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pelo abismo da aflição

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Fui ao dentista. Tive dores e pensei. Penso muito quando tenho dores. Tenho muitas dores quando penso. Estava eu vulnerável, com uma broca a perfurar-me um nervo qualquer do molar, quando pensei, doendo, no tão na moda “viver o agora”. Raramente vivemos “o agora”. Diria que sim. A sociedade corre e nós corremos com ela, como sem fim. Não aproveitamos o filme que estamos a ver, o sofá onde estamos sentados, o sol que nos aquece, pouca coisa, nada nos apetece. Estamos constantemente neste estado ansioso de futuro constante que não nos larga. Isso é verdade – eu estou sempre além longe do agora, mas também é mentira. Eu, com aquela broca a perfurar-me um nervo qualquer do molar, estava a viver o agora. Queria pensar no passado ou estar já a viver a chamada que iria receber mais tarde, mas não. Estava ali, naquele momento, inteiramente de corpo e pensamento, a sofrer. E isso fez-me pensar, doendo, que nós, de facto, vivemos o agora. Mas só se o agora for dor. Se não for, sendo prazer ou coisa indiferente, passamos à frente em busca de nova dor onde ancorar o pensamento. No passado ou no futuro, tanto faz, mas sempre em movimento. Há pessoas que não, certamente. Mas há pessoas que sim, como eu, que têm uma espécie de atracção pelo abismo da aflição. Uma atracção que não é voluntária – eu não quero viver a broca a perfurar-me um nervo qualquer do molar, mas que vem de mim. E não sei se o problema é ter inclinação para viver a dor ou não conseguir sequer viver o prazer – ou até mesmo a coisa indiferente. Mas, naquele momento, vivi sem querer o agora que ainda me demora no dente.

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alerta giveaway de ilusão

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Sou uma pessoa de manhãs. Acordar cedo é uma das bênçãos que deus nosso senhor me deu com a felicidade no rosto de um dia que está a começar e que me dá a linda luz da vida que se vive agora neste momento agora mesmo porque o passado já foi e o futuro não vem e sinto-me muito grata por ser assim e estar neste mundo que é este e por ter as minhas friends que são estas também lindonas como eu que me acompanham neste caminho que se faz caminhando com deus no comando e a deusa shiva da nutrição deitada em posição de pombo daltónico no meu chacra do meio sou dona do meu tempo e eu sou o meu mesmo próprio universo sou feliz e agora vou meditar e sorrir e espalhar alegria por toda a gente que não come carne de porco viva a beterraba e a soja. E tu, vais escolher a felicidade? Olha para dentro e sente tipo com o coração. Alerta giveaway de ilusão.

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somos o teria sido

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Conheço quem já tenha desistido da vida. Quem já não se importe com nada. Quem já não saiba sequer quem é. Se soubesse, certamente se lembraria de que, quando era quem não é hoje, queria ser feliz. Não sabe, então não se lembra, então não é feliz. O sonho é uma daquelas merdas que vai e vem. Nesta gente, foi e não veio. E a vida é apanhada no meio desta desistência da essência humana, a felicidade. Um homem vai perdendo sonhos com a idade. Já não vai a tempo de vestir o fato de astronauta, de ter uma banda de rock nem de ser o camisola 10 do Benfica. Então, o sonho vai, e o que fica é esse vazio de frio no dia-a-dia de quem se limita a existir. A respirar. A ouvir. A falar. A não ir. A ficar. Conheço quem já tenha desistido da vida. O que é fodido. Somos o teria sido. Em despedida.

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nem sempre somos nós

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É normal não te sentires normal. Não há preocupação. As coisas são como são e tu és tão normal como toda a gente. Não igual, diferente. Mas que sente tal e qual como quem está ao lado, também confinado. É normal esses cavalos no peito ao acordar que, durante o dia, te andam a cavalgar e que, de noite, não adormecem, parece que sim, desaparecem, mas aparecem por fim sem que ele seja. O cavalgar aleija. Mói o peito e o efeito é despertar pensar pensar pensar pensar pensar. Dói. Não devia. É normal. Deve porque é o dia que se vai repetindo e a angústia que se vai engolindo encobrindo com vinho e televisão. A nós é que nos falta carinho, compreensão. É normal, o mundo está fodido. É normal o comprimido, é normal o não teres dormido a noite inteira por medo sabes lá de quê, nem sabes se é verdadeira a emoção de quem te vê. É normal quereres chorar. Desaparecer. Gritar com os pais, com os irmãos, com os vizinhos. Estamos onde não deveríamos viver, e parece que estamos sozinhos. É normal, não havendo normalidade, sentirmos que o passado é que era o lugar certo e que o futuro nunca esteve tão longe, mesmo estando tão perto. Essa vontade de tocar comer beijar foder parece doença e há quem se convença, e com a sua razão – cada um tem a sua, que tudo se leva com meditação. E quem não consegue? Vai para a rua? Quem não tenta – está no direito de não tentar, quem não quer, quem tem medo de falhar? Quem não, o que faz? Não há só uma solução. É normal dizer que não, não sou capaz. E sinto angústia e raiva e medo e minto nas redes sociais porque lá somos todos felizes todos iguais, criando raízes de seres “normais”. Não é essa a normalidade. Horror, saudade, vontade de amor. É normal tudo o que for. E não estamos sós. Somos humanos, falhas, inquietações e as multidões nem sempre somos nós.


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um antónio é um tó

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Quem se chama António, José, António José, José António, Rafael, Francisco ou outro nome do género, nunca deveria ter um nome invulgar junto deste. Um António é um Tó, um José é um Zé, um António José é um Tó Zé, um José António é um Zé Tó, um Rafael é um Rafa, um Francisco é um Chico e por aí fora. Um António Braz, por exemplo, deixa de ser Tó para ser Braz, desperdiçando um diminutivo simples, eficaz e fácil que os pais nos puseram a saltitar mesmo ali à frente da baliza. Um António Braz não pode ser Tó, porque seria ridículo ocultar o Braz. Mas também não fica bem ao Braz tirar valor ao tão simples, eficaz e fácil Tó. Em que ficamos? Pois. Estamos perante um problema grave e raramente – talvez nunca – discutido. Andamos para aí a debater o vírus, a ascensão da extrema-direita e a economia deixando temas tão importantes como este ao deus dará. Enfim.

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vem o medo, está bem

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Vem o medo, está bem, que venha, não há segredo nem emoção estranha e treme o corpo e o coração corre, é normal, está tudo bem, ninguém morre, o medo desperta e alerta, diz que vem perigo, mas diz comigo, não vem, acredita, deixa o medo existir, é a dúvida a fazer fita, não lhe digas para não vir, deixa-o estar para ele ver que não há nada a temer, está tudo bem, ele vem e vê que é só a vida a acontecer.

