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antagonista, o nosso herói

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Mais do que de heróis, precisamos de vilões. E o mundo tem-nos dado alguns. De Herodes a Gengis Khan, de Calígula a Hitler, das segundas-feiras a qualquer árbitro de futebol, são muitos os antagonistas que se nos opõem. E isso não deixa de ser estranho.

O antagonista é aquele que se opõe a algo. Não tem de ser uma pessoa, não tem, sequer, de ser um ser. Pode ser uma ideia, pode ser uma emoção, pode ser o que for, desde que represente a força opositora contra a qual o protagonista tem de lutar. E esta luta protagonista vs. antagonista é uma luta de sempre, nascida da luta dicotómica que nos vai existindo ao longo da existência entre o bem e o mal.

Mas isto do bem e do mal existe verdadeiramente? E seremos nós protagonistas ou antagonistas? Estaremos confinados a tais definições? Existindo, sendo ou estando, há sempre um antagonista.

Na ficção, é ele a alavanca que faz o herói ser herói. O que seria do Batman sem o Joker? Qual seria a importância do homem-morcego se o palhaço não fosse tão complexo no poder que exerce? O Batman não seria tão herói se o Joker não fosse tão vilão. E, quem fala do Joker, fala do Darth Vader, do Hannibal Lecter, do Lex Luthor e de tantos outros.

“Quem luta contra nós reforça os nossos nervos e aguça as nossas habilidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda”. A frase é de Edmund Burke, filósofo e político emblemático do século XVIII, e reforça esta ideia: a de que o antagonista é essencial para o desenrolar da história que, no caso da realidade, se chama vida.

A vida está carregadinha deles. Os Estados Unidos, por exemplo, são exímios na arte da criação de vilões. Rússia, Iraque, Al Qaeda ou Estado Islâmico são apenas alguns do vasto leque que lhes permite manter-se como a maior potência mundial e líder do “mundo livre” – um estatuto que alcançou após um dos momentos mais sangrentos – e de maior desenvolvimento tecnológico – da História Mundial, a Segunda Grande Guerra. Aliás, os EUA não só investem na luta como também – e talvez essencialmente – na manutenção de um alvo a abater.

Ser herói per se não existe, ser herói sem vilão é ser não-herói. É o antagonista que faz o protagonista. Está escrito em todos os (bons) manuais de guionismo – “Numa história, deve ser o antagonista a comandar as operações. O protagonista apenas reage à acção do antagonista” – Robert McKee, um dos gurus da escrita de guião.

Talvez por isso o mundo gire tanto em torno do opositor, do mau, do vilão. Basta ligar a televisão e, mais do que explicações, procuramos culpados. Ter um antagonista declarado ajuda-nos a apontar armas a um alvo específico, tendo um objectivo. A ausência de objectivo deixa-nos ao deus dará. Precisamos do ódio para nos equilibrar o amor. Precisamos do não para nos equilibrar o sim. Precisamos desta certeza de equilíbrio universal.

E o universo português é paradigmático desta importância vital do antagonista. O nosso sangue melancólico talvez ajude, na medida em que nos coloca constantemente em situação de vítima perante o outro, seja ele o governo, o patrão, o árbitro ou a saudade. Não nos faltam antagonistas para combater. Só nos falta sermos heróis. É o nosso fado.

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a realidade e o golfinho

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“O novo bebé-golfinho do Zoomarine promete ser uma das principais atracções do Parque nos próximos tempos. Hoje, mostramos-lhe imagens exclusivas do seu nascimento”. Esta foi a última notícia de um bloco informativo num dos nossos canais de televisão.

A notícia do nascimento de um golfinho é um clássico dos telejornais portugueses. Depois das notícias que nos fazem ter vergonha do ser humano, eis que surge, como luzinha optimista ao fundo do túnel, a informação de que nasceu um golfinho.

Todos estamos a par do carácter jornalístico deste acontecimento e todos estamos a par da raridade deste fenómeno da natureza: o nascimento de um animal. E, por isso, devemos agradecer a todos os intervenientes: ao carácter, ao jornalismo, à raridade, ao fenómeno, à natureza e ao animal.

