a minha prima clarinha
A minha prima Clarinha tem um escurinho parecido com o meu. Lá no seu peito, como cá no meu, há trovões leões canhões que despertam apertam inquietam o que há. Pequenina, também tem vontade de rugir gritar fugir chorar. E ruge grita foge e chora – epicentro. E tudo treme lá fora, lá dentro. Há dias, tremia eu por inteiro, quando a minha prima Clarinha me tirou do escurinho quando me disse que também o tinha, que também o via. Eu falei-lhe do meu, como se ela não fosse uma criança, que é e não é por sentir que sente coisas que não devia, nem devia, ninguém devia, mas sente tanta gente e tanta gente mente. E tentámos enganar o escurinho com palavras e números. Ela ensinou-me a fazer contas de dividir e conversões. Eu tracinhos e um verso. E acalmaram-se as convulsões – tornaram-se então coisa pouca. Iluminou-se o universo. Há palavras que nos beijam como se tivessem boca.
não tenho amigos brancos
Eu tenho amigos pretos, mas não tenho amigos brancos. Os meus amigos pretos são amigos pretos. Os meus outros amigos são só amigos. Não lhes dou cor porque nunca lhes dei, porque nunca precisei de lhes dar cor, porque eram da minha cor. É assim que somos, mas não é assim que os nossos amigos são – é assim que os pintamos. Culpa da sociedade, da cultura, da educação, do que seja, de tudo um pouco, que se entranha em nós em pequenos e não se estranha em nós em adultos quando cuspimos cores, por muito que seja sem querer, sem pensar. ⠀
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Não sou eu, mas também sou. Os meus amigos são os meus amigos, quer sejam brancos, pretos, carecas ou com nariz. Não são os meus amigos brancos, os meus amigos pretos, os meus amigos carecas nem os meus amigos com nariz. São os meus amigos. Mas há quem tenha amigos pretos e, tendo-os, é porque tem mais a cor do que a amizade, porque tem mais o preconceito do que a verdade.⠀
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Não somos todos, mas somos. Por muito que custe admitir, custa mais sentir na pele a cor da pele. Eu não sinto porque sou branco, porque tenho a cor que a sociedade, a cultura, a educação nos diz que é a certa, e que é a cor a que, por norma, ninguém aperta o pescoço, a cor que não vai até ao osso até sangrar até morrer. Sem ar. Porque nunca fui discriminado, porque nunca fui insultado, porque nunca fui morto por ter esta cor que, sendo branca, sendo diferente de todas as outras, é igualzinha a todas as outras que vestem os corações de quem anda, canta, chora, ri, falha, conquista, come, dorme, pensa, sonha e ama como eu, como nós.⠀
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Não sou eu, mas também sou. Somos todos. E, para sermos um e todos como devemos ser, precisamos de pensar antes de ver. Combater. Enquanto ainda nos deixarem respirar.
de lá voltar
Não são saudades de ser criança, são saudades de lá voltar, ao sítio que se era. Só para saber como se faz, como se brinca, como se ri, como se sente, como se confia. Só para isso. Seria breve, que a vida é breve, e bela também, assim, mas seria, embora breve, embora bela, seria, com fim, para voltar. Iria lá longe, lá dentro, bem debaixo das camadas do medo que a vida trouxe, só para saber como se faz, como se era, como se é, como essência. Só para saber disto que sou quando era tudo em bruto, sem metades. Não são saudades de ser criança, são vontades de ser esperança em permanência. E não um conjunto de camadas que, de tantos medos, são tantos nadas.
parabéns, gaiato
O meu avô faria hoje 95 anos. Nunca lá chegarei. Ele chegou perto porque, tendo quase 95 anos, não tinha mais de 10. O meu avô, enquanto meu avô, e não enquanto severo pai do meu pai e dos meus tios, sempre foi uma criança, um gaiato rebelde que nos dava calduços à sucapa e não aceitava uma derrota na brincadeira das damas, das cartas ou do dominó. Levava a brincadeira a sério – como todas as crianças levam – e amuava quando um dos netos ou, em tantos casos, todos os netos lhe davam uma cabazada histórica de meia-noite. O meu avô de 10 anos, com quase 95, fazia corridas com os netos e com os bisnetos. E ganhava. E fazia pirraça a quem perdia. O meu avô criança, já velhote, tinha um olhinho azul que brilhava sempre que lembrava uma ou outra catraia que tinha catrapiscado há mais de 70 anos. O meu avô pequenino, já grande, tinha um sorriso malandro sempre que lhe oferecíamos, assim às escondidas, um xiripiti depois de almoço. O meu avô faria hoje 95 anos. Mas é a criança que ainda me anda para aqui a correr na memória. O gaiato do meu avô…
a minha madrinha
Desde aquele dia que o meu maior objectivo de vida mudou. Desde aquele dia que, em primeiro lugar, não está o meu sucesso como artista, a minha felicidade como homem ou a minha bebedeira no Marquês todos os anos até ao fim dos meus tempos. Desde aquele dia que o meu maior objectivo de vida é fazê-la rir. Tudo o resto vem depois. Se lhe provocar um riso, um simples esgar de felicidade que lhe aliene do espírito do lugar onde o espírito está, fico feliz. Sempre que falo com ela, sinto o ar pesado pela presença de quem ela já não tem, mais pesado comigo pelas parecenças que eu e ele tínhamos. Sempre que falo com ela, sei que ela fala, também, com ele. Sempre que falo com ela, sei que falo, também, em nome e em voz dele. Aquele dia foi o dia em que ele morreu. Ele é, porque nunca nenhum deixa de ser, o filho dela. Ela é a minha madrinha. A minha madrinha é, por tudo o que nunca conseguirei dizer, minha mãe também. Eu não sou o filho, mas sim o palerma que a tenta trazer à tona do mundo através de um dos mais primários reflexos humanos, o riso. Isso não faz de mim absolutamente nada, mas faz dela uma mãe que ri. Que é assim que todas as mães deveriam ser. E esta minha, apesar de longe e apesar de não ser de verdade, é a mãe mais bonita que eu – que o meu primo – poderia desejar.
na comuna, aconteci
Fui eu, fui outro, fui outros, aprendi, sorri, chorei, sofri, agradeci, quase morri de vergonha, quase me vim de alegria, abracei, fui abraçado, gritei, cantei, caí, amei, fui amado, vi gente que me amava, amei gente que me via, fui às nuvens, fui à lama, fingi e fui sincero, tive medo e tive medo e tive medo e tive medo e superei o medo e vi luz depois do escuro e vi tudo e ganhei tudo e perdi tudo e senti tudo. Aqui, na Comuna, aconteci. Aqui, na Comuna, fui vida. No palco como aqui deste lado em que me encontro agora. Atrás das cortinas. Com tudo e tanto, apesar de tudo e tanto, e dói e dói e dói e amo e vivo. Vivo vida que, para mim, é palco. E vivo palco que, sendo vida, é este. O da Comuna. Um aniversário que também é meu. E nunca viverei o suficiente para o agradecer. Por muito que doa. Foda-se, e dói.