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o livro dos filósofos mortos

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«Filosofar é aprender a morrer.» Um livro sobre a maneira como alguns filósofos viram e viveram a morte. Tem Cícero, Camus, Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Simone de Beauvoir, Sócrates, Kant, Pascal, Marx, Kierkegaard e outros mortos. Depois de ter lido um livro sobre um gajo que não se considera humano e, por isso, deseja o suicídio, li agora este sobre a morte ela mesma. Estou a ir por uns ricos caminhos, estou.

O Livro dos Filósofos Mortos, de Simon Critchley.


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é calando e proibindo

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496.655 pessoas votaram no André Ventura. Se continuarmos a achar que este quase meio milhão de pessoas não existe, então é bem provável que, dentro de pouquíssimo tempo, sejamos governados por inexistências. É calando e proibindo que se destroem pessoas, mas não ideias. As ideias nascem no lamaçal da proibição e na clandestinidade da suposta inexistência. É lá que elas nascem, crescem e ganham massa muscular. Mas é cá, deste lado, que elas morrem – quando, à luz do dia e à vista de toda a gente, são confrontadas com outras ideias melhores. 496.655 pessoas, quase meio milhão de seres humanos, têm ideias com as quais eu não concordo, mas que merecem ser ouvidas e discutidas. E, só depois, e tendo em conta o seu óbvio vazio, serem facilmente destruídas.

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vota ventura!

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Vota Ventura, se o teu candidato for Ventura. Ou Tino, se for Tino. Ou Marcelo, Ana, Marisa, Mayan ou João. Ou em branco. Ou nulo. Ou não votes. Qualquer acção é uma acção da realidade. E a realidade não é o que nós achamos que ela é.

A realidade é linda, mas feia também, horrível, nojenta, com borbulhas, queimaduras e pus. A realidade tem gente fascista, comunista, do centro, inclinada para a direita, para a esquerda ou para lado nenhum. Tem gente estúpida, inteligente, ignorante, sonhadora e pragmática. Tem gente pobre, rica, com fome, cancro, casas na praia e vida na merda. Tem gente de cravo na lapela e gente que se está a cagar para a democracia. Toda esta gente é realidade. E é a realidade que é essencial conhecer, e é a realidade que não conhecemos. Nós não sabemos quem somos. Desconhecemos as ruas, as emoções e as ideias. E, desconhecendo, desvalorizamos. Mas as ruas, as emoções e as ideias têm gente dentro e, desvalorizando ruas, emoções e ideias, desvalorizamos gente. Surpresa! Há gente com outras ruas, emoções e ideias que não as nossas – por muito estúpidas que sejam, as da gente ou as nossas. E essa gente faz parte da realidade, e essa gente é realidade. E a realidade não se combate com proibições nem com discursos ocos de lábios pintados. A realidade combate-se, não combatendo, começando com a vontade de a conhecer. Saber que há quem vote neste, naquela, em branco, nulo ou nem sequer vote, mas também perguntar, perceber, conhecer. Mas isso custa. Implica trabalho, dedicação, luta, paciência, tanta coisa que nos falta – e de que temos tanta urgência. Talvez daí a ilusão de não termos tempo. Queremos tudo agora, sem perguntas, só respostas, desde que as respostas sejam as que nós escrevemos no nosso caderno vazio de lixo. Surpresa! Nós também somos lixo.

O resultado de hoje não é a vitória de uns nem a derrota de outros. O resultado de hoje é sempre a derrota de todos e sempre a vitória da realidade – mesmo que ela não seja o que nós achamos que ela é. Bem, ela não é o que nós achamos que ela é. Mas talvez fosse boa ideia tentarmos olhá-la e percebê-la. Só assim percebemos o que somos. Só assim podemos ser o que quisermos.

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fala, ó facho

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Fala, ó facho! Não oiças os que te pedem para te calares. Fala, ó facho! Grita, berra, vocifera, clama. Mostra-te, deixa que te vejam. Diz, deixa que te oiçam. Além de ser justo, é bem mais fácil identificar um idiota se soubermos onde ele está e o que ele diz. Se o obrigarmos ao silêncio, não só fica difícil de o identificar como também fica difícil de combater o que ele (não) diz. Mandar calar é impedir de ouvir. E, por muita sujidade que possa vir daquela boca, sei que é sujidade e sei que é daquela boca. Prefiro continuar a ouvir do que ser impedido de falar. Portanto, fala, ó facho! Preciso de ir tomar banho.

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não-humano

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«A minha vida tem sido vergonhosa. Não consigo sequer imaginar como deve ser viver como um ser humano.» São estas as primeiras palavras do primeiro livro que li este ano. Uma maravilha da literatura japonesa – na verdade, não conheço mais, mas esta, que conheço, é um mimo. E é triste, como qualquer maravilha que se preze.

Não-Humano, de Osamu Dazai.

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autobiografia

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Sempre me foi difícil dizer quem sou. Não por vergonha ou medo. Por ignorância. Não sei, não é segredo. Nem tem importância.

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tudo me é imortal

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Foi-me um ano de mortes. Todas elas reais, mesmo as que não foram. Deixei de ter gente, lugares, até silêncios, mas não perdi ninguém. As memórias, todas elas boas, mesmo as que não são, fazem viver em mim tudo o que me morreu. Tudo me é imortal, menos eu. Tenho o infinito no meu pequenino lugar de dentro onde nem eu caibo. E ter o que não acaba, sem espaço para o ter, aperta, esmaga e faz doer. Nunca me doeu tanto. Bati todos os recordes de idas ao psicólogo, ao psiquiatra e ao chão. Quis fugir, encharcar-me em comprimidos para me adormecer, mas fiquei e os comprimidos lá foram deixando de ser. Refugiei-me em amigos, em família e em palavras. Menos em mim. Tinha medo, ainda tenho. Mas, talvez pela necessidade causada pelo fim, tentei deixar de me ser um estranho, e entrei. É lá, aqui, que me tem custado estar. Por encontrar o que escondo, ou tento esconder, por dar de caras com o que sou e não queria ser. Mas também tenho encontrado coisas bonitas, acho eu. Também acho que as tenho, que as sou. Mas eu, por crença ou ilusão, teimo em não acreditar que elas existem, que elas são. Mas vou escavando, e percebendo que, mergulhando neste ser, é a forma mais verdadeira de me ir sendo e de aceitar o que encontro, o que sinto, o que sou. Dar-me a mão, pegar-me ao colo, dizer-me que está tudo bem assim, que nem sempre sou não, e que o consolo pode, e deve, vir de mim. Tenho tido, também, muita sorte na gente que eu vou tendo comigo. Não foi apenas a morte, e ainda bem, o ingrediente do que digo. Conheci gente que me levantou, me abraçou e me foi levando pelo abominável desconhecido da vida. E o escuro clareou um bocadinho. Que bonito, o acaso também ajuda quem se julga sozinho. E, apesar de todas as escuridões, lá fui conseguindo iluminar alguns corações. Falta o meu. É só arranjar um jeito de não me olhar como se estivesse sempre a cair. Ou a sufocar com a imortalidade de quem me tem morrido. Sim, é o segredo, não viver o teria sido. Mas eu tenho medo e o medo está comigo. E não basta querer que ele vá embora. Sim, tenho de viver o agora. Não consigo, por enquanto. Preciso ser meu amigo, gostar de estar comigo, ser o André. Mas tudo o resto é tanto, mesmo o que não é.

