não são só
As palavras não são só palavras. Mas as palavras que nos têm dito parecem ser. As palavras que as entidades responsáveis (Governo, IPMA, Câmaras, Comunicação Social e outras) nos têm dito são palavras praticamente inúteis. Palavras como calamidade a toda a hora tiram o peso da palavra calamidade quando ela é. Palavras como chuva intensa ou vento forte querem dizer absolutamente nada quando a intensidade e a força são relativas e apenas existentes em comparação. Palavras como volume de chuva de 10mm ou rajadas de vento a 100km/h são palavras que não têm qualquer utilidade para quem não é estudioso do volume da chuva nem das rajadas do vento. As palavras, nestes momentos, especialmente nestes momentos, devem servir para esclarecer, não para alarmar. Eu ficaria esclarecido se, em vez de me dizerem que a chuva terá um volume de 10mm, me dissessem que vai chover mais do que ontem. Ou menos. O mesmo para as rajadas de vento. Poderia comparar, poderia prevenir-me, poderia agir de acordo com a realidade. Eu sei lá calcular volumes ou rajadas. Eu sei lá o que são 10mm ou 100km/h. Isto é uma realidade que eu desconheço. Eu e tantas pessoas. As pessoas não querem folhas de excel nem teses de doutoramento de estudiosos de gabinete. As pessoas querem palavras que lhes digam o que se passa, com as palavras que elas conhecem. Mas continuam as palavras calamidade, volume e rajadas que, em vez de dizerem, ocultam, escondem e provocam ainda mais alerta, ansiedade e medo – estas palavras já conhecemos bem. As palavras não são só palavras.