No entanto, o agradecimento que eu proponho é um agradecimento sincero, sem ironias. Saber do nascimento do golfinho ajuda-nos a lidar com esta coisa da realidade que, muitas vezes, nos envergonha. Esta notícia, não sendo notícia, funciona como uma almofada para a nossa sanidade. “Calma, o mundo não está assim tão mal. O Kim Jong-un está a brincar com mísseis e o Maduro está a torturar gente que não gosta dele, mas nasceu um golfinho! E é tão lindo”…

O golfinho é o airbag que a comunicação social nos dá sempre que batemos de frente com a realidade. E, quem diz golfinho, diz panda, foca, gato ou cão. E, quem diz realidade, diz apocalipse.

Eu digo que isto sempre aconteceu e que sempre vai acontecer. É vital que o ser humano tenha este escape à realidade que se lhe apresenta. Agora, faz sentido esse escape ser proporcionado por um meio de comunicação social cujo objectivo é, ou deveria ser, divulgar uma informação de interesse público? O nascimento de um golfinho é, sequer, uma informação de interesse público? Se sim, é almofada suficiente para nos proporcionar esse escape à realidade? Não faço ideia.

A verdade é que é interesse nosso não nos cingirmos a uma realidade onde se brinca com mísseis e se tortura gente. Essa realidade existe e deve ser encarada, mas há outras realidades que nos são urgentes para que possamos sobreviver com saúde mental. O nascimento do golfinho (ou do panda, da foca, do gato ou do cão) é uma delas. E isso é serviço público.

E não é de estranhar que estas notícias de fuga à realidade sejam, na sua grande maioria, sobre animais. Talvez por uma necessidade de aproximação à nossa origem, talvez por serem eles os representantes de uma pureza e ingenuidade que estamos a perder, talvez por outras razões que se relacionem com a nossa forma de relação com os outros.

“A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana”, disse Darwin. Talvez o jornalismo, cada vez mais criticado por ser uma montra da realidade violenta – tornando-nos apáticos e quase imunes à compaixão -, nos esteja a equilibrar a mente ao mostrar-nos que, afinal, ainda podemos sentir que o mundo não está assim tão mal.

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a felicidade do suicídio

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“Tristeza não tem fim, felicidade sim”. Lêem-se as palavras de Vinicius de Moraes e ouve-se a melodia de Tom Jobim. Da felicidade, porém, nem um sinal.

Definição de suicídio no Dicionário da Língua Portuguesa: “substantivo masculino| acto ou efeito de suicidar-se; tirar a própria vida”.

Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, suicidou-se este mês. Por ser figura pública, muito se falou sobre a sua morte e sobre as razões que o levaram a cometer tal acto. O músico parecia ter (e talvez tivesse) uma vida perfeita: sucesso profissional, família, amigos, fama e dinheiro. Para muitos, a definição de felicidade. Mas o que é isso da felicidade?

A felicidade é a cenoura à frente do burro. A sociedade é quem está em cima do burro a segurar na cenoura. Sobramos nós e o burro. A associação é lógica – não preciso de a dizer.

A cada instante, a sociedade acena-nos a cenoura com o objectivo de nos fazer salivar e ir atrás dela. No entanto, nunca a apanhamos. A cenoura continuará à frente dos nossos olhos, e nós sem lhe conseguirmos tocar. Compramos um telemóvel, mas há sempre um mais evoluído por ter. Conseguimos o melhor emprego, mas há sempre um que nos poderia dar um melhor salário. Conseguimos a mulher mais bonita, mas há sempre uma Mila Kunis no nosso raio de visão. A constante criação de felicidades vai formando um ciclo vicioso que se repete ad æternum.

Esta impossibilidade de alcance gera frustração. E a felicidade ali ao virar da esquina.

Mentira. Não está. Nunca está. E esta frustração de não estar bate mais forte no peito dos mais sensíveis, como os artistas, seres que escarafuncham as entranhas da sensibilidade. A maioria das pessoas reage a ponto de não se matar. A maioria. Não todas. O Chester matou-se. O Chris Cornell matou-se. Até a Marilyn Monroe se matou. Artistas.

Aliás, este “tirar a própria vida” acaba por, estando certo, estar errado. A vida, sendo nossa, não é nossa de verdade, na medida em que não a escolhemos. Não escolhemos nascer, não escolhemos o sítio onde nascemos, não escolhemos os nossos pais, não escolhemos as pessoas que nos rodeiam, não escolhemos a data nem a forma nem o local da nossa morte – pelo curso natural da vida. Temos outras escolhas ao longo da nossa existência, mas estas, as vitais, não partem da nossa vontade.