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quem está sempre

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Nestes dois dias, só família, somos mais de cem. Ontem e hoje, só família, somos quatro. Mas não falta quem não está. Falta quem está sempre. O meu primo Henrique, o meu avô Zé Pereira, a minha avó Maria José, o meu avô Álvaro, a minha avó Maria Augusta, o meu tio António, a minha tia Nhanha, a minha tia Carminda, o meu cão Freud. Estar, lembrando, é uma forma de ter. Estar, não estando, é uma de viver.

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o meu pai

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O meu pai é o pai que eu gostaria de ser. Não sou ainda, falta-me ser pai, falta-me ser bom, falta-me ser feito do jeito que ele tem para estar, sorrir, brincar e sorrir, já disse sorrir? já disse brincar? Gostaria de ter a alegria que ele tem em tudo o que é. Mas sou o André, não sou o meu pai, Manuel José. E ainda bem que ainda não sou, assim terei o meu pai para sempre, sempre que fico, sempre que vou, e ele sempre comigo, que me é pai, que me é amigo, que me é tudo o que não consigo escrever. Não fosse o meu pai e eu não seria metade. Não fosse o meu pai e eu já teria perdido a vontade de ser feliz, de acreditar que a felicidade tem a sua raiz no nosso comportamento. Eu tento, o meu pai consegue. E a minha vida segue com a vida dele. É do meu pai que eu herdei aquilo que eu ainda não sou. Diria que a felicidade não me calhou. Mas digo que sim, que a felicidade já me aconteceu, a mim, e ela insiste e já não me sai. Tenho quem me fez eu, quem me existe, tenho o meu pai.


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a nossa morte

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Não é por ser famosa, por ser filha deste ou daquela, por ser talentosa, por ser bonita, por ser jovem. Não é por isso que devemos chorar. Mas também é. Há gente anónima que morre todos os dias, de acidente, de doença, jovem, velha, sem fama e filha de ninguém. Há. Mas, por ignorância, despreocupação ou sobrevivência mental, não nos interessa. Não nos incomoda, não nos faz pensar, não nos faz chorar. A morte de uma figura pública, seja ela quem for, com o talento que tiver, é a morte de uma pessoa. Mas mais. A morte de uma figura pública é a morte de pedaços de várias pessoas, porque nós também morremos um pouco quando damos de caras com o fim de alguém. Mais ainda quando esse fim nos enche os jornais, a televisão, as redes sociais e, por consequência, o coração. Não é por ser famosa que o choro é mais forte, mas é por ser famosa que o choro é diferente, porque olhamos de frente a nossa própria morte.

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plano de treino

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Vou ao ginásio e treino bíceps, tríceps e peito. Mais peito, na verdade, que, para mim, ir ao ginásio tem sido tão terapia como a que faço todas as terças-feiras às duas no consultório. Costas, abdominais e peito. Sempre peito, que, às vezes, o treino é tão forte que todo o suor sai de lá pela foz que nos há nos olhos. E levanto halteres, com pesos de fantasmas, medos e sentimentos de culpa, mas de forma perfeita, sem pressionar a lombar nem compensar com os ombros. E corrida, corrida, muita corrida, para trabalhar o cardio, que o coração corre, corre, corre, e faz bem em correr, se não, morre, e não é bom morrer. E, por fim, alongamentos. Do peito, sempre do peito, para ver se há jeito de queimar os pensamentos.

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e vamos nós, sozinhos

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Não sei quanto a vocês, mas o meu sítio preferido onde chorar é no banho. Se for por uma merdinha de nada, as lágrimas são varridas pela água do chuveiro, dando-lhes a importância que elas têm, naquela torrente imensa. Vão as gotas, vão os pensamentos e ficamos nós, limpinhos. Se for por um daqueles vazios que nos estremecem, as lágrimas transformam a água do chuveiro em lágrimas também, dando-lhes ainda mais importância do que aquela que elas têm, naquela torrente que parecia ínfima. Vão as gotas, vão os pensamentos e vamos nós, sozinhos.

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a alegria nunca me foi

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Não sei se o que faço é arte. Nem sei, na verdade, o que faço. Mas, não sabendo, sendo arte, é o que me salva. É o que me tem mantido à tona sempre que os fantasmas do vazio me puxam para o poço escuro da depressão. Não é contacto com a alegria que me deixa menos triste, é o contacto corpo a corpo com a arte. Não é uma piada, não é um ninho de labradores bebés, não é uma refeição em família, não é um orgasmo. É a arte. É uma canção, mesmo que triste, é um poema, mesmo que aflito, é uma dança, mesmo que pobre, é um corpo, mesmo que fraco. A alegria nunca me foi bóia de salvação para nada, muito menos para quando eu mais preciso dela. É por isso que eu não páro de escrever. Para que, mesmo de pés no poço, roído até ao osso, eu continue a viver.

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queda para a saudade

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Tenho uma queda para a saudade. Não sei se é do fado que me há na História, se do sangue, se dos astros, se da memória. Sei que tenho uma queda para a saudade. Muitas vezes, sem querer, com vontade. Como se ela fosse a razão para uma espécie de criação que só existe se eu estiver triste. E a tristeza, causa ou origem da saudade, é-me uma forma de beleza que, usando para escrever, me dá liberdade. Que, usando para lá ir, vindo, me deixa caindo, sem cair.

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um descanso cansado

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A ansiedade pesa-me nos olhos. Como se tivesse chorado durante muito, muito tempo e, ao fim do muito, muito tempo, ao fim do dia, ao fim do choro, todas as lágrimas se acumulassem nas pálpebras e se deitassem. É um descanso cansado, por ter terminado, mas por ainda doer, por ter ainda cavalos a correr, e por eu ter corrido também, por estar sem. Vontade, energia, prazer. Ansiedade, mais um dia a chover.

