várias vezes. Que maravilha. Não é isso o bonito da vida? Viver várias vezes? Várias vidas?

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arguido

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Não me peçam conselhos de amor. Sou a pior pessoa do mundo inteiro a quem se possa pedir coisas dessas relacionados com essa coisa. Nunca digo não digas, não vás, não escrevas, não beijes. Nunca. Digo sempre sim, sim, sim, sim. Se isto da vida for tribunal e isto do amor for arguido, eu sou o seu advogado de defesa, mesmo sabendo que defendo esta coisa sem defesa possível, que nos destrói as defesas todas, dizimando-nos por dentro e escangalhando-nos por fora. Não me peçam conselhos de amor, que eu sou sempre a favor do amor. Pode não haver solução possível, quase sempre não há, que eu atiro-me de corpo inteiro, que envolve a alma, dou mortal encarpado, cuspo fogo e mergulho nesta coisa do amor. Mas tu escreves sobre o amor, André. Escrevo, por isso é que não sei nada sobre ele, eu só escrevo sobre o que não sei e só escrevo muito sobre aquilo que não sei absolutamente nada. Nem quero saber, que isto do amor não tem sabedorias. É amar e pronto, o resto é morte.

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carnaval

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Nunca fui muito do Carnaval, culpa da alegria, que nunca me fascinou muito por aí além. É estupidez, eu sei, é melhor ser alegre que ser triste, mas eu nem sou uma coisa nem outra, estou é mais vezes triste do que alegre. Neste dia, na escola, em pequenino, sempre fui de Zorro. Todo de preto, talvez fosse já um manifesto anti-cor, anti-regime, anti-alegria. Não é que não goste da alegria, apenas desconfio dela. Parece mais leve e mais fácil, e essa leveza deste ser é-me constantemente insustentável. Hoje sou Zorro, domingo sou Pierrot. Hoje sou rebelde de negro, domingo palhaço de lágrima. Faz algum sentido. E, pensando bem, sentindo muito, acho que nunca me mascarei. Sempre fui eu. Talvez por isso nunca tenha sido muito do Carnaval.

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não é

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Não é o amor. Não é o orgasmo. Não é a alegria. Não é o alívio. Não é a solidariedade. Não é a amizade. Não é a aceitação. Não é o carinho. Não é dormir. Não é beber. Não é comer. Não é realizar um sonho. Não é ver o Benfica. Não é marcar um golo. Não é ganhar o Euromilhões. Não é receber um elogio.

A melhor sensação do mundo é passar o papel higiénico e não ter um único vestígio de merda. Está limpo. Virgem. Puro. Tudo saiu na perfeição, em filinha indiana e sem alaridos. Houve o terramoto, houve as sirenes, houve a evacuação. Tremeu tudo, não se sujou nada. A. Melhor. Sensação. Do. Mundo.

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avenida q

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São espelhos. Do que somos e do que temos. Do que fomos e do que queremos. Do que sentimos e do que fingimos. Não são bonecos. São memórias. Fortes e felizes. Antigas e futuras. Fofinhas e repugnantes.

Não são bonecos. São gente. Com tomates e sonhos. Com mamas e alma. Com tripas e coração. Não são bonecos. São vida sem merdas nem paninhos quentes nem frios nem mornos. São vida sem merdas e sem paninhos. São infância nua e adolescência crua. São renda para pagar e sonhos para destruir. São paixões, poetas, canções, punhetas, gemidos, ofensas, grunhidos, crenças, realidade, humor e, acima de tudo, verdade e amor. Tudo em corpo e voz.

Não são bonecos. Somos nós.

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noite

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O problema da noite é existir entre duas vidas, o dia que acabou e o dia que está para começar. É o contraste que lhe faz a essência, o existir vida antes e depois dela, sempre antes e depois, apenas antes e depois. O problema da noite é a sua maior e única virtude, ser contraste da vida. Ser nada por instantes. Ser morte que se repete ao infinito. Fim agora. Fim sempre. É por isso que é de noite que sonhamos. E que dormimos.

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a noite

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A noite só é escura porque fechamos os olhos enquanto ela existe. Não respeitamos a noite. Aproveitamo-la para dormir. Para deixar de existir durante um bocado. Não faz sentido. O dia é o menino querido do universo. A noite é o parente pobre. A noite é dos loucos e dos gatos. O dia é das crianças e dos passarinhos. Não faz sentido. Há uma conspiração contra a noite. No cinema. Na música. No teatro. No trabalho. Na poesia. Na vida. Sou pela noite. Digo noite. Grito noite. Berro noite. Os loucos e os gatos também são vida. O meu já dorme. Eu para lá caminho.

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natal

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Até me dói continuar a dizer isto em pleno século XXI, mas Jesus foi um tipo normal que nasceu de uma foda entre duas pessoas: José e Maria, vamos supor que era assim que se chamavam.

Não houve anjo Gabriel, não houve estrela-guia, não houve reis-magos, não houve nada. Só existiu vaca se acharem que a Maria fodeu com o anjo. Só existiu burro se acharem que o José acreditou na história da mulher. Mas deus blá blá blá e o anjo blá blá blá e jesus blá blá blá é o messias blá blá blá. Bem, se têm inteligência para ler o que acabei de escrever, também têm para pensar (raciocínio demasiado lógico que até chega a ser ridículo).

Boas festas com quem gostam. Comida, bebida, amor e essas merdas. O resto que se foda (e bem, que é como se deve foder, sem inexistências pelo meio).

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