“Não podemos impedir o nosso nascimento: mas podemos corrigir esse erro (…) Quando um homem se suprime a si mesmo, ele faz a coisa mais digna de respeito. Quase conquista o direito a viver”. As palavras são de Nietzsche, o filósofo alemão que apregoava o amor à vida, mas que defendia o suicídio na altura exacta, “a morte livre, consciente, sem acaso”. Mas será que o suicídio é mesmo a única decisão livre que podemos tomar? Ou é apenas uma forma de fuga perante o vazio conceito da felicidade?

O suicídio talvez seja pregar uma partida à morte, não à vida. O suicídio talvez seja virar o tabuleiro do xadrez a meio do jogo. E agora, quem ganhou? Há, sequer, vitória quando ambos perdem?

Perdeu o Chester, o Chris (e até a Marilyn). O suicídio foi a única solução que eles encontraram para contrariar esta imposição (e ilusão) social chamada felicidade. A cenoura continua à nossa frente. E nós continuamos a olhar para ela. Salivamos, corremos, fracassamos e morremos.

“Tristeza não tem fim, felicidade” também não, porque nem chegou a ter princípio.

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emoji, coração líquido

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“Há palavras que nos beijam como se tivessem boca”. Lindo e verdade, O’Neill. Hoje, porém, além de palavras, há emojis. Há emojis que nos beijam como… Hum, não sei se isto faz sentido. Bauman, anda cá.

Esta semana, comemorou-se o Dia Mundial do Emoji, aquele bonequinho que existe online para transmitir coisas – emoções, também – às pessoas. Segundo dados oficiais do Facebook, só nesta rede social, são partilhados mais de 60 milhões de emojis diariamente. Pouca coisa, portanto. Não há estudos para o número de palavras partilhadas, mas a verdade é que o emoji está a crescer a olhos (com corações) vistos e a ganhar uma casa própria.

Quase parece que a palavra feita de letras está a ser derrotada – ou a sofrer um ataque de cócegas, vá – por um batalhão de bonequinhos amarelos. Hoje, “amo-te” diz-se com um emoji de um coração vermelhinho. Não é pior nem melhor do que “antigamente”, é diferente. É sinal dos tempos, e os tempos mudam num instante. O “antigamente” é o dia de ontem. Literalmente.

E é aqui que entra Zygmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco, que vem chamar ao tempo de hoje Modernidade Líquida – não mais do que um período de fluidez e vulnerabilidade das relações sociais. “Tudo o que era sólido se liquidificou”, tal como as palavras – coisas sólidas e cheias – andam a ser substituídas pelos emojis – coisas líquidas e esguias. As palavras dizem, os emojis dão a entender. As palavras vão, os emojis ficam a meio caminho.

Esta necessidade de não-apego ao outro (por necessidade de contacto constante com todos) talvez seja o motivo para o uso cada vez maior de símbolos “leves” que não comprometem nem afastam, que não beijam nem magoam, que andam ali por entre os links da chuva das relações.

O coração vermelhinho pode dizer “amo-te”, mas também pode dizer ternura, amizade ou, simplesmente, coração – o músculo. Há um não-comprometimento, quase um politicamente correcto na comunicação por emoji. Se ele for bem aceite, era precisamente isso que se queria dizer; se não, era outra coisa, a pessoa é que entendeu mal, e dá-se a volta ao “texto”. O emoji é uma palavra que dá para ser mudada a meio do jogo, é uma espécie de batota da linguagem. Só “amo-te” quer dizer “amo-te” (por muito mentira que possa ser).

“Há palavras que nos beijam como se tivessem boca”. E há emojis que nem sequer sabem o que é um beijo.

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outra forma de chorar

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Como se houvesse outra forma de chorar
que não escrevendo.
Pobre coitado do que pensa que chora
só por ter olhos molhados.
Pobre diabo do que no pranto se demora
só por ter lábios salgados.
Mesmo sofrendo,
gritando, gemendo,
sempre sendo o agora
que lhe demora a passar,
ele não chora,
ela não chora,
ninguém chora.
Ninguém sabe chorar.
Há mais sofrimento lá fora
em quem não derrama uma gota,
em quem não diz que sofre só por dizer que sabe sofrer,
em quem não tem nem sabe ter,
em quem luta sem saber por que lutar,
em quem sonha sem saber por que sonhar,
em quem se deita, se ergue e se arrasta,
em quem vive de alma seca e pele gasta,
em quem… basta!
Como se houvesse outra forma de chorar
que não escrevendo.
Ninguém chora,
ninguém sabe chorar.
Só quem escreve
(que esta coisa de chorar é mais que água,
é vida embrenhada pela mágoa
no silêncio de uma folha por falar).