ao fundo, os tambores
Já não saía de casa há 14 dias. Finalmente, estava a ver que nunca mais. Mas vi, e nunca mais. O entusiasmo da saída deu lugar ao medo da saída. Já não sabia o que era a rua, receava ter desaprendido de caminhar e receava ter receio das pessoas. Tentei não respirar muito, ele pode andar no ar, não falar muito, ele pode ouvir, não fazer muito, ele pode estar. Sinto o corpo fechado em si mesmo, em mim mesmo, contraído, rijo, pequeno. Sou pequeno e tenho medo. Ao fundo, os tambores, ao perto, os pesados e graves e longos rasgos de violoncelos, como num filme. Tenho medo, quero voltar para casa. Quero voltar para a minha prisão de que tanto queria fugir. Uma espécie de Síndrome de Estocolmo puxa-me para dentro, para fora dali, para casa, para junto do meu agressor de quatro paredes e uma porta. Trancada, como a minha liberdade. Volto a respirar muito, fundo, dentro. De casa.
na linha da frente
Há várias formas de lutar. A minha, neste momento, nesta guerra, é cá dentro, longe das pessoas. A da minha mãe, neste momento, nesta guerra, é lá fora, perto das pessoas. Sempre fomos muito diferentes, mas iguaizinhos. Mas, hoje, não sou eu, é ela. A minha mãe trabalha na área da saúde. Está, portanto, na linha da frente do combate ao inimigo. Protegida com máscara, regras e fé, mas desprotegida, como estamos todos, um bom bocado mais do que todos, na verdade. A minha mãe, que não é médica nem enfermeira, tem a função (e o dom) de ouvir, acolher e encaminhar. Recebe as crianças e os velhos, as queixas e os medos, os murmúrios e os gritos. A minha mãe não desiste nem deserta. Está e vai continuar a estar lá na frente até isto acabar, mesmo que isto não acabe nunca. Ela é assim, teimosa na bondade. A minha mãe, por ser minha mãe, está mais desprotegida do que todos. É a minha mãe, os outros todos são apenas os outros todos. Eu sou os outros todos. E a minha luta não é luta nenhuma quando luta a minha mãe. Só quero que isto acabe para ela voltar. Há mais de demasiado tempo que não a abraço. Há várias formas de abraçar.
somos todos
E eu que pensava que o mundo não me colocaria à prova além das banalidades que me foi apresentando ao longo da vida, como os desgostos amorosos, as mortes de familiares e amigos ou as derrotas do Benfica. Mais coisa, menos coisa, mais dor, menos dor, seriam coisas que acabariam por surgir de forma inevitável na minha vida, sabia que sim, sabia que as iria apanhar a qualquer momento, estava, de certa forma, preparado para elas. Mas esta coisa que agora apanhei pela frente é coisa que não vinha em nenhuma previsão, até porque não sei que coisa é, como é, de onde vem nem como combater. É o desconhecido que bate à porta e entra sem eu a abrir. A porta está trancada, como as portas de toda a gente, mas o desconhecido bate à minha e bate a todas, e entra, e fica aqui a pairar nas nossas casas, nas nossas roupas, nas nossas cabeças. E não fazemos a mínima ideia do que seja. Não é nenhum ultramar – que eu não vivi, não é nenhuma fome – que eu não senti, não é nenhuma doença – que eu não tive. Não. E o sofrimento não é o mesmo. É outro. É outra coisa. E digo isto sentado no sofá e não entrincheirado no meio do mato com uma g3 e o cheiro a morte, com mesa farta e não com uma sardinha para cinco, saudável e não numa cama do IPO com uma agulha a injectar-me químicos na veia. Eu sei. Estou em casa, confortável, com comida, saúde, tecto, cama, amor, carinho, playstation e vinho. Nada me coloca na mesma situação dos meus pais quando tinham fome, dos meus tios quando foram à guerra nem de tanta gente que tem um cabrão de um tumor para destruir. Coloca-me no desconhecido, à prova de mim mesmo. Sou eu o mundo. Somos todos.
uma luta no escuro
Uma luta no escuro. Luzes apagadas, olhos vendados. O inimigo está, mas não o vemos. Não lhe sentimos o cheiro, sequer. Mas está. E levamos golpes vindos não sabemos de onde. Não lhe sabemos a forma nem o tamanho. Não lhe conhecemos os truques nem as fraquezas. Estamos às escuras, em constante estado de alerta perante tudo, até mesmo o nada. É a angústia de não saber, é a ansiedade de sofrer. É respirar desconfiando do futuro. É mais do que o medo de combater. É o medo do escuro.
mais forte do que via
Era o dia do funeral da minha avó quando vi, pela primeira vez, o meu pai chorar. Enfraqueci porque vi, ali, em estreia absoluta na sala da minha existência, o meu super herói ficar sem poderes. Não estava à espera. Nem sequer pensava ser possível. Mas foi. Ao mesmo tempo, senti que o meu pai não controlava tudo e que era humano. Desde esse dia que o vejo de forma diferente. Mais forte do que via, enquanto super herói. Mais humano. Ele não ficou sem poderes. Eu pensava que não mas, hoje, sei que chorar, que é sentir, é um super poder. Dos humanos. O maior.
já éramos sozinhos
Nós não temos vontade de estar com os outros. Nós temos é medo de estar sozinhos. Os outros, na verdade, na crua e triste verdade, já pouco existiam para nós. Apenas estavam, apenas faziam figura de corpo presente na nossa necessidade primária de aconchego e aprovação. Já éramos sozinhos, mas não estávamos sozinhos. Os outros davam-nos essa ilusão de companhia. Eram eles, não éramos nós. Não precisávamos de nos olharmos dentro para ver quem realmente éramos, somos, virtudes, belezas, maravilhas, mas defeitos, rugas, medos, traumas, guerras e lixo, também. Agora, que nos obrigam à clausura, fechamos a porta, abrimos os olhos e só estamos nós. E só somos nós. E estar, e ser, connosco, dá medo. Não são os outros, somos nós.