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na ilusão da posse

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Vivemos na ilusão da posse. Nunca nada é, foi ou será verdadeiramente nosso. Nem a boca, nem o abraço, nem a patinha. Mas vivemos na ilusão de que é, foi e será. A boca, o abraço, a patinha. E, quando perdemos o que julgamos ter, vem a desilusão. Vã desilusão. E gritamos, entristecemos, choramos. Não por algo que tenhamos perdido, mas por tomarmos noção de que esse algo nunca foi nosso. Nem a boca, nem o abraço, nem a patinha. Não é uma desilusão com ela, com ele ou com ele. É uma desilusão connosco, que caímos no engano da conjugação-ilusão do verbo ter. Queda sozinha. Sem boca, sem abraço, sem patinha.

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professora-lágrima

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Sem ela, eu não seria eu. Não seria, pelo menos, este que escreve a vida desta maneira e que só encontra maneira de viver escrevendo. A professora Madalena é a minha professora primária. É, nunca vai deixar de ser. Foi ela quem me ensinou a escrever e a ler e a contar e a respeitar. Mas ensinou-me muito mais do que aquilo que eu aprendia naquela sala de rés-do-chão da Escola Primária dos Marrazes. A vida. Acho que foi o que a professora Madalena mais me ensinou. A vida. No seu estado mais puro de respeito, carinho, disciplina, amizade e sonho. Há quase 30 anos, era eu um ruço tímido caixa de óculos sentadinho quietinho na sua cadeira a ver a letra bonita da professora escrever Lição número qualquer coisa, Dia tal, do mês tal do ano antigo de 1990 e tal, Sumário. E eu sentadinho quietinho, a aprender. Este ano, pedi-lhe que trocasse o quadro negro pelo meu livro. Em vez de Lição, Dia, mês, ano ou Sumário, pedi-lhe, apenas, que escrevesse lágrima. E a minha professora, de mão tremida, escreveu. E eu, de coração tremido, li. Hoje, essa palavra, com essa caligrafia, está escrita no quadro negro da capa do meu livro. Quem me ensinou a escrever (e a ler e a contar e a respeitar) merece o melhor lugar no lugar das minhas palavras.

Lágrima, a triste odisseia de um homem feliz. À venda em Dezembro. Já disponível em pré-reserva.

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na espuma dos dias banais

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Não é o sermos proibidos de estar com outros, é o sermos obrigados a estar connosco. Fechados em casa, abertos em nós mesmos, completamente escancarados, com ventanias de pensamentos a entrar-nos pelas portas e janelas da nossa casa. Vulneráveis a nós mesmos, ao que nos inquieta que nos navega no subterrâneo rio que vamos conseguindo ignorar na espuma dos dias banais. Não é o confinamento dos outros, é o encontro connosco. É o sermos obrigados a ser o que realmente somos. E a ver, a tocar, a falar, a ouvir, a cuidar de nós. Os outros vão-nos tendo, e sendo, sempre que nos ignoramos. Nós vamos vivendo, e crescendo e morrendo e renascendo, sempre que temos a coragem de estarmos, e sermos, com quem somos. Custa, faz doer. Mas custa mais o vazio, o deixar correr o rio, o não ser.

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a elis regina não tem razão

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Desculpa, Elis Regina, mas eu acho que já não somos os mesmos nem vivemos como os nossos pais. Essa é, até, uma das nossas grandes angústias. Falo da minha geração, mas falo por mim. Eles, os nossos pais, apresentaram-nos uma vida completamente diferente daquela que nós, que eu, levamos. Eu não casei aos 20 anos, não tive filhos aos 22, nem arranjei emprego para a vida aos 25. Não tenho uma casa em meu nome, não tenho conta na mercearia, nem álbuns de fotografias de vida em conjunto. A minha vida, apesar da felicidade de uma estrutura familiar feliz, está fragmentada em memórias dispersas e descoladas. Desde que saí de casa, tive amores, paixões, desilusões, recibos verdes e casas arrendadas. Pouco mais. Não tive a capacidade de construir, nem de ajudar a construir, um único castelo onde pudesse fortalecer raízes de uma vida em linha recta, sem zigue-zagues de percurso. Os castelos que tenho são pequeninos, e muitos são de areia com bandeira a meia-haste. São vários os lutos por que tenho passado por não conseguir ser o que sonhei e por não conseguir ser o que são os meus pais. Sei bem que são outros tempos e que são outras pessoas. Eu, curiosamente, sou eu. Não sou os meus pais. Nem eles querem que eu seja eles. Mas também não é isso que me impede de ouvir constantemente um grito de angústia a ecoar-me nesta imensa sala da existência. Fracasso, desapontamento, e o cansaço de não saber se algum dia saberei ser como sonhei. E o tempo passa, cabrão do tempo, e os cabelos vão caindo, as vontades morrendo e a barba branqueando, e eu cá vou andando, com a memória carregadinha de estilhaços, alguns deles maravilhosos, mas estilhaços, pedaços que cabem numa caixa de sapatilhas e não cabem no coração. Bater de frente com a realidade da minha existência dói, inquieta e angustia. Por não estar onde eles estão, por não saber onde estou e por não saber para onde vou. Mas é precisamente a dor, a inquietação e a angústia que me estimulam na vivência do desconhecido. Por não estar onde eles estão, por não saber onde estou e por não saber para onde vou. O sonho é um lugar bonito onde estar. Mas, por vezes, não. E é aqui, Elis Regina, que te dou razão: viver é melhor que sonhar.

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o vazio da vida

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O vazio da vida é mais vazio, menos vida, ao domingo. Mais vazio, menos vida ainda, hoje. As ruas desertas, as nuvens estendidas, as pessoas fechadas, os astros alinham-se para um recolher interno obrigatório onde apenas estamos nós com o nosso silêncio, que é o nosso ruído, e os nossos fantasmas. E é quando nos recolhemos em nós próprios que damos de caras com o pesado vazio que carregamos e que a vida carrega. O aconchego do sofá não se sente além do corpo, a alma – ou a mente ou o que for que nos faz sentir – deveria recostar-se e aproveitar a incontrolável e inevitável inércia da vida, mas só se agita, só se inquieta, só se torna mais só e, por mais só, mais nossa, mais grita e mais nós a ouvimos. E ouvi-la, que é ouvir quem a tem, que somos nós, é abrir as portas ao vazio. Julgamos ser tudo, somos tudo, e, por julgarmos e por sermos tudo, não sabemos lidar com o nada que também nos existe. O confronto dói porque é raro, porque, sempre que ele nos espreita, nós ignoramo-lo e vamos fazer a nossa vidinha das nove às cinco, tomamos o café que não saboreamos, assistimos ao jogo que não nos interessa, falamos com as pessoas que não nos questionam, comemos a sopa que não nos sabe a nada, vemos o episódio que não nos estimula e vamos para a cama que nos adormece. A espuma dos dias afasta-nos do vazio, mas também nos aproxima dele. Porque, quanto mais o evitarmos, maior ele se torna quando, inevitalmente, ele nos aparecer. Como hoje. Aconchega-se, desaconchega-nos e fica, não foge, até nos adormecer.