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belas e feios, ricos e pobres

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O curioso na morte é que, sobre as belas, recorda-se o pior do que foram enquanto vivas e, sobre os feios, recorda-se o quanto eles até nem eram assim tão feios. Marilyn era “toxicodependente” e “conflituosa”; al-Baghdadi era “pacífico” e “envergonhado”.

“Morreu a mais bela mulher do mundo”, escreveu Ruy Belo, assim que se soube da morte de Marilyn Monroe. Morreu o mais feio homem do mundo, escrevo eu, agora que se sabe do fim de Abu Baqr al-Baghdadi.

Nem eu sou Ruy Belo nem al-Baghdadi é Marilyn. Infelizmente para todos. Mas sou capaz de ter razão quando digo que ele era o mais feio homem do mundo.

Abu Baqr al-Baghdadi, um dos mais desumanos líderes jihadistas de sempre, era a cabeça (e a barba) do Estado Islâmico na Síria. Parece que morreu em Maio, num ataque dos russos. No entanto, só agora se confirma o seu fim — é o que diz o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, sublinhando a informação que está a ser divulgada pela televisão iraquiana.

Apesar da pouca confiança que devemos depositar no regime russo e, essencialmente, na televisão (seja ela de que terra for), tudo indica que, de facto, Abu Baqr al-Baghdadi morreu. Como morre toda a gente, aliás. Belas e feios, ricos e pobres, assassinos e poetas.

Quando digo feio, não falo de cara nem de corpo, que isso pouco importa para a beleza, mas de alma — ou dessa coisa que faz da pessoa o que ela é de verdade, sem o preconceito básico dos sentidos. Marilyn era a mais bela mulher do mundo por ter a alma — ou essa coisa que faz da pessoa o que ela é de verdade — bela.

O curioso nas mortes das belas e dos feios é que, por uma qualquer tentativa de equilíbrio da percepção que deixam no mundo, sobre as belas, recorda-se o pior do que foram enquanto vivas e, sobre os feios, recorda-se o quanto eles até nem eram assim tão feios (nem tão porcos, nem tão maus).

Basta googlar: Marilyn era “toxicodependente”, “conflituosa” e “fez, pelo menos, 12 abortos”; al-Baghdadi era “pacífico”, “envergonhado” e “o melhor jogador de futebol da mesquita, um Messi”.

Mas há mais. O pacifista Gandhi, por exemplo, era “misógino”, “racista” e “forçava mulheres a dormir com ele”; o tirano Hitler era “sensível”, “vegetariano” e “defensor dos animais”.

Até por cá: a popular fadista Amália era “fascista”, “contrabandista” e “bêbeda”; o ditador Salazar era “um homem bom”, “simples” e “humilde”.

Os bons tornam-se maus, os maus tornam-se bons. Tanto bons (ou belas) como maus (ou feios) continuam numa dimensão quase etérea. Às belas, sabe-nos bem vê-las cair de lá do alto, atribuindo-lhes defeitos maiores do que os que temos — inveja nossa. Aos feios, perdemos o medo quando lhes damos características de gente. Somos nós que os criamos e somos nós que os fazemos cair ou levantar – como se os obrigássemos a serem humanos.

Humanos que são belos e feios, ricos e pobres, assassinos e poetas. E eu continuo sem ser Ruy Belo. Infelizmente para mim.

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estou?

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Odeio atender chamadas, odeio, e há uma única razão para isso, e essa razão é a incerteza da vida. Não fosse incerteza e não fosse vida e não diríamos coisas como as que dizemos sempre que atendemos uma chamada: estou? está lá? sim? Isto é incerteza de vida, isto é filosofia pura, isto é falarmos mais connosco do que com quem está do outro lado da linha. estou? eu estou? eu sou, mas será que estou? está lá? lá onde? quem está lá? e esse alguém está verdadeiramente? se está, onde é o lá? sim? por que não? incerteza no sim e certeza no não? anseio de uma resposta que seja sim? Isto é incerteza e nós nem sequer paramos para pensar. Questionamos e falamos. É por isso que odeio atender chamadas, porque não faço ideia do que seja isto da vida.

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só me aconteço escrevendo

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Escrevo para que a vida não morra.

Acho que é isso. Se for por outra razão, desconheço-a. Aliás, se for por razão, é mentira. Escrevo porque não tenho razão para escrever, razão pura, coisa lógica com sentido, não.