perto, longe
Nós já estávamos isolados. Colados aos ecrãs, fechados em avatares, muralhados por um individualismo egocêntrico. Nós já evitávamos as pessoas de carne e osso sem nickname. Nós já tínhamos substituído o toque pelo touch, o beijo pelo like e o abraço pelo scroll. Já não havia convívio, havia scroll. Já não havia gosto de ti, havia swipe right. Já não havia ajuda, havia hashtags. Hoje, há um olá à beira de ser trocado por um adeus. Nós já estávamos isolados. Só não queríamos saber. Trancados em nós mesmos, longe dos outros.
uma só criatura
Um único homem, uma só criatura, transmitiu um vírus que, em 102 dias (1 Dezembro 2019 – 12 Março 2020), atingiu 130.164 pessoas, matando 4.754. Tudo começou num único homem, numa só criatura. Mais do que qualquer outra análise que possamos fazer, este contágio galopante mostra-nos a influência que cada ser individual tem em milhares de milhões. Um, em 102 dias, contagiou 130.164 pessoas. Um, sozinho, fez estremecer o planeta, fechar fronteiras, monitorizar governos, segregar pessoas, amedrontar consciências, trancar portas, esvaziar esperanças. A influência de um único homem, a consequência da acção de uma só criatura, na vida do mundo inteiro. Eu, tu, que somos um único homem, uma só criatura, temos o poder de atingir e condicionar o comportamento de 7 mil milhões de pessoas. É assustador. Eu, tu, somos a borboleta que bate asas na China e causa uma tragédia no mundo inteiro. É aterrador. Desta vez, foi o vírus errado, o Covid19. Imagina quando for amor. É possível.
a minha luta
É aqui dentro que estou. Desde pequenino, talvez desde o parto, que esta é a casa que me existe nas entranhas de todos os sítios vitais do meu corpo: da mente, do coração, dos pulmões, do estômago, das pernas, das mãos, dos olhos, da placenta. Raras vezes saí, muitas vezes tentei sair, bati à porta, bati na porta, abri a porta e fechei a porta. A porta abriu-se, partiu-se, fechou-se, sem qualquer vontade própria, fui eu que a abri, que a parti, que a fechei. E sou eu que continuo a fazer tudo isso a uma porta de madeira velha de uma casa de tijolo e cimento e crenças. Por medo de sair, por medo de não voltar a entrar, por medo de decidir, não decido e não faço nada, além de abrir a porta, partir a porta e fechar a porta. Fico dentro. A minha luta tem sido esta, sair. Mesmo com medo de tudo o que possa estar além-fora desta porta. Dentro de outra casa qualquer.
ali ao meu lado
Faz um ano que foi o meu avô, que deixei de o ter, que deixei de o ver, que deixei de o deixar sentar-se ao meu lado a beber um xiripiti e a piscar-me o olho e a sorrir-me o rosto e a fazer-me sentir feliz por ele estar a fazer tudo aquilo ali ao meu lado, o meu avô, o único avô que me restava. Há um ano que me resta a lembrança deste homem que sempre sendo velho, foi sempre criança.
não foram monstros
Não foram monstros, foram pessoas como nós, iguaizinhas a nós, que estiveram de um lado e do outro, que torturaram e que sofreram, que mandaram e que obedeceram, que mataram e que morreram. Tinham cabeça, troncos, braços, pernas, coração, fígado, pulmões, pele, músculos, nervos, água, oxigénio, hidrogénio, nitrogénio e carbono. Seres humanos, de um lado e de outro. Nazis e judeus, nazis e ciganos, nazis e homossexuais, nazis e deficientes. Nazis e todos os outros. Todos os outros e nazis. Seres humanos, não monstros. Não seres de outro mundo, inumanos, Pessoas como nós, iguaizinhas a nós. Faz hoje 75 anos que o campo de Auschwitz foi libertado. Não foi assim há tanto tempo. Não está assim tão longe. Está sempre na iminência do retorno pelo simples facto de continuar a existir a única causa do horror: seres humanos, pessoas como nós, iguaizinhas a nós.
manhã
Não é por ser domingo. É por ser manhã. Poderia ser qualquer outro dia, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado ou infinito, que seria sempre por ser manhã. E manhã é sempre recomeço, e recomeço é sempre alerta, e alerta é sempre cavalos a galopar no peito. É o recomeço do tic-tac tic-tac tic-tac acelerado do tempo, é o alerta do pensamento atrás de pensamento atrás de pensamento atrás de pensamento, são os cavalos da luta, da falha e do fracasso. Não é por ser domingo. É por ser, simplesmente. Poderia ser qualquer outra coisa. Seria sempre.
feito até ao fim
Perfeito, em latim, significa “feito até ao fim”. Eu não sou perfeito, tenho muito por ser acabado, ainda. Na verdade, nem eu nem ninguém nem nada seremos, alguma vez acabados, feitos até ao fim. Nada está concluído, tudo está em mudança. Nem as almas, nem as pedras, nem as nuvens, nem os cadáveres. Tudo muda, tudo mexe, tudo está em transformação para outra coisa que não a que é, nada está feito até ao fim, fechado, embrulhado, ensacado e pronto a enviar para o código postal da Plenitude. Morada não encontrada, remeter ao destinatário. André Pereira, Rua Incompleta, 1500-370 Coração.
1984
«Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze. Winston Smith, queixo aninhado no peito, num esforço para se proteger do malvado vento, esgueirou-se depressa por entre as portas de vidro das Mansões Vitória, não tão depressa, porém, que não encontrasse com ele um turbilhão de poeira arenosa.»
George Orwell
o peso da vida
Não é o meu peso. É o peso da vida comigo nela. Eu sou leve como um ser humano minúsculo neste mundo ínfimo neste universo infinito deve ser. Mas, perante a vida, perante a vida real, ganho um peso maciço que não é o meu. É o peso da vida, que é o peso das responsabilidades, o peso das decisões, o peso dos medos, o peso dos outros. E todos estes pesos, que não são meus, que são da vida, toldam-me os movimentos, amarram-me os braços e, tantas vezes, os desejos.
O peso da vida é-nos mais pesado conforme vamos crescendo, creio eu. Quando eu era criança, o peso da minha vida resumia-se ao medo da cama e à ansiedade para completar a caderneta do Mundial 94. Hoje, o peso da vida é-me pesado no trabalho, no amor, nos sonhos, na solidão e no futuro. No salário, nas contas para pagar ao final do mês, na formação de família, na mudança de casa, na criação de um espectáculo, na escrita de um livro, na reedição de outro, no aperfeiçoamento de um projecto, na urgência do tempo, na certeza de estar tudo certo.