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não és tu, sou eu

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Não és tu, sou eu. Entendes, mundo? Tudo o que me magoa está cá dentro, não aí fora. Tu não tens nada que ver com isto. Tu existes com as tuas pessoas, as tuas ruas, os teus rios, as tuas auroras boreais, os teus sismos, os teus vírus, por aí fora. Eu é que, por vezes, não sempre, não consigo existir com as pessoas, as ruas, os rios, as auroras boreais, os sismos, os vírus e por aí fora que eu tenho por aqui dentro, que, na verdade, eu sou. Não és tu, mundo. Nada tens que ver com as minhas euforias nem com as minhas quedas para melancolias. Nada, sou eu, está tudo em mim. Tudo o que amo e tudo o que odeio está em mim. E eu preciso de saber lidar com isso, e isso sou eu. Quando digo a alguma pessoa que a amo ou quando mando alguém para o caralho, estou, apenas, a projectar coisas lindas ou merdas que vão cá dentro. Amo o outro, odeio o outro, amo-me, odeio-me. Acho que é assim que funciona. E funciona lindamente quando é o ódio a mandar. A culpa não é dos pretos nem do trânsito, não é dos chineses nem do tempo, a culpa não é de nada nem de ninguém. Sendo, talvez seja nossa, que a inventamos para podermos justificar comportamentos que não têm justificação, e cuja causa não queremos destapar. Não queremos saber o porquê de odiarmos. Nem sequer queremos saber o quê ou quem odiamos. É ódio e pronto, nada mais interessa. O que eu acho, e eu não tenho qualquer autoridade para atribuir valor ao que eu acho, é que nós vivemos para os outros um pouco como espelhos de nós mesmos. E que a sujidade das palavras, os dentes cerrados e a saliva a espumar na boca são meros reflexos do que se passa dentro de cada um de nós. Não és só tu, também sou eu.

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da cegueira (da estupidez)

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Eu tenho uma almofada. É uma almofada. É mesmo uma almofada. Não há dúvida nenhuma. Vem uma pessoa e diz que aquela almofada não é uma almofada, mas sim uma carrinha de caixa aberta. Atenção, é uma almofada, mas a pessoa diz que é uma carrinha de caixa aberta. Como é que eu convenço a pessoa de que a almofada é uma almofada e não uma carrinha de caixa aberta? Eu mostro-lhe a almofada, a pessoa não é cega, a pessoa vê que é uma almofada, vê que é um objecto fofinho, uma espécie de saco estofado para assento, para encosto da cabeça ou para fins decorativos, é uma almofada, caraças, não há dúvida nenhuma de que é uma almofada. Mas aquela pessoa, vendo uma almofada, diz que é uma carrinha de caixa aberta. Como é que se discute, como é que se debate, como é que se conversa com uma pessoa destas? Pronto, é assim que me sinto sempre que me aparece um idiota xenófobo, homofóbico, racista, machista, anti-máscara (em separado ou acumulando, tanto faz) à frente. Não consigo. É difícil. É impossível debater, discutir, conversar com pessoas que são paredes. Mesmo assim, continuo a achar que é debatendo, discutindo, conversando e, essencialmente, deixando que esta gente debata, discuta e converse para que todas as pessoas que olham para uma almofada e vêem uma almofada saibam quem é esta gente que não é cega, mas que é cega e tenta cegar os outros através da estupidez.

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todas as coisas maravilhosas

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Vi a minha vida dita por ele. Vi eu e toda a gente, que toda a gente sente o que se disse, se cantou, se ouviu, se chorou. Se não fosse verdade, bonita e feia como deve ser, alegre e triste como se vê, não teria chorado com vontade, e eu chorei, toda a gente chorou. Porquê? E riu, que a vida é bela e tem canções, pessoas aos trambolhões, gelados! Mas chorou, que a vida dela era depressões, pessoa às desilusões por todos os lados. Esta peça – que não é peça, que é teatro e que, por isso, é vida – sou eu, também. Já alguém ponderou a morte? Decidida. Sou forte, por sorte ainda ninguém disse é a vida, morreu. E a felicidade, doutor? Será ela verdade? Nunca lhe tive vontade, só horror, temor, terror, nem amor. Serei alguma vez o que escrevi? Coisas maravilhosas que acho da vida, que vi, toquei, cheirei, comi, mas que, em papel, não existem… Nem sei qual é o meu, nem sei sequer quem sou eu, não quero ser dos que desistem. Não sou. Por isso, vou. E o meu cão também lá estava, centro da vida, vida que escava, e escavei eu, ainda escavo, ao ouvir o Palma e a Regina e tudo o que… Bravo! Bravo! Aplausos de toda a gente a toda a gente que viu a vida dita por ele. Disse a minha, também. Ali, inteiramente sozinha. Sem. Querida, bondosa, moída, chorosa. Que ela não desista, que nela há uma lista com esta peça – que não é peça, que é teatro e que, por isso, é vida -, coisa maravilhosa.

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voltar ao que ainda tenho

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Voltar a Lisboa, mesmo que por brevidades, é voltar ao que ainda tenho escondido debaixo do tapete das vontades. É dar de caras com fantasmas que ainda existem, dormindo, e, devagarinho, dizer-lhes acordem, acordem, vamos brincar àquele jogo do chorando e rindo, combater memórias como se fosse dança, ir ao chão como nas histórias sem vitórias, sem vingança. Criança que me sinto neste parque infantil do terror, do medo, da culpa, do amor e do ciúme. De tudo o que há de certo e de errado, que este aperto é como lume, e eu queimado. Voltar a Lisboa é ir por um caminho sujo com destino à luz clarinha, ao céu, ao rio quase mar. Mas ainda volto devagarinho, que esta dor ainda é minha, e ainda me custa voltar.

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estar longe

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Há um grande equívoco nisto do vírus: a promoção do distanciamento social. Um engano. Não é o distanciamento social que devemos incentivar, pedir, desejar até. É o distanciamento físico. Físico. Devemos evitar a aproximação de corpos, sim, não a aproximação de conversas, ideias, discussões, carinhos, preocupações, vontades. Os cartazes de rua e as manchetes de jornal não deveriam obrigar ao afastamento social, mas sim à aproximação social. O afastamento de mãos, de braços, de bocas, sim, tudo bem, que é isso que, de facto, transmite o vírus. O afastamento de tudo o resto que há além disso, não, que é tudo o resto que há além disso que transmite o que somos. Acho mesmo que deveria haver, ao contrário da errada medida que é imposta, um incentivo à aproximação social. Nunca, aliás, foi tão necessário, tão indispensável, tão essencial aproximarmo-nos uns dos outros. Estamos longe, caraças, cada vez mais longe. E claro que não falo da aproximação de peles, que isso é o menos importante quando nos tocamos. Distanciamento físico de dois metros, aceito, distanciamento social de menos dois, a ponto de, não só tocarmos, mas entrarmos no outro, irmos lá dentro, sem tocar, e falar, perguntar, ouvir, acariciar e existir, quero. Aproximemo-nos socialmente, mesmo sem tocar, que o vírus só nos afasta dos corpos, não daquilo que temos dentro, e que nos faz ser. E sonhar.