Escrevo porque me acontece assim e porque eu só aconteço se eu escrever. E acontece que eu aconteço muito na vida, de uma ponta à outra, com todas as coisinhas maravilhosas e doídas que nela há.

Escrever é escavar a vida, é ir-lhe às entranhas e agarrá-las, mordê-las e cuspi-las para a folha. E depois fazer amor com elas.

Escrevo para que a vida não morra. Se eu não escrever, morro com ela. Se eu escrever, sofro-a. Na verdade, sofremos todos. A diferença é que, quem escreve, apenas sofre duas vezes, a vez em que sofre e a vez em que dá letras ao que sofre. Mas é sempre para que a vida não morra, por mais bonito ou nojento que seja.

Só me aconteço escrevendo, mesmo sabendo que escrever aleija.

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essa galdéria que me chupa

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Raramente estou vivo. Quase nunca. É a puta da ansiedade, acho eu, essa galdéria que me chupa a vida.

Olha o futuro, meu querido, pensa já o amanhã, sente-o, vive-o, estás a pensar?, estás a sentir?, estás a viver?, que merda, não é?, aproveita já para sofrer. Vivo o amanhã, penso o ontem e desprezo o hoje. E isto vai aglomerado em carruagens de ilusão, porque imagino o amanhã sempre horrível, o ontem sempre maravilhoso e o hoje sempre ausente.

Uma estupidez em loop que me dói no peito mais do que me dói o amor. É no peito, esse ninho especial das dores, que as coisas importantes vivem e morrem quase em simultâneo. E depois lá vem o xanax, o valium, a paroxetina e todas as outras merdas pela boca adentro.

Engulo a ansiedade em copos de água e encaro a rua a fingir que a vida é minha e é linda. Não é nem uma coisa nem outra. A minha vida é hoje, e eu nem sequer a vivo.

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o medo

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O perigoso destes atentados não é a morte, é o medo. Todos morremos, mas nem todos temos medo (ou não deveríamos ter). A morte vem da explosão. Depois da explosão, depois da morte, vem o medo e, com o medo, as palavras. É o medo, com as palavras, a maior doença disto tudo. “Eu sou contra radicalismos, mas era mandar os árabes todos de volta para a sua terra”, “eu não sou violento, mas era matá-los todos”. Para além das feridas da morte, vêm as feridas do medo. As feridas da morte tratam-se sempre depois, com curativos, medicamentos e caixões. As feridas do medo tratam-se sempre antes, com educação e conhecimento. As feridas da morte vão desaparecendo. As feridas do medo nunca deixam de crescer. Não é a morte, é o medo.

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1994

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Foi em 1994. Havia Neno, Abel Silva, Hélder, Mozer, Veloso, Kulkov, Rui Costa, Vítor Paneira, Schwarz, Aílton, Rui Águas, Silvino, Nuno Afonso, Kenedy, João Vieira Pinto, Yuran e Toni, os meus primeiros heróis que vi serem humanos. De vermelho e branco, de carne e osso, mesmo ali à minha frente. Ao meu lado, o meu pai; em todo o lado, o meu nervo. Não sabia o que dizer nem o que fazer. Olhava em volta e só via sonho. Zero a zero, foi assim que acabou o jogo contra o Gil Vicente a 9 de Janeiro daquele ano e foi assim que começou o amor ou loucura ou paixão ou lá o que se chama isto que eu sinto pelo Benfica.

Digo amor ou loucura ou paixão porque não sei dizer mais, digo amor ou loucura ou paixão porque esta coisa que me tem vai além da definição exacta de uma palavra só e só as definições destas três se aproximam desta assombrosa indefinição maior que sinto pelo Benfica. Nem vida é palavra que se preze. Nem morte. Talvez Benfica. Sim, sinto Benfica pelo Benfica, dizendo amor ou loucura ou paixão. Foi em 1994 e foi para sempre.

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a beleza

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A beleza da música, como de qualquer outra arte, não está no grito nem na explosão. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está no silêncio e no quieto. A beleza da música, como de qualquer outra arte, existe por si mesma, sem artifícios nem malabarismos, sem cambalhotas nem maquilhagens.