Hoje, mais do que em qualquer altura da minha vida, creio eu, o peso da vida é-me asfixiante. E eu, sendo leve, voo, pesado, para a terapia, para o yoga, para apps de meditação, para o escitalopram e até para a astrologia. Só queria voar para mim mesmo, que é lá que está o que realmente importa, leve.
cem anos de solidão
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencionálas se precisava apontar com o dedo.»
Gabriel García Márquez
ta, ma, sa
Caralho ta foda, Caralhos ma fodam, Que sa foda. Quando estamos irritados, falamos mal, embora bem, português. Nunca dizemos Caralho te foda, Caralhos me fodam nem Que se foda. Dizer bem o se, o te e o me, nestes casos, seria desrespeitar a irritação que sentimos. E não é certo desrespeitar o que quer que seja. Falar mal, nestes casos, é falar bem. Está gramaticalmente errado? Que sa foda.
não sei quando nasci
Não sei quando nasci. Fui parido no dia 7 de Janeiro de 1985, mas acho que ainda demorei uns bons anos a nascer. Não sei quantos. Não sei muita coisa. Especialmente, não sei aquilo que sei. Duvido do que sei, quero eu dizer. E também duvido de saber.
A minha mãe está amarrada a mim desde que me desamarrei dela. E isso tem tanto de bom, como o cuidado e o mimo, como de mau, como o cuidado e o mimo. A minha mãe sente e chora antes sequer de eu sentir e chorar, e sente mais e chora mais mesmo depois de eu ter sentido muito e chorado muito. O meu pai é um pilar com sentimentos mais quietos e disciplinados. O meu pai também sente e também chora, mas o que sente só diz às vezes e o que chora não mostra. O meu irmão é o meu inverso e é por isso que eu gosto tanto dele. Mais novo, é ele quem manda e quem me ensina, é ele o racional e o pragmático. O que me explica nas calmas e o que me agarra pelos colarinhos, se for preciso. Eu sou o puto emocional que chora, escreve e faz teatros. O palerma que já tinha idade para ter juízo. Mais ao largo, tenho outra gente que me quer bem e que, tantas vezes, ignoro, algumas vezes, sem querer.
Quero sempre mais do que tenho e mais do que sou, tenho ânsias e sou medricas. Amo em exagero e odeio em fúria, tanto estou nas nuvens como na lama. Tenho um horror pavoroso à morte e uma ansiedade assustadora ao dia. Não sei viver o presente e apetece-me, algumas vezes, não viver de todo. Mas finjo bem, parecendo um tipo calmo, alegre e decidido. Sou, algumas vezes, feliz, culpa, quase sempre, da arte e de um ou outro sorriso matinal. Não creio em nada, odeio o ginásio e o meu prato preferido é bolacha maria com manteiga. O meu terapeuta diz que escolher é excluir e eu dou por mim sem escolher, excluindo.
Tenho alguma esperança nas merdas, apesar de tudo. E, contra o que penso, sinto que há coisas boas por nascer. Hoje, faço 35 anos e, na verdade, ainda não sei se nasci.
josé carlos
, com as mãos nos bolsos e os pés em todo o lado, José Carlos desconcertava os nervos dos outros. Mas já era normal. José Carlos é que não era. Ou talvez fosse, não se sabe, é impossível saber-se. Era visto como o maluquinho da aldeia, e ganhou esse estatuto pelo simples facto de fazer as coisas de forma diferente do resto da gente. Muito diferente. Sentia uma adoração imensa por Afonso, uma adoração de amigo impossível de descrever, uma adoração de sangue do mesmo sangue, uma adoração de carne da mesma carne. Para isso, bastou não ser desprezado por Afonso, bastou que Afonso fosse o único a falar com ele sem se preocupar com o que as outras pessoas fossem pensar, fosse o único a brincar com ele sem qualquer tipo de gozo mal-intencionado, fosse o único a ouvi-lo quando ele precisava de falar, fosse o único a dar-lhe de comer, de beber e de vestir sem uma única réstia de caridadezinha achada superior, fosse o único a ser amigo dele, amigo mesmo amigo. O único. O seu nome revelava a sua maior anormalidade, a tendência para saber todos os poemas do poeta. De cor. Para ele, era sempre tarde, tão tarde, que a boca nunca tardava a dizer o que sentia, e o que sentia, dava-lhe um ar de um bando de pardal à solta, o puto, o puto. Já não era novo, mas a idade não era para ali chamada. Falava sempre em poesia, para este, para aquele e para todos os que não existiam. Inventava mundos e universos, via coisas e não via outras. Dançava nas ruas, corria que nem um louco, chorava que não era pouco. Ajoelhava-se perante qualquer mulher e dizia, meu amor, meu amor, meu nó de sofrimento, minha voz à procura do seu próprio lamento. E corria, corria, como um cavalo à solta, com um travo de sabor a laranja amarga e doce na mente, e uma coragem imensa de correr contra a ternura no corpo. Estava vestido com roupas que não lembravam ao diabo. Uma camisa de um naipe, as calças de outro. A roupa não jogava a bota com a perdigota. Mas ele pouco se importava. O mundo era-lhe imenso e ele era feliz assim. Feliz na sua tristeza tamanha de não pertencer àquele lugar, mas de não haver outro a que ele pertencesse tão bem como àquele. Tinha o seu mundo, diziam que ele era chalupa, maluquinho, louco, estroina, palerma. Diziam tudo mas, na verdade, pouco se sabia. Ele era isto, ele era aquilo. Ele era tudo o que diziam, por inveja ou negação, cabeçudo, dromedário, fogueira de exibição, teorema, corolário, poema de mão em mão, lãzudo, publicitário, malabarista, cabrão. Era tudo o que diziam, poeta castrado não. Apenas louco,
lágrima | romance – 2015
origens
Hoje, fui às origens, ao alto da serra com cheiro a verde e a frio. Antes do almoço, a tasca do senhor Zé não tinha ninguém. Entrou o meu primo, entrei eu, entrou o João, a Beatriz e a Clara. Tantos e o senhor Zé e a sua mulher atrás do balcão. Minis e martinis. Ela fugiu mal viu a máquina fotográfica, ele ficou sem medo, embora a custo para se manter em pé. Conversas da terra e de quem éramos, de onde, netos de quem, do Álvaro, dissemos nós. O Álvaro… fomos a tantos bailes… disse ele. E contou, e ouvimos. E entrou mais gente que sorriu e ajudou a servir e a sorrir também. Tasca velha, com calendários da Nossa Senhora e da Super Bock, paredes de cimento e trabalho duro nas mãos. Fim de manhã nas origens no alto da serra, onde o meu avô falou pela voz amável e clarinha do senhor Zé.