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não consigo a vida

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Preciso de ajuda, assim não consigo a vida. Há quase três anos que disse estas palavras, por esta ordem, com esta boca. Preciso de ajuda, assim não consigo a vida. Nem ver, nem ouvir, nem tocar, nem brincar, nem sorrir, nem estar, nem ser. A vida, não conseguia a vida. Ela mesma, eu próprio. A sala de consultório sempre me intimidou um pouco. O silêncio, as estantes carregadas de livros, os cadeirões ao fundo, junto à janela. Pouco a pouco, fui deixando de dar por ela – como se fosse ela o que eu sou. Nela, ou em mim, fui dizendo palavras que eram palavras, crenças e fantasmas. Na penumbra dela, ou na escuridão de mim, dei-me a mão e permiti-me entrar, mexer, escavar, cheirar, tocar, lutar, provar, cuspir, engolir, morder, gritar. Não tem sido uma maravilha, não, mas tem sido uma descoberta, de porta aberta, pela ilha que eu sou, em que me tornei. Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que vou, isso sei. Mais nada. Tenho, ainda, muita lama nos meus pés, muita merda que me chama e me seduz a ser errado. Mas também acho que tenho, que estranho, coisas bonitas em todo o lado. E é o que me faz continuar, saber que eu posso ser quem quero ser, sabendo, primeiro, o que me há no interior – e o que é isto do querer. Acho que há amor. É só voltar a aprender.

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passos em volta

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A poesia tem forma. Braços, bocas, pernas, costelas, línguas, pés, cabelos, dentes. A poesia tem forma. E transforma e transgride e transporta a vida para as veias e vozes e vazios de quem a morde, trinca, saboreia e engole. O Herberto Helder fez poesia. O João, o Duarte, o David e a Beatriz deram-lhe forma. Materializaram-na, deram-lhe um corpo que ela usou que era o seu mas que não era. Era dela, claramente. Às escuras, aos saltos, às danças, às merdas puras que têm só quem sente. O João foi riso e verdade. O Duarte foi corpo, arte e loucura. O David foi puta, crueldade. A Beatriz foi, mesmo calada, apenas dançando sem voz, o grito aflitivo do nada, a vida quieta dançada, foi todos nós. Só agora voltei a ter respiração. Sinto que estive morto a viver. Quieto, no meu lugar. Corre-me o coração. A poesia também é ser. A forma é o seu estar.

“Passos em Volta”, encenação de João Garcia Miguel.

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dá a patinha

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Quando veio, ficou. Pequenino, aos pulos, comigo. Correu, sorriu, brincou, entristeceu, ganiu e agora voou, e eu perdi um amigo. O Freud estava velhinho. Já mal se mexia, gemia, e já não sabia ser cão. No último dia, foi ninho. Foi ele que nos deu carinho, nos olhou devagarinho e nos lambeu o coração. Ele tinha o dele de criança, de puto reguila, velho teimoso. O coração também se cansa. O dele, maior do que a pança, deixou-nos o tempo-lembrança, deixou-nos o rosto chuvoso. Resta a alegria que tinha, que dava aos outros e aos seus. O resto é vida sozinha. Amor, dá a patinha. Senta, deita… adeus.

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só de olhos fechados

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Deveria haver um Tinder só connosco. Com mais ninguém. Só nós mesmos. Nem outras mulheres, nem outros homens. Só a mulher ou o homem que nós somos, que cada um de nós é. Cada um, por inteiro, embora partido – só está aqui quem está partido – à procura de si mesmo. Não à procura de alguém para uma foda, mas à procura de alguém – que somos nós – para uma conchinha. Seria tudo, e o tudo, pelo pouco que nos temos dado, poderia ser tão pouco como um tanto de um olá, de um sorriso ou de um olhar. Não precisamos de muito mais quando o que nos damos é tão menos. Haveria uma app, igualzinha à outra, mas invertida, mas obrigatória, com pesquisa imediata. A distância máxima seria a mínima, a localização seria aqui, cá dentro. Em loop, apenas nós. André, 35 anos, a 0km daqui. Fotos em tronco nu, fotos com um gato e fotos a realçar os olhos azuis. Mas todas a preto, sem se verem o tronco, o gato nem os olhos. Só faríamos swipe right se estivéssemos dispostos a ver o escuro. Só haveria match se estivéssemos dispostos a ver o escuro além do escuro. Apesar de tudo o que envolve um primeiro encontro – da ilusão ao medo, do prazer à queda. Um blind date de realidade – que só de olhos fechados nos conseguimos olhar, tocar e ser. Com verdade.

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o gustavo

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Um dos meus melhores amigos fez anos hoje. Vim a casa dele beber cerveja e comer pizza. Vi o Benfica. Falámos da infância e regressei a ela quando, puxado pela lembrança, brinquei com o Gustavo e fui novamente criança. O Gustavo é filho do Cacola, um dos meus melhores amigos, desde os bibes amarelos às barbas brancas que agora temos. E vivemos. Durante tanto tempo que parece perto mas que é afastado. Deitei-me no chão com um Capitão América. O Gustavo tinha, e era, o Homem-Aranha. Tudo real, tudo inventado. Combatemos vilões, salvámos o mundo, e eu recordei corações que tinha lá no fundo.

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o esquecimento

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Não nos ensinaram o esquecimento. Nem os professores, nem os pais, nem os amores. Só os ais que vamos berrando enquanto a vida nos vai mostrando o que é a vida. Ora coisa lembrada, ora coisa esquecida. E, num instante, durante, somos nada. Esquecemos. Deixamos de lembrar. Queimamos o que aprendemos, sabemos, conhecemos, não por nossa vontade, mas pela triste fatalidade do deixarmos de estar. O meu tio esqueceu. Não sabe quem é ninguém – parece, não sabe quem sou eu – esquece. No lar, refém da cadeira e da vida, já não tem a brincadeira que tinha antes da despedida. Não tem olhar no olhar nem estado na forma de estar. Está assim, parado, pertinho do fim de ter estado. E eu olho para ele, do lado de fora, vejo uma espécie de frio, vejo e não vejo o meu tio, ele está mas já foi embora. O meu tio esqueceu. Não é dele este lamento. Lembra pouco, talvez demasiado, o que viveu, e sofrem outros como eu por não lhes terem ensinado o esquecimento. São lamentos meus, não do meu tio. Digo-lhe adeus do portão. Ele sorriu. Também o meu coração.

