2014, 18 de Dezembro
Comentários fechados em guerra
contos, preguiça magazine
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José Manuel Castro Feliciano ou Zé Manel para os amigos ou
Feliciano para os camaradas da caserna onde assentou praça e costados e balas e
bofetadas naquela guerra antiga mas real que lhe matou amigos no corpo e amigos
na cabeça, estes que morreram de cabeça foram os que morreram de verdade,
morreram estando vivos, morreram para eles e morreram para os outros que os
conheciam de outra forma que não desta que os faz estar enterrados nos lençóis,
com tiques nas mãos e comprimidos na mesa-de-cabeceira e na goela, coitados,
morreram e agora são outras pessoas, outros cidadãos, outros homens que não
nasceram do útero da mulher mas sim do ventre de uma guerra antiga mas real,
sacana da guerra, puta da guerra, guerra da guerra. Feliciano sobreviveu sem
maleitas no corpo nem na cabeça. Eu não. Esta história é sobre mim.
Eu
sou um tipo normal, chamam-me pelo nome e tenho para cima de muitos anos. Para
dizer a verdade, nem eu sei a minha idade, a memória já não é a melhor e o
cartão do cidadão já não o tenho, perdi-o quando andei à caça de leões ali no
pátio da velha com o filho deficiente em casa, coitadinho do puto que não tem
culpa nenhuma que deus lhe tenha dado mais baba do que aos outros, mas a vida é
mesmo assim, e lá está a velha a tomar conta do puto que não é puto, porque já
tem para cima de muitos anos, precisamente a minha idade, quem diria, digo eu
que estava à caça de leões ali no pátio da velha quando perdi o cartão do
cidadão e nunca mais o achei porque nunca mais o procurei, que se lixe o
cartão, que se lixe o cidadão que o que interessa é a nota, que se lixe quem eu
sou que o que interessa é a minha história.
Tudo
começou em mil novecentos e troca o passo, estava eu todo contente a emborcar
copos de água da torneira quando, por obra e graça do espírito santo, que é um
santo sem corpo e só com espírito, como diz o próprio nome, vi a melhor moça do
mundo, e eu digo moça e não digo gaja porque eu sou um gajo bem-educado, nossa
senhora de Fátima, meu deus do céu, que moça linda e afinada, com tudo no
sítio, tim tim por tim tim, nem mais um centímetro para baixo, para baixo, para
baixo, ai para baixo, nem menos um centímetro para cima, para cima, para cima,
ai para cima, que era mesmo para cima que eu estava a ir, não só na imaginação
como também na, na, na, na, até fico gago só de pensar. Mas tenho de continuar
que tenho uma história para contar.
Olhei
para ela e imaginei todas as coisas possíveis e impossíveis que lhe poderia
fazer, qualquer uma mais javarda do que a outra, mas em que havia eu de pensar?
Sou um homem, os homens têm este tique de levar tudo para lá e é para lá que eu
vou, deixo-me levar sem medos que a vida é para ser vivida e não podemos estar
a pôr barreiras à nossa imaginação, já nos bastam aquelas que nos põem na
comida e nos impostos, sacanas, que eu mato-os a todos, mas não posso. E fui.
Fui, pronto, que posso eu dizer? Fui, ela levou-me pela mão sem sequer se
mexer, estava quietinha, nem deu por mim, quase nunca ninguém dá, mas ela nem
sequer tocou com os olhos no meu corpo, nem com os olhos nem com nada, mas
pronto, e eu ali fiquei a imaginar tudo o que poderia fazer e refazer a uma
gaja, perdão, a uma moça, que nem sequer tinha conhecimento da minha
existência. Existência pobre, mas existência.
Estava
eu nestes preparos mentais quando, de um momento para o outro, sem quê nem para
quê, zás, a moça boa cai de boca no lancil do passeio. Pumba, escangalhou a
fronha toda. Só me apeteceu chorar, mas como sou um homem de barba rija e testa
grossa, não chorei. Fiquei ali especado, de olhos abertos e boca aberta. E ela
deitada, de cara espalmada no alcatrão. Que desperdício. Mas estranhei. Isto de
as moças caírem ao chão e não gritarem não é de moças, é de homens. Oh,
caraças, queres ver que esta moça bem boa afinal é um homem? Cruzes credo, xô
xô xô, brrr que me arrepiei todo, desde a ponta da espinha à ponta do sapatinho
de verniz que muito estimava na altura e muito estimo ainda hoje, engraxadinho
todos os sábados de manhã, sem falta, enquanto se grelha um peixinho-espada e a
minha Amélia aspira a sala.
Na
altura, já tinha Amélia, mas também tinha olhos, e foi por isso que vi a moça
boa que, afinal, tudo levava a crer que fosse um homem. Cheguei-me ao pé dela,
ou dele, e uma poça de vermelho começou a circundar-lhe a cabeça. Era sangue,
pois claro que era sangue, estou bem fodido, agora a moça morreu-me aqui à
minha frente, e só eu é que vi, parece que toda a gente desapareceu. E agora
estou aqui sozinho, acorde menina, acorde, parece mesmo uma menina, com um
corpinho tão bem feito e um rabinho tão empinado, nem sei como tive a coragem e
a estupidez de pensar que esta delícia dos deuses tinha pila e maçã-de-Adão.
Mas esta beleza não se mexia. Coitadinhos dos seios encostados ao chão,
coitadinhas das pernas rijinhas todas amarfanhadas de arranhões. Não te
apaixones agora, pá, que esta não é hora para um gajo se apaixonar, primeiro
porque a moça está morta, e depois porque, se por alguma razão, não estiver,
precisa de uma ambulância e não de um ramo de flores. Cedi à razão e gritei com
todas as forças da minha goela. Veio a ambulância. Perguntaram-me o que se
tinha passado, não soube responder e levaram-me com eles. Mais ninguém
apareceu. No mundo, só morava eu, aquele docinho escangalhado e os dois
toninhos da ambulância.
Fui com eles. O caminho era esguio e sinuoso. Batemos em pedras e caímos em buracos. Capotámos duas vezes e despistámo-nos seis. Quando chegámos ao destino, o Hospital Doutor de nome importante, a gaja já não era gaja e eu já não era eu. Só os toninhos da ambulância é que continuavam toninhos da ambulância, com as barrigas salientes e os bonés vermelhos estilo Robbialac. Eu era um mosquito e a moça era um mata-moscas. Zás. Matou-me e eu acordei de rajada. Sem ar, sem moça, sem ambulância, sem Amélia, sem nada. Foi tudo um sonho e eu não gosto de sonhos, cabrões dos sonhos, vêm mansinhos pela noite, escorregam-me pela nuca e enroscam-se bem cá dentro da mioleira, porra, que dor de cabeça. A culpa é do Feliciano, que tem amigos mortos da cabeça. Vou dançar.
Ilustração de João Pedro Coutinho
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