a minha avó
Hoje, faz anos a minha avó. A minha avó já não existe. Foi embora quando eu era pequenino. Morreu. Mas não morreu muito (morre-se muito quando não se é lembrado). Esta é a única lembrança que eu tenho da minha avó. E, mesmo ou sendo única, faz-me lembrá-la muitas vezes. Eu deitava-me numa manta feita de retalhos e a minha avó puxava-me e levava-me a ver o mundo inteiro naqueles poucos centímetros que ela conseguia percorrer comigo ao colinho da manta. Hoje, é de um só retalho a lembrança que tenho da minha avó. Mas continuo a viajar graças a ela. Deitado com ela dentro. Obrigado, avó. E parabéns.
silvino
Silvino foi um homem às direitas, como o seu punho, que acertou em cheio no meio milhão de chicos-espertos que tiveram a ousadia de piscar o olho à senhora sua esposa que, por muito boa esposa que fosse, por muito boa roupa que passasse e por muito boa comida que cozinhasse, lá, de vez em quando, se aperaltava em excesso dos cabelos às pontas das unhas, da mini-saia ao decote, e desafiava o mais desconchavado coração que se babasse nos olhos de qualquer palerma. E ele não gostava disso.
Pudera. A mulher era dele, os cabelos eram dele, as unhas eram dele, a mini-saia era dele e o decote era dele. Eram da mulher, mas eram dele. Só ele podia olhar. E o punho que escangalhava os queixos dos habilidosos que, distraídos, se concentravam naquelas relíquias empinocadas, também era dele. Era dia sim, dia também. Noite sim, noite também. E, à tarde, também havia forrobodó. Sem alarido, que o povo é sereno. E Silvino também era, só o punho é que não. Ninguém consegue ter controlo total do seu corpo. Há quem não controle o coração, há quem não controle o punho. Aquilo acontecia-lhe assim sem mais nem menos. Sem quês nem para quês. Era com cada bujarda que o café estremecia, a televisão mudava de canal e o canal mudava de apresentador. Era impressionante.
E impressionante foi também a cabeçada que ele deu na esquina da mesa onde um copinho de uísque e um jornal se acompanhavam. Foi ela que o matou. A esquina. E os outros uísques que emborcava como quem limpava atrevidos. Eram às dúzias, às centenas, aos milhares. Naquele dia, bebeu um a mais e caiu. Deu-lhe um aperto no coração e um desaperto na boca. Soltou a língua, fraquejou as pernas e lá foi ele, com a cabeça direitinha à esquina da mesa. A pancada foi seca, apesar da vesícula encharcada. Lançou um grito mudo e catrapumba. O café parou. A televisão não mudou de canal e o canal não mudou de apresentador. Acabou-se o Silvino.
o futuro próximo
Lisboa, Teatro Nacional D. Maria II, ano três mil e tal, pelo menos, pelo que se mostrava em palco. Personagens anestesiadas de vida à procura da morte. É isto que se passa nesta peça que vai do nojo à poesia, do transe ao osso. Este Futuro Próximo é uma bizzaria que nos desconcerta do princípio ao fim da história (que nem é o princípio nem o fim da história toda). Há riso, choro, merda, amor, ilusão, melodia, repulsa e morte. Há muito de entranhas nesta peça futurista que, na sua essência, nos fala de nós e da nossa relação com os outros – mas mais ainda da nossa relação connosco. Lisboa, Teatro Nacional D. Maria II, dois mil e dezanove.
as intermitências da morte
«No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.»
José Saramago
bestas de lugar nenhum
«Começa assim. Sinto comichão como insecto que rasteja na pele, e depois cabeça começa a picar mesmo no meio dos olhos, e depois quero espirrar porque o meu nariz comicha, e depois bufa ar no ouvido e ouço uma data de coisa: tique-tique de insecto, ronco de camião como animal, e depois alguém que grita ÀS VOSSAS POSIÇÕES JÁ! RÁPIDO! RÁPIDO! RÁPIDO! TUDO A MEXER! TOCA A ANDAR OH! com voz que raspa no meu corpo como faca.»
Uzodinma Iweala
um poema
Fiz um poema inspirado no meu gato. Espero que gostem:
Eu tinha um sofá
Eu tinha uma jarra
Eu tinha uma cadeira de pele
Eu tinha livros numa estante
Eu tinha cordas na minha guitarra
Eu tinha cabos de internet
Eu tinha cabos de televisão
Eu tinha cabos de computador
Eu tinha cabos, ponto
Eu tinha duas pernas
Eu tinha dois braços
Eu tinha tapetes
Eu tinha cortinas
Eu tinha roupa no armário
Eu tinha um copo em cima da mesa.
portugal, um problema
Sol, praia, serra, chuva, neve, comida, bebida, cultura e gente boa. Portugal tem tudo, só não tem estrume que chegue para fertilizar o que cá está. Para ser melhor, para ter um futuro mais forte, feliz e saudável, Portugal precisa de mais estrume.
Precisa de mais Casas dos Segredos, mais cabelos rapados de lado com crista em cima, mais Schwarzeneggers de ginásio, mais 760-100-200, mais condutores na faixa do meio, mais folhas Excel, mais formulários nº 102/4 alínea D de 2003 e troca o passo, mais sushis no Facebook, mais pores-do-sol no Instagram, mais comentadores de futebol e de política e de economia e de coisa nenhuma, mais anúncios da dona Alice a abrir o Intermarché a meio da noite para ir buscar o leite ao Joãozinho, mais playback, mais frases do Paulo Coelho, mais beatas no chão e na missa, mais óculos às cores, mais cantores de domingo à tarde, mais submarinos e Tecnoformas e Freeports e Montes Brancos e BES e BPNs, mais Apitos Dourados, mais condutores de fim-de-semana, mais narizes empinados, mais mamas descaídas, mais greves do Metro e da Carris e da TAP e dos táxis e dos enfermeiros e dos professores e dos médicos e de todo o tipo de funcionário público que existe ou está por existir, mais férias judiciais, mais tatuagens com caracteres chineses, mais hamburguerias gourmet-retro-chiques, mais equipas do Sporting, mais tudo o que é mau e nos chateia.
E nós, os tugas, só chateados, com os nervos à flor da pele e o sangue à flor dos olhos, é que conseguimos fazer alguma coisa. A padeira não deu uma coça aos castelhanos por estar feliz da vida, mas porque os sacanas dos nuestros hermanos lhe interromperam a cozedura do pão. O Infante Dom Henrique não “saiu” de Sagres porque estava cansado de estar na praia de papo para o ar a ver inglesas, mas porque não admitia que o mundo poderia acabar no Algarve. O Ronaldo não ganhou cinco bolas de ouro por ter tudo o que qualquer comum mortal ambiciona durante toda a sua vida, mas sim porque o Platini, o Blatter e o Messi dão cabo da paciência (e dos rins, no caso do Messi) a qualquer um.