A beleza da música, como de qualquer outra arte, é a beleza da vida, que basta sê-la para ser bela. E o difícil é encontrar esta entranha quer na música quer em qualquer outra arte. E o fácil é gritar e explodir. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está na simplicidade. Foi ela que deu a vitória ao Salvador e os suspiros a toda a gente que o ouviu e ouve em repeat no trabalho, no carro, no ginásio e em casa. A beleza da música, como de qualquer outra arte, está em ser nada mais do que aquilo que é. Nós é que teimamos, ignorantes da vida, em querer ser sempre outra coisa.

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crença, a puta da doença

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A morte é o gatilho para a crença, deus é o segredo (só existe no medo), nós somos a doença.

A tríade é simples e a ignorância também. Depois da morte, o que vem? Não sabemos, e, não sabendo, inventamos algo que nos mate (em vão) essa angústia. A invenção chama-se deus que é ilusão, ser todo-poderoso, criador do céu e da terra, nascido do ventre sujo do medo, do nosso medo, do medo da gente crente que é doença, criatura toda-poderosa, criadora do deus e do diabo, nascida do ventre embaciado da incerteza.

Enquanto inventamos o depois da morte, a vida vai acontecendo sem darmos conta. Ela passa e nós passamos por ela morrendo aos poucos e crendo aos muitos.

É a crença que nos faz ser a puta da doença. Nada mais há para além dela, nada mais pode haver, toda a vida é pecado, mesmo que real, toda a morte é real, mesmo que inexistente – a visão de um cego. Se deus existe, já nasceu doente.

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caminho da fé

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Caminho da fé? Não, caminho da facilidade. É fácil acreditar. É fácil não questionar. É fácil existir quieto do cérebro. É fácil. Houve uma coisa boa? Foi deus. Houve uma coisa má? Foi o homem. É fácil a dualidade. É fácil. Há sempre justificação para tudo. E isso é fácil. Para mim, não, que sou ateu praticante. Para mim, é difícil. Não tenho justificação para tudo, não sei tudo, e isso cria-me angústia. E dói. O crente acredita, mas de certeza absoluta que não tem a certeza absoluta da existência de deus. Só que é fácil. E dá-lhe jeito. Se deus existir, o crente vai para o céu. Se deus não existir, o crente não vai para lado nenhum. Em caso de dúvida, não vá deus existir, é melhor acreditar. Eu é que estou fodido, porque vou para lado nenhum. Quer dizer, agora vou para a cama, que a minha vida não é escrever sobre paragens cerebrais.

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o medo

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Não é o medo de cair, é o medo de ter vontade de cair. E isso assusta como assusta o terror à noite. Não é a dor do corpo em pedaços lá em baixo, é o orgasmo do corpo em tesão cá em cima.

É como se a puta do abismo me batesse à porta e, de mini-saia e decote, me dissesse: olha lá, fofinho, não queres vir dar uma volta? E eu ali, ébrio de ânsias, sem leis nem moral. Digo-lhe que sim ou que não, mas o que lhe digo é sempre medo.

É o medo, só o medo, nada mais que o medo. Existe-nos mais do que nos existe o sangue. Cabrão do medo. Fosse ele ausente e eu seria morte, é ele presente e nem vida sou.

Olhando o abismo, temendo a vontade, réstia de horror que nos resta a todos, escondida na subterrânea lama louca do inconsciente. É de mim o corpo e é de mim que tenho medo. Sou eu o abismo.

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do que sou

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Sei pouco do que sou. Talvez por ser demasiadas coisas, talvez por ser coisa nenhuma, talvez, não sei, nunca sei. Todas elas se confundem e misturam nos dois poços mais fundos de mim mesmo: o sentimento e a imaginação. Sinto o que vivo e o que é verdade, só isso é sentir. Imagino o que quero viver e o que só é verdade para mim, só isso é imaginar. De um lado, entranhas. Do outro, nuvens. No meio, qualquer coisa que não eu. Não sou nem uma coisa nem outra, sou uma coisa e outra. E esta coisa e outra lutam a toda a hora nesta coisa que me demora a saber.

Sentir é ter a vida verdade puta a viver-nos no estômago. Imaginar é pensar o estômago com essa vida mentira bela. Imaginar é maravilhoso, mas uma merda também. Imaginamos o que vai, imaginamos o que vem, nunca imaginamos o que está nem o que é. Estaríamos a sentir. Sentimos pouco, imaginamos muito, é o problema da gente que julga ter vida dentro. Imaginar é maquilhagem, anestesia. Sentir é selvagem, nevralgia. E é sempre num (sono) e noutro (nervo) que eu estou. E é sabendo os poços que me vivem dentro que eu vou sabendo cada vez menos do que sou.

