não são só
As palavras não são só palavras. Mas as palavras que nos têm dito parecem ser. As palavras que as entidades responsáveis (Governo, IPMA, Câmaras, Comunicação Social e outras) nos têm dito são palavras praticamente inúteis. Palavras como calamidade a toda a hora tiram o peso da palavra calamidade quando ela é. Palavras como chuva intensa ou vento forte querem dizer absolutamente nada quando a intensidade e a força são relativas e apenas existentes em comparação. Palavras como volume de chuva de 10mm ou rajadas de vento a 100km/h são palavras que não têm qualquer utilidade para quem não é estudioso do volume da chuva nem das rajadas do vento. As palavras, nestes momentos, especialmente nestes momentos, devem servir para esclarecer, não para alarmar. Eu ficaria esclarecido se, em vez de me dizerem que a chuva terá um volume de 10mm, me dissessem que vai chover mais do que ontem. Ou menos. O mesmo para as rajadas de vento. Poderia comparar, poderia prevenir-me, poderia agir de acordo com a realidade. Eu sei lá calcular volumes ou rajadas. Eu sei lá o que são 10mm ou 100km/h. Isto é uma realidade que eu desconheço. Eu e tantas pessoas. As pessoas não querem folhas de excel nem teses de doutoramento de estudiosos de gabinete. As pessoas querem palavras que lhes digam o que se passa, com as palavras que elas conhecem. Mas continuam as palavras calamidade, volume e rajadas que, em vez de dizerem, ocultam, escondem e provocam ainda mais alerta, ansiedade e medo – estas palavras já conhecemos bem. As palavras não são só palavras.
mais feio
Tenho medo e não sei se o deva dizer. Mas digo na mesma. Por ter. Pode ser egoísmo à procura de algum consolo noutras palavras que não as minhas, mas tenho. Não quero alarmar ao dizer que tenho medo desta chuva e deste vento que aí vêm esta noite. É só chuva intensa e vento forte – não se compara com o que já veio, acho eu. Mas agora tudo parece perto da morte, muito mais feio. E eu. Tenho medo e não sei se o deva dizer. Talvez acredite que, ao dizê-lo, eu deixe de o ter.
tentativa de crime
Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, votou André Ventura. Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, não foi neutro, foi cúmplice de uma tentativa de assassinato da liberdade. E os cúmplices também são culpados. O André Ventura perdeu, mas a maioria queria que ele ganhasse. Isso é tentativa de crime. E tentativa de crime é crime.
quando tenho medo
Quando tenho medo, como agora, volto ao tempo em que julgava que não tinha. Esse tempo tinha muitas coisas bonitas que, hoje, são ainda mais bonitas – manias da memória. Uma delas é o MTV Unplugged, dos Nirvana. Estou a ouvi-lo desde que cheguei. Leva-me para lá, para esse tempo onde o medo era tão pequenino, para mim inexistente, comparado com este que agora há. Constantemente. «I’d shiver the whole night through…»