Precisamos de estrume para ficarmos chateados. Precisamos de estrume para fertilizar a nossa vontade. Para existirmos, para agirmos. Nós não existimos, resistimos. Nós não agimos, reagimos. E é esse prefixo (Re – Re – Rrrr!!!) que não renegamos e nos renasce renascendo connosco, é esse prefixo que nos reencaminha num regresso ao passado, é esse prefixo que faz de nós reis do reino dos recordes do Guinness. Somos uma espécie de rebanho em refogado a redescobrir coisas que, pelo prefixo, já estavam descobertas. Deixemos as redescobertas onde estão, recordemo-las, mas apenas isso. Está na altura de descobrir. Não o que existe lá fora, mas o que existe em cada pedaço das nossas entranhas (e é sabido que, tecnicamente, as nossas entranhas não são mais do que estrume).
as dores dos outros
Quando pensamos em sem-abrigo esfomeados, criancinhas doentes ou velhos sozinhos para conseguirmos superar as nossas dores, não estamos a sentir nem amor nem empatia nem compreensão. Quando pensamos em sem-abrigo esfomeados, criancinhas doentes ou velhos sozinhos para conseguirmos superar as nossas dores, estamos a sentir prazer. E esse prazer é, como todo o prazer que há, egoísta. Estamos preocupados connosco, com as nossas dores, não com eles, com as dores deles. Estamos a usar os sem-abrigo esfomeados, as criancinhas doentes e os velhos sozinhos. Eles são aquele banquinho para chegarmos à última prateleira (e nem sequer está lá nada). As dores dos outros ajudam-nos a combater a nossa, servindo de alavanca para a esperança que temos em nós, não nos outros. Portanto, “se aquela criança tem cancro e está a rir, eu também posso rir e brincar e ser feliz, não tenho razão para não o fazer, há quem esteja bem pior do que eu”, não. Deixemo-nos disso. Não faz sentido mentir. Não há dores iguais e, comparando, não há dores comparáveis. Cada um tem as suas, cada um sofre as suas. Não vamos fingir que nos preocupamos genuinamente com os outros quando estamos assim e não vamos fingir que ficamos genuinamente melhores quando os usamos. É mentira. A dor não acompanha o fingimento. As dores doem mais se forem nossas e se, nossas, as sofrermos sozinhas. Mas só assim é que elas podem deixar de ser o que são. Em verdade.
o palhaço
Os balões, as flores e os narizes vermelhos faziam agora parte de um passado que ele queria esquecer. Apesar de todas as gargalhadas que ouvia sempre que subia a palco, ele, o palhaço do seu circo, invertia o que ouvia em sentimento. Todas as noites, vestia-se de cores em forma de roupa e lá ia ele. Actuava sempre depois do domador de leões e antes da trapezista. Mas ele era o único que se sentia desequilibrado sempre que olhava de frente o animal selvagem que era a sua vida. No fim, depois da felicidade (a dos outros), enfiava as mãos nos bolsos e as ideias no chão. Tinha riscos azuis, brancos e vermelhos a escorrerem-lhe dos olhos. Não deveria ter saído dali sem se desmaquilhar. Não deveria ter saído dali a chorar. Mas ele era um palhaço. A felicidade era o seu trabalho. A tristeza era o seu descanso.
pequenas estórias de muitas vidas | livro de contos – 2014
ele e ela
Estes são o meu tio António e a minha tia Fernanda, embora nunca tenham sido, para mim, nem António nem Fernanda. Estes são o Quicoino e a Nhanha. Ela morreu em 2002. Ele tem morrido aos poucos desde 2002. Ele existe, ainda, e ela também, num lugar diferente. Ele com muitas saudades dela, ela lá longe de nós. Ele choraminga sempre que a lembra, faz beicinho e limpa os olhos com as mãos enrugadas e duras e já fechadas sobre si mesmas. Solta um suspiro e tenta arranjar mais um bocadinho de ar para continuar neste lado sem ela. Tem conseguido. Ela enchia-me de mimos e eu roubava-lhe Ferreros Rocher. Ele tocava trompete e deixava-me chateá-lo enquanto dormia na espreguiçadeira. Foram-me tios por grau e avós por coração, tantas vezes pais. Hoje, o Quicoino está cansado e triste pelas saudades que nunca deixou de ter dela. Ela, a Nhnanha, tem a gargalhada estridente em cada memória que ele traz à conversa. Ele a preto e branco, ela a cores. Ele e ela, dois amores.
laurindinha
Ela passava o dia à janela. Viu o seu amor ir para a guerra e não o viu voltar. Mas esperava por ele como quem espera pelo futuro. Vem amanhã, vem amanhã, sempre amanhã, só amanhã. Os passarinhos eram a sua companhia. Empoleiravam-se no parapeito e ela empoleirava-se nos peitos deles. Para onde eles olhassem, ela olhava também. À procura dele. Mas ele não vinha, já se sabe. Sabia de cor todos os passos de todas as pessoas da aldeia. As horas a que saíam de casa, as horas a que chegavam, as horas a que se demoravam na praça, na florista e na escola. Dizia olá a quem vinha, dizia adeus a quem ia. Anotava brigas e negócios, encontros e desencontros. Assistia, do terceiro anel do seu parapeito, às jogatanas de rua onde as pedras eram postes de baliza. Marcava faltas, gritava, incentivava, fazia claque. Os putos não lhe ligavam patavina.
Laurindinha não era velha nem era nova. Tinha a idade do tempo e vivia bem com isso. Não se queixava. Era o bibelô da aldeia, o naperon em cima daquela antiga televisão que era a sua casa, uma casa a preto e branco com dois canais e sem comando à distância. À distância, só o seu amor.
lágrima | romance – 2015
lamento, lili
Lamento, Lili, mas estar vivo não é o contrário de estar morto. A morte não é um estado. Não se pode estar na ausência. Estar pressupõe vida, continuidade, existência. Estar morto é uma contradição. Morre-se e pronto, não se está morto. Não se está, ponto. Estar vivo não é o contrário de nada. Estar vivo, simplesmente, é. Estar morto não é.
o joker somos nós
Arthur Fleck é um homem sozinho, triste, desapontado, deslocado, marginal, louco, puro e real. Arthur Fleck é Joker. O Joker somos nós.