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às vezes, quase sempre

Comentários fechados em às vezes, quase sempre poesia

Às vezes, quase sempre,
todas as letras do mundo
me incendeiam o esqueleto.
Como hoje.
E, se não escrevo,
adeus,
tudo me foge.

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antónio e maria

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Há uma coisa no teatro que é mais do que a sua representação. Chama-se vida. E a que houve ontem viveu-me mais do que muitas outras tantas já me viveram.

Não era a Maria nem o António que estavam em corpo e letras, todo e todas em génio, no palco do Meridional. Era a vida de cada um deles, dissecada e cortada a sangue frio e servida a alma quente a toda aquela gente que viveu comigo. Era também a nossa vida que ali estava. Era, essencialmente, a nossa vida que ali estava.

Chorei o tempo inteiro. Como uma criança das pequenas ou das grandes, que isto deste choro não tem idade, que isto deste choro só tem uma coisa, e essa coisa chama-se vida, que é outro nome para a verdade.

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não digo

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Sou contra o não digo. Sou contra a boca calada e os dedos inertes. Sou contra o silêncio em estado, mesmo que noite. Sou contra a folha em branco, mesmo que carta. Sou contra a ausência de palavras. Sou contra a ausência. Contra. Ausência. Palavras. Sou contra o nada, mesmo que vazio. Mesmo que alegre. Sou a favor do coração na boca e nos dedos. Sou a favor do barulho no silêncio e na folha. Sou a favor da palavra. Sou a favor do tudo, mesmo que excesso. Mesmo que triste.

Que seria a vida sem a palavra para a dizer? Que seria a palavra sem a vida para a ser? Até na morte, quando a palavra é mais ausente do que a vida, é a palavra a única coisa que nos resta para dizer despedida.

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a minha mãe

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Faz anos a minha mãe. A minha mãe. É tão bonito dizer “a minha mãe”. É como dizer poesia em apenas três palavras. A minha mãe. Talvez “a minha mãe” seja a única poesia que há no mundo inteiro, a única poesia que realmente interessa dizer, a única poesia que deu origem a isto tudo que nos é e que nos tem. A minha mãe. Eu, que amo palavras mais do que amo a vida, trocaria todas elas para dizer, até à eternidade, “a minha mãe”.

A minha mãe é berço e leito, a minha mãe é a minha noite onde me deito. A minha mãe é grito e carinho, a minha mãe é o meu próprio ninho. A minha mãe é luta e choro, a minha mãe é ouro. A minha mãe é Freud e Vitorino, a minha mãe é o seu destino. A minha mãe é terra e verdade, a minha mãe é a mãe da saudade. A minha mãe é beijo e abraço, a minha mãe é mãe de um palhaço. A minha mãe é come a sopa e cuidado com o frio, a minha mãe é tens mesmo o meu feitio. A minha mãe é mãe-galinha, a minha mãe é minha. A minha mãe é preocupação, a minha mãe é exagero do coração. A minha mãe é princípio, meio e fim, a minha mãe é igualzinha a mim. A minha mãe é riso e melancolia, a minha mãe dá-me cabo do juízo, e o que eu lhe dou é poesia.

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o amor não é arte

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Ser criativo é lindo para a arte e uma merda para o amor.

No amor, criamos mais do que existe e menos do que é. Criamos bocas que a beijam e corpos que a fodem. Criamos enredos de traições. Criamos pensamentos nos pensamentos dela, dando de comer aos nossos medos que estão sempre ali, de mão estendida, à nossa espera, de mão cheia durante, de mão beijada depois.

Criamos pesadelos, matamos sonhos à nascença e fazemos respiração boca a boca às angústias e às ansiedades que nos renascem nas veias e naquele tic-tac furioso do coração.

A maravilhosa arte de criar é uma porta escancarada para o infinito, e o infinito tem muito de escuridão. Nisto do coração, tudo o que não deve ser criado é tudo o que acabamos, nunca acabando, por criar.

Ser criativo é lindo para a arte e uma merda para o amor. Porque o amor não é arte, porque só há arte no amor.

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além da vida

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O que existe além da vida? Não além da vida em si, que é a morte e a morte é nada. Mas o que existe além da vida das pessoas que eu vejo? Esta gente que está à minha volta mostra-me a sua vida e eu não sei o que há além dela. O que há? O que pensa? O que a faz sorrir? O que a faz pensar? O que bebe? Como reage a determinado filme? Chora ao ouvir esta música? Que vida tem esta gente toda que se aglomera em aleatório à minha volta?

