a vizinha dos meus pais
Ter morrido a vizinha dos meus pais foi ter morrido parte da vida da minha mãe. Sem a vizinha, a minha mãe perde quase duas vidas: a da vizinha e parte da sua, que era uma inteira, com ela. Ainda lá estão os coentros, os raminhos de salsa e as vidas dos outros, mas não está ela nem a vida dela nem elas – não estão as duas mulheres, não está a rotina, não está o bom dia, não está o que esteve durante tanto tempo e que fez da permanência vida. A permanência agora é outra e acabou de começar. Acabaram-se as vidas e talvez as vidas sejam formas de acabar.