Arthur Fleck não encaixa na sociedade. É um homem que grita sem ser ouvido, e, precisamente por gritar sem ser ouvido, grita para dentro de si, onde faz eco, pois o dentro é tão grande e tão vazio. E o vazio ocupa-lhe tanto espaço que, quando inflama, sai por todo o lado e atropela toda a gente. Pela boca, pelos olhos, pelos dedos, quem ama, quem odeia, quem não conhece.
É por isso que Joker, o filme (e Joker, o palhaço) nos deixa tão desconfortáveis. Joker, o palhaço, sofre da doença de rir em descontrolo, mesmo em momentos inoportunos. Joker, o filme, faz-nos rir em descontrolo, mesmo em momentos inoportunos. Quando ele ri no metro, quando ele vai contra a porta no hospital, quando ele mata em casa. É nestes momentos, e em tantos outros, que vestimos a pele (e a doença) de Joker, o palhaço. Rimos, metemos a mão à frente da boca e pedimos perdão pelo riso. É isto que acontece. Sempre. Por nos sentirmos a trair os nossos alicerces do bom e do mau, por não os sabermos distinguir e, até mesmo, por os negarmos.
Joker, o palhaço, faz o que grande parte de nós, em algum momento, em algum lugar, gostaria de fazer – por se sentir deslocado, por não poder mais. Joker, o palhaço, vai lá aquele sítio sombrio da nossa cabeça e diz olá. E nós adeus, dizemos olá de volta e ficamos nestas voltas inquietas à volta de nós mesmos. Isso incomoda-nos. Não gostamos que se saiba, não queremos que ninguém saiba. Mas sentimos, muitas vezes, o mesmo e temos, muitas vezes, o medo.
Olhamos Joker, o palhaço, e olhamo-nos ao espelho – e lá estamos nós, carregadinhos de maquilhagem. Joker, o filme, é uma obra-prima porque nos agarra pelas entranhas e faz o que quer com elas e connosco, porque nos inquieta e nos engana, porque nos atira à cara com uma prestação brilhante de Joaquin Phoenix – o Óscar não chega. Joker, o filme, brinca connosco. Joker, o palhaço, é o brinquedo. Somos nós a piada. O Joker somos nós.
rugas
Um lar de idosos é uma casa vazia e triste. Aqui, nesta história, é um poema, nunca deixando de ser uma casa vazia e triste. Emílio é velho e mora agora nesta casa, cheia de velhos e vazios como ele. Emílio não se lembra, pouco a pouco vai perdendo passado, vai esquecendo e vai deixando de existir. Mas vai lutando, tentando encontrar solução para o que não há, outro caminho para outro destino que não o único que existe. Uma luta triste, com sopa, medicamentos e solidões. Emílio tem o destino traçado, e Paco tem, nos traços, corações. Uma história bonita sobre o outono da vida, sobre a melancolia fatal da realidade. Vazia e triste, porém, poema.
Rugas, de Paco Roca.
foda-se caralho
Nada supera um bom foda-se caralho. Nada. Nem um mero foda-se nem um solitário caralho. Foda-se caralho. Assim. Lado a lado, coladinhos, encostados, amarrados um ao outro. Sem apartheid linguístico.
Dois seres que são um. Duas palavras que são uma. Duas palavras que deveriam ser uma, fodasecaralho, e que se fodesse o hífen, porque não pode haver um milímetro que seja a separá-las, muito menos um tracinho que, fodasecaralho, é um tracinho. Acaba em inho, qual é a autoridade que tem para afastar esta dupla mais forte e mais densa e mais mais do que uma Romeu e Julieta ou uma Unha e Carne? Fodasecaralho.
Que se reinvente a sintaxe, a gramática, a semântica. Tudo. Fodasecaralho é siamês, é alma do povo português que não tem filtro na língua nem nos dentes. E, sem filtro, há mais verdade. Bonita ou feia, sem saudade nem penitência. Não é ignorância nem ausência de educação, é a importância de dizer as merdas com o coração.
Fodasecaralho é casal que enche a boca e os ouvidos. Só os que não o sentem ou não o dizem ou ouvem mal ou já estão fodidos
crónicas da sala de espera
Dei por mim a reler o Pedro. Sim, o Pedro, não o livro do Pedro, mas o próprio Pedro, o homem, o camarada, o amigo. Reler o Pedro é a única forma de o voltar a ter na cadeira ao lado, a contar-me histórias de música, de mulheres e de jornalismo antigo, daquele que já não se faz. Eu não fazia nada. Apenas ouvia o que ele me dizia, e ele dizia-me tantas vezes para viver e escrever e não ter medo, e eu ouvia, e ele vivia e escrevia sobre o medo que dizia não ter. Ele tinha cancro, todos temos o medo de morrer. As crónicas sobre os seus tratamentos de quimio e radioterapia que escreveu foram ditas na antena do Rádio Clube, onde partilhámos uma vida inteira de um ano. Antes de as dizer, pedia-me para as ler e para lhe dar opinião, se haveria alguma coisa a mudar. «Nada, Pedro», dizia. «Só a doença, Pedro», pensava. O Pedro juntou todas as crónicas e editou este livro. Morreu pouco tempo depois. Ficámos sozinhos. E é quando o releio que ficamos só os dois.
Crónicas da Sala de Espera, de Pedro Beça Múrias.
a vulgaridade do génio
Hoje, tudo é genial. À excepção do génio, que é vulgar. Hoje, ser genial é vulgar, banal, ordinário. Hoje, ser genial é ser o seu contrário. Hoje, é-se genial por um golo, por uma frase ou por uma música. Não é preciso consistência nem talento. Nada é mediano, razoável ou morno – nem mesmo bom. Nada é assim assim. Só assim, genial.
Se cuspimos genialidade a toda a hora a toda a gente que nos surpreende, então estamos a cuspir no verdadeiro génio. Estamos a cuspir no Maradona, no Shakespeare e na Amália. Um puto que mete uma vez a bola no ângulo não é um Maradona, um escritor com likes nas suas frases de Instagram não é um Shakespeare, uma miúda que ganha um concurso de música da televisão não é Amália.
Se dizemos, constantemente, a toda a hora, que aquele é um génio, que palavras nos restam para descrever aquele que, de facto, é um génio? Falha o respeito pela palavra e pelo génio. Se atribuirmos conceitos (que não são delas) às palavras, as palavras perdem força e nós perdemos força com elas. E, sem forças, não vamos a lado nenhum.
Vamos ao extremo buscá-las para lhes dar outros conceitos, outros corpos que vestir. A palavra génio veste o corpo do mediano, do razoável, do morno, do bom e de todas as outras que dizem absolutamente tudo o que simplesmente querem dizer, mas que não dizem nem significam génio. E, assim, pela preguiça de trocar de roupa, ficamos sem saber quem é quem e quem veste o quê. Até as palavras. Essencialmente as palavras.
Tudo é igual, tudo é irrelevante. Não tem nada que saber. É mais fácil assim. É mais simples compreendermos o mundo se o virmos dessa forma. Matam-se as palavras, matam-se os pensamentos. Nivela-se o mundo por baixo e, assim, cabemos todos nele. Aconchegadinhos, inertes e iguais. Sem génios, mas num equilíbrio vulgar, banal e ordinário que nos leva a lugar nenhum.
rip irreverente
A maneira politicamente correcta de dizer que alguém é homossexual (como se fosse politicamente incorrecto dizer que alguém é homossexual – como se fosse sequer necessário dizer que alguém é homossexual) é dizer que é irreverente. E mais irreverente se torna (ou é tornado por quem o diz) assim que esse alguém morre.
O Beauté era um cabeleireiro irreverente, o Variações era um músico irreverente. Parece elogio, é engano. Parece qualidade, é farpa. Dizer que o Beauté era um cabeleireiro irreverente e que o Variações era um músico irreverente é fazer truque com a língua, é esconder a ofensa numa característica que nem aquece nem arrefece, mas que parece dizer uma coisa muito boa. Não é, é só sonsice de linguagem, é só homofobia camuflada.
Para esta gente politicamente correcta que diz que aquele era aquilo, aquele não era apenas homossexual, era paneleiro, maricas, rabeta, larilas, panasca – a lista de palavras é longa, como a estupidez de quem as cospe. Na sua boca, irreverente é, apenas, eufemismo para o insulto.
Ser homossexual não é ser irreverente, é ser pessoa. Sendo irreverente ou não, é ser, acima de tudo, pessoa. Mas a irreverência é a “qualidade” que lhe parece ser inata. A irreverência é fugir às regras, portanto, é ser homem e apanhar no cu. É o que quer dizer esta irreverência, palavra que, escondida pela suavidade de uma saudável rebeldia, mais não é do que arma de arremesso para quem a usa no contexto do adeus a um gajo do caralho que gostava era de caralho. Qual o mal? Qual a relevância sequer? Irreverente? Irrelevante.
pura anarquia
Uma espécie de Bíblia para os crentes na salvação do mundo através do riso. Deus é Woody Allen e tudo começa com Ele (atenção, letra grande por ser Woody, não por ser Deus) «lutando por conseguir respirar, com a vida a passar à frente dos olhos numa série de vinhetas melancólicas». Tudo o resto é o que se sabe: Deus a criar coisas sob a forma de crónicas tão vulgares quanto deliciosas. Ler, ver e ouvir Woody Allen é mergulhar, de cabeça, no caos. É lá que está a criação.
Pura Anarquia, de Woody Allen.
está calor
O jornalista diz que está calor.
No telejornal, no jornal, na revista, no site, em todo o lado. Onde há um jornalista, há um jornalista a dizer que está calor. E, para o jornalista provar que está calor – porque há pessoas que, sentindo calor, podem não saber que o que sentem se trata de calor – debita informação sobre o calor. Depois, mostra imagens de pessoas com calor e apresenta grafismos que indicam que, é verdade, está calor. Em estúdio, o jornalista entrevista um especialista em calor que diz que, realmente, está mesmo calor. O jornalista confirma que, realmente, está mesmo calor e passa, com alguma lentidão devido ao calor, para outro jornalista que está em directo de um sítio onde, pasme-se, está calor. O jornalista que está em directo de um sítio onde, pasme-se, está calor confirma que é verdade, está num sítio onde, pasme-se, está calor. Ao seu lado, estão várias pessoas, também elas, surpreendentemente, com calor. O jornalista pergunta se está calor. As pessoas respondem que está calor. O jornalista, surpreendido com a resposta e com o facto de, de facto, estar um calor dos diabos, devolve a emissão a estúdio com a relevante e pertinente notícia de que, sim senhor, está um calor dos diabos. O jornalista que está em estúdio, e em brasa por causa do calor, sorri, com alguma dificuldade por culpa do calor, pisca o olho para a câmara e diz que, sim senhor, está um calor dos diabos.
E o Jornalismo no Inferno. Até dá arrepios.
as velas ardem até ao fim
É bem possível que este livro não seja literatura, mas sim dança, ballet em pontas, levezinho, suave, de embalar, polvilhado com heavy metal, estrondo, barulho de realidade e escuridão. Este livro dança-se no subterrâneo, nos lençóis de água do ser humano, bem ao estilo soviético, sozinho, virado para dentro, com a melancolia própria do ser humano. Sem merdas, cru, poético, bonito.
As Velas Ardem Até ao Fim, de Sándor Márai.
manual da felicidade
É simples. Para quê tanta lamúria e xanax? A felicidade está aqui ao virar da esquina, como as putas. Para ser feliz basta ser quem se é.
Desde que se seja vegan, runner, crente e politicamente correcto. Que se ame homens, mulheres e criancinhas, mas mais ainda os animais e as florestas. Que se faça meditação, alongamentos e yoga, que se condene a medicina ocidental e se venere a oriental, a menos que estejamos mesmo a precisar e aí que se fodam os reikis e os búzios. Que se saúde o sol, se evite o glúten, a lactose e os fritos. Que se seja contra as leis e os patrões, contra tudo o que é contra e que se assine petições, se defenda as minorias e se faça manifs. Que se critique os programas de televisão, se veja netflix, se oiça podcasts e spotify, se compre discos, se vá a festivais. Que não se critique, só se elogie, não se diga mal, só muito bem. Que se respeite os comunas e os nazis, se aceite os burros e se lhes diga que podem conseguir tudo o que quiserem, basta acreditarem e se insulte os inteligentes por não entendermos o que dizem. Que se cague na educação, se escreva como nos apetece, se diga que tudo é genial e ridículo, consoante a inclinação. Que se tape o medo, as rugas e a celulite. Que se seja incoerente e se bloqueie toda a gente que fuja, dizendo, pensando ou sentindo, deste nosso modelo de felicidade.
É assim que se faz, fingindo que se é feliz, que se vive de verdade.
manhã
Um livro que engana pelo nome. Muito mais noite do que manhã, este poema feito de poemas é um mergulho na infância e em todas as memórias a ela ancoradas. Uma escrita simples e bonita que engana por ser simples e bonita. Um livro para ler de manhã, ao adormecer.
Manhã, de Adília Lopes.