Sempre que me distraio, não estou distraído. Estou a imaginar essa vida de cada pessoa. Imagino-lhe uma história, uma família, um cão ou um gato ou um jacaré, um homicídio, um casamento, uma forma de falar e uma dor ou alegria ou ausência totais. Sair desta vida que é minha para imaginar a vida de outra gente além da vida que lhes vejo é viver várias vezes. Que maravilha. Não é isso o bonito da vida? Viver várias vezes? Várias vidas?

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o ser de ser pai

Comentários fechados em o ser de ser pai poesia

Simples palavra de homem que faz,
homem que lavra a palavra que traz.
Sangue nascido de punho cerrado,
ventre perdido de ser encontrado.
Corpo maduro de vida na mão,
leito seguro do novo embrião.
Sonhos cercados de sonhos na terra,
olhos chorados de balas na guerra.
Voz que ameaça, birra que passa.
Criança que chora, por dentro e por fora.
O riso demora, mas volta mais puro,
e o riso de agora é o som do futuro.
Homem, menino, velho, criança,
ferro do fel, fiel da balança.
Filho que é e não deixa de ser,
feto parido do ai da mulher.
Braço que embala o berço da cama,
voz que serena a voz que o chama.
Aparência da força que deve sentir,
decência que tem quando a tem que despir.
Início de tudo, semente de vida,
grito de mudo, de voz destemida.
Gestos de bruto, de tudo o que tem,
cabeça de puto, coração de mãe.
Hoje, amanhã, tudo o que for,
noite, manhã, único amor.
Silêncio que fica, palavra que vai,
o ser de sentir, o ser de ser pai.

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arguido

Comentários fechados em arguido bloco de notas

Não me peçam conselhos de amor. Sou a pior pessoa do mundo inteiro a quem se possa pedir coisas dessas relacionados com essa coisa. Nunca digo não digas, não vás, não escrevas, não beijes. Nunca. Digo sempre sim, sim, sim, sim. Se isto da vida for tribunal e isto do amor for arguido, eu sou o seu advogado de defesa, mesmo sabendo que defendo esta coisa sem defesa possível, que nos destrói as defesas todas, dizimando-nos por dentro e escangalhando-nos por fora. Não me peçam conselhos de amor, que eu sou sempre a favor do amor. Pode não haver solução possível, quase sempre não há, que eu atiro-me de corpo inteiro, que envolve a alma, dou mortal encarpado, cuspo fogo e mergulho nesta coisa do amor. Mas tu escreves sobre o amor, André. Escrevo, por isso é que não sei nada sobre ele, eu só escrevo sobre o que não sei e só escrevo muito sobre aquilo que não sei absolutamente nada. Nem quero saber, que isto do amor não tem sabedorias. É amar e pronto, o resto é morte.

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carnaval

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Nunca fui muito do Carnaval, culpa da alegria, que nunca me fascinou muito por aí além. É estupidez, eu sei, é melhor ser alegre que ser triste, mas eu nem sou uma coisa nem outra, estou é mais vezes triste do que alegre. Neste dia, na escola, em pequenino, sempre fui de Zorro. Todo de preto, talvez fosse já um manifesto anti-cor, anti-regime, anti-alegria. Não é que não goste da alegria, apenas desconfio dela. Parece mais leve e mais fácil, e essa leveza deste ser é-me constantemente insustentável. Hoje sou Zorro, domingo sou Pierrot. Hoje sou rebelde de negro, domingo palhaço de lágrima. Faz algum sentido. E, pensando bem, sentindo muito, acho que nunca me mascarei. Sempre fui eu. Talvez por isso nunca tenha sido muito do Carnaval.

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não é

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Não é o amor. Não é o orgasmo. Não é a alegria. Não é o alívio. Não é a solidariedade. Não é a amizade. Não é a aceitação. Não é o carinho. Não é dormir. Não é beber. Não é comer. Não é realizar um sonho. Não é ver o Benfica. Não é marcar um golo. Não é ganhar o Euromilhões. Não é receber um elogio.

A melhor sensação do mundo é passar o papel higiénico e não ter um único vestígio de merda. Está limpo. Virgem. Puro. Tudo saiu na perfeição, em filinha indiana e sem alaridos. Houve o terramoto, houve as sirenes, houve a evacuação. Tremeu tudