adilson
A música é uma maravilha, quase tudo o resto é uma vergonha – guião, texto, cenografia, encenação e algumas interpretações. Mas a maravilha da música é batota – a orquestra, dominada pelo Martim Sousa Tavares, dá poder e cama às linhas melódicas das vozes, da guitarra e da percussão em palco. As vozes vão da rua ao lírico, falhando aqui e ali, como convém que o façam nesta peça que se quer de combate. As vozes Disney não fazem parte, mas também estiveram. O guião é fraco: previsível e chato. O texto é ridículo: diálogos pouco naturais, rimas forçadas e a explicação (preguiçosa) daquilo que os personagens pensam e sentem – um bom texto sugere, não explica. Os personagens são estereótipos abonecados: polícias maus, funcionárias públicas burocráticas, negros vítimas. Uma actriz interpreta um menino – a incoerência (bem clara) não é resolvida e causa ruído desnecessário. A cenografia é tralha: demasiados bancos, demasiados acessórios, demasiada informação no ecrã. A encenação é confusa: correria constante de personagens sem justificação, movimentações para preencher o palco e mudanças frequentes de cenários. O desperdício da música árabe do início é uma tristeza. Uma coisa assim tão bonita morrer assim que nasce – é triste não ter voltado e, por isso, é incompreensível ter existido. A multiculturalidade que prometia foi apenas uma promessa. Seguiu-se uma enxurrada de música africana (r&b, soul, afrobeat…) maravilhosa, mas assassina do tal mundo que a primeira música sugeria para a história. O fim, com o verdadeiro Adilson a dançar trinta segundos, revela mais sentido e simbolismo do que tudo até ali. A peça começa bem e acaba bem; pelo meio, é oca: previsível, anedótica, noveleira, estereotipada e superficial – uma má revista mal resolvida com pretensões filosóficas. Uma vergonha. Valha-nos a música.
ADILSON, de Dino D’Santiago.