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sopa

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Desde criança que sou fiel ao artigo 1.º da Constituição da República das Crianças, alínea a) que diz que “toda a criança tem o dever humano, cívico e patriótico de odiar sopa”. Agora adulto, embora ainda criança, sou capaz de cometer o (maravilhoso) crime de adorar uma sopa da pedra, mas só. Continuo fiel ao André criança quando era criança. E, nesse tempo, fiel ao manual imaginário, rejeitava qualquer tentativa maternal dessa tortura chamada comer a sopa. Olhava o prato, cheio, sempre cheio, o sacana do prato, e evitava a colher, a de sopa junto ao prato, a de pau junto à mãe. E resmungava. A sopa está muito quente, está muito fria, está muito sopa. E, enquanto ganhava tempo para a fatalidade da ingestão de batata e legumes esmigalhados com água, olhava o admirável voo da mosca que, todas as noites, me sobrevoava a cabeça a gozar comigo ou a incentivar-me ao cumprimento da lei inventada. Eu lá ia perdendo infinitos com asas nos olhos e a minha mãe lá ia perdendo paciência com a colher nas mãos. E, no fim, apesar da minha luta pelo respeito ao mandamento irreal, perdia eu e perdia o prato, que perdia a sopa que lá tinha. E eu ali, derrotado, triste, desolado, mas de punho em riste para a próxima batalha na cozinha.

(eu contei isto tudo à Maria Carvão ® e ela fez esta coisa bonita)

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irmão coração

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Amanhã vou aprender as letras, tenho medo de não conseguir, dizia eu. Amanhã vou aprender as letras, estou tão entusiasmado, dizia ele. O meu irmão sempre olhou a vida de joelho levantado, pronto a correr com ela – ou contra ela, se fosse preciso. Eu não. Preso ao chão, indeciso, braços fechados e olhar escondido (embora nunca fechado), sempre olhei a vida desconfiado. Mas fui mudando, pouquinho sozinho, mas tanto com ele ao lado. Não deixei de ser o que era no epicentro, mas comecei a ter coragem para ser o que não era e queria ser por dentro. O meu irmão trouxe-me as pernas do sonho, o arranque do desconhecido, a coragem do coração. Eu, sem ele, escondido, continuaria a ser o que era, sonhando, desconhecendo e amando, mas sem o amor – que é o impulso da vida passando – que tenho pelo meu irmão.

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é o improviso a acontecer

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Lembro-me de ser pequenino e de ter, pequenino, vontade de ser maior, de ter, fazer, olhar, criar amor – qualquer coisa que fizesse os outros felizes por instantes que, nisto da felicidade, os deslizes são constantes e o imprevisto tanto anima como entristece. E eu, desde pequenino, improvisava, e procurava ser acima para ajudar, estar do lado deste não-estado para estar. Sempre tentei ver de fora para ver, atento e espantado com o tempo passado a correr. Ajudando. E acho que tenho ajudado, mas a verdade é que fica tarde e eu vou estando posto de lado. De fora, consigo ver, mas é de dentro que preciso ser, maior. É o improviso a acontecer, amor.

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o recreio sempre foi

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O recreio sempre foi o lugar dos sonhos. Atrás das casinhas que eram salas de aula, sonhava-se como as crianças devem sonhar, vivendo o que sonham. A minha vida, naquele recreio, foi quase sempre a de camisola dez do Benfica, de Luz cheia até ao terceiro anel e de bolas no ângulo. Agora, estão as bolas no chão e os sonhos não estão. Tomaram lugar as lembranças de quando, mais do que sonhos, éramos crianças.

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havia aqui um escorrega

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Havia aqui um escorrega gigante que demorava seis meses a subir e cinco segundos a descer, ora sentado ora em pé, a correr, para os mais fortes e corajosos e completamente loucos. Cheguei a ser tudo isso graças a esse topo do mundo feito de ferro. Havia aqui um baloiço onde eu me lançava ao céu de pernas esticadas e a tremer. Havia aqui muros riscados a pedaços de tijolo para o jogo do três em linha. Havia aqui barrocas para os berlindes, os abafadores e as pitoninhas. Havia aqui uma pista de alta tecnologia manual onde se faziam corridas de caricas. Havia aqui bicicletas que subiam e desciam e joelhos que esfolavam e rabos que raspavam na radical descida dos skates. Havia aqui infância pura sem futuros e com cheiro a eucalipto e a leite achocolatado dos Tempos Livres. Havia aqui eu. E ainda há. Nada se perdeu, especialmente tudo o que já não está.

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feitos de escuro

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Somos seres feitos de escuro. Seres sós. Os tecidos, os órgãos e os sistemas do nosso corpo são apenas coisa irrelevante que nos limita o constante do futuro, não são nós.

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parece que a escuridão

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Às vezes, parece que a escuridão ganha forma de rosto – como se a emoção fosse o oposto do que se deveria ver, nada, vazio, escuro, ausência, bruma, coisa nenhuma. Mas vejo o rosto que ganha forma na escuridão, não sendo rosto, não sendo. Não. Não é rosto, nem sequer escuridão. É espelho meu, espelho meu, o rosto sou eu, o resto é ilusão.

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cão outono

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É Verão, e o meu cão Outono. Calor cá fora, e ele, devagarinho, passo a passinho, olha o seu dono com outro olhar. Olha mais perto por estar mais perto de acabar. E lentamente, olha a gente que o sente, que o lembra arrebitado, e ele olha de volta e volta para a volta que o mantém acordado. E eu não cedo perante a tristeza. Tenho medo, mas tenho a certeza da sua felicidade. Também a minha de o lembrar, de o ver olhar apesar dos pesares da idade. É Verão, e o meu cão é Outono. Ão ão, dá a patinha ao dono.

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ela à minha espera

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Três dias depois, regressei a casa. Não foi tempo nenhum, mas foi tempo suficiente para estar ausente ela à minha espera. Esteve o dia inteiro a pensar na melhor forma de me dizer saudades e de se mostrar contente, feliz, eufórica por me voltar a ver – mesmo que por apenas três dias ausente. Foi buscar os meus dois livros e uma das minhas pulseiras. Foi buscar um boneco do Benfica. Foi buscar o senhor Alfredo, tão importante para mim como para ela, tão família minha como família dela – foi ele, este homem de bigode muito parecido com uma marioneta, que lhe alegrava todas as noites de um ano quando ela era pequenina, quando me ligava em videochamada, não para falar comigo, mas com o senhor Alfredo que, todas as noites de um ano quando ela era pequenina, falava com ela com a inocência de um homem do campo que a fazia rir e estar atenta e rir e perguntar e rir e falar e rir e, acima de tudo, acreditar. Escreveu-me que eu era fixe e escreveu o que o Vitorino lhe disse para mim. Escreveu-me um desenho e escreveu-me um poema. Recebeu-me assim, com a vontade mais pura e inocente de me agradar. E eu, chegando, deixei-me abraçar. Mas, acima de tudo, acreditar.

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levado pela corrente

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Senti-me mais perto quando me afastei. Custou o frio da água, mas nada mais. Olhei o longe e mergulhei, como se tivesse entrado na primeira dimensão da nossa vida, na placenta da mãe, desta vez, porém, na placenta de mim mesmo. Nadei até onde consegui e parei. Emergi. Fiz-me pesado para cair – o peso leva-me ao fundo – para ver se tinha pé. Deixei-me ir, queria tocar o mundo, mas vi que não era no fundo que ele estava. Deixei-me levar, fosse o que fosse, e vi-me a boiar. Boiava, e o mar salgado fez-se doce e eu fiz-me parte do mar. Senti-me mais perto quando me afastei. Mais perto de mim, afastado da gente. Mergulhei sem um fim, e deixei-me assim, levado pela corrente.

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solidão, uma proposta curricular

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A solidão devia ser ensinada na escola. Devia ser uma disciplina, mas das obrigatórias, como Português e Matemática. Talvez até mais obrigatória do que essas. Não, de certeza mais obrigatória do que essas. Antes da primeira letra ou do primeiro número, já o nosso peito fez as contas ao aeiou da solidão. E ela vai-nos existindo ao longo da vida, especialmente em épocas de recurso. Mas sem qualquer ensinamento. Sem nenhum dicionário nem tabuada do ratinho que nos ajude a lidar com ela – uma espécie de tabuada do um, na sua primeira multiplicação, sempre um vezes um, até decorarmos que, de facto, um vez um é mesmo um e que tudo o resto é elevado a ilusão.

A solidão devia ser ensinada na escola. Um módulo em cada semestre: Solidão – Introdução ao Estar Sozinho; Solidão – Ser Sozinho Não é Não Ser; Solidão – Estudo do Meio; Física e Química da Solidão; Educação Visual para Dentro; Educação Física da Memória; Língua Estrangeira I, II ou III (Loneliness, Soledad ou Einsamkeit), e por aí fora. Estas disciplinas seriam leccionadas em pouquíssimo tempo e com um único aluno por turma, no meio de uma única sala, para o aluno se habituar rapidamente ao mercado de trabalho. E sem teoria que, na solidão, a teoria já é prática. Os exames seriam no final de cada aula, sem consulta nem acesso a calculadora (para evitar ser acompanhado por cábulas) e não assim de repente, como nos acontecem ao longo da existência, logo depois de uma qualquer maravilha no recreio. Não devia ser assim. É que nem sequer somos avisados com uma semana de antecedência. Hoje há exame, André. Mas eu nem sequer estudei. Tens ali aquela mesa no meio da sala. Mas… e quanto tempo tenho? O tempo que tu quiseres. A princípio, pode parecer que vai durar uma eternidade mas, se te esforçares, pode ser que dure menos, meia eternidade, vá. E lá vai o aluno, eu, nós, para aquela cadeira sozinha em frente à mesa sozinha numa sala sozinha com um exame cheio de respostas de escolha múltipla, muitas de escolha nenhuma, e nenhuma certa.

Precisamos aprender a solidão. Mesmo que demoremos a outra metade da eternidade a preencher o enunciado da folha de exame – a tentar lembrarmo-nos de quem somos.

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o peso do medo

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Serei a única pessoa com medo? com dúvidas do que faz e do que pensa e do que sente e do que tudo? A única a tomar anti-depressivos, três por dia, por vezes quatro e cinco, e a ter consultas de psicoterapia e psiquiatria para tentar lidar com este escuro? a acordar com manadas de angústia e incerteza no peito todo? a chorar tantas vezes por medo de errar, de ter errado, de não ter força nem esperança nem casa nem família nem filhos nem dinheiro nem sucesso nem colo nem amor nem paz nem ninho? a ter fobia a multidões e atracção por gentes sozinhas que mais sozinhas a deixam? a sentir-se culpada por pouca ou nenhuma ou partilhada culpa que tenha havido em algum momento em algum lugar? a culpar os pensamentos? a desculpar a culpa? a preocupar-se com o que pensam os outros de si, do que faz, do que veste, do que sente, do que beija? a não conseguir dormir por culpa dos fantasmas cá de dentro? a rir para os muitos e a chorar aos muitos só para si só para não dar parte fraca porque a parte fraca é forte forte forte como a certeza de que, um dia, qualquer dia será morte? a precisar constantemente de aprovação externa porque a interna é um grande xis vermelho carregado pela ausência de confiança? a lembrar o passado só com a inglória e dolorosa e vã vontade de o mudar? a sentir-se irrelevante no viciado e sujo curso do mundo? a ter tanto aos olhos dos outros sem razão para sentir isto? O que é isto? a ter ataques de pânico pelo sofrimento do outro e pela expectativa do sofrimento do outro outro que sou eu? a ter medo de falhar a própria vida?

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o fernando

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Hoje, reencontrei o Fernando. O Fernando foi meu treinador no clube do meu coração, e é no meu coração que está o Fernando. Eu era o número 7, o médio centro criativo, o pacemaker (o mesmo que playmaker mas na linguagem especializada do Mister), o marcador de cantos, o distribuidor de jogo, o médio que fazia o bico do triângulo quando jogava o Edi e o Caldeira. Durante cinco épocas, de iniciados a juniores, o Fernando foi mais do que meu treinador. Foi meu líder, foi meu companheiro, foi meu amigo. E nunca foi o que foi porque me punha a titular ou porque me dava a responsabilidade dos penáltis, dos cantos e de falar no primeiro treino depois do jogo – o futebol, na verdade, nunca foi o mais importante. O Fernando foi o que foi e o que ainda é por ter sido um dos grandes pilares da minha vida. Foi o meu professor da bola, ensinando-me bem mais de vida do que de escola, bem mais de amizade do que de bola. Tanto recebi raspanetes como abraços, pré-épocas loucas nas dunas da praia da Vieira como jantaradas de comer e chorar a rir. Tanta coisa boa que lá vai. Tanta coisa boa que me fez do Fernando uma espécie de segundo pai. Não é exagero nenhum o que escrevo – muito do que sou é a ele que eu devo. O Fernando é, acima de qualquer táctica, um homem bom, com coração escondido atrás da barba e do boné que lhe escondem a criança que ainda é. O Fernando fez de mim um homem. E de tantos que nunca deixou para trás. Nunca. Levantou-os, tantas vezes do seu próprio bolso e todas as vezes do seu próprio amor. Hoje, reencontrei o Fernando. Quase chorou por me voltar a ver e me saber bem. Quase chorei também, vendo, ouvindo, lembrando – uma espécie de golo do coração. E é no meu coração que está o Fernando.

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