os crentes mais crentes
Os crentes mais crentes que eu conheço são os que mais parecem longe da sua crença: são os que menos amam, os que mais mordem, os que menos perdoam, os que mais prometem vingança. Os crentes mais crentes que eu conheço já me disseram «era bem feito teres cancro para sentires o sofrimento de quem tem fé», «deverias ficar contente por ter sido o teu amigo a morrer e não tu», «não sei que justificação Deus encontrou para tu existires», entre outros mimos. Tudo veio das bocas limpas e puras desses crentes mais crentes que eu conheço. No entanto, estes crentes mais crentes apenas parecem longe da sua crença. Na verdade, são eles os que mais estão perto dela. Precisamente pelos mimos, pela cegueira, pela devoção à doutrina e pelo desprezo ao homem. E isso não faz com que eu os condene enquanto crentes; pelo contrário, até faz com que os aplauda. Eles fazem o que têm de fazer. Porque eles são leais à sua crença. Os outros crentes não tão crentes não são leais a nada: nem à crença nem à não-crença. Vivem uma crença não tão crente, como se a sua crença, que é a crença de todos os que a ela pertencem, apenas fosse deles quando lhes dá jeito. Estes crentes não tão crentes são os que deixam andar, os que se abstêm, os que dizem e fazem que sim mas só quando não os magoa, os que deixam magoar os outros, os que viram a cara quando os outros vão no esquadrão, os que se ajoelham quando o desespero acorda. Os crentes não tão crentes não têm crença alguma – nem a ausência dela; os crentes mais crentes que eu conheço são os que mais estão perto da sua – que, para bem deles e para mal de todos nós, deveria ser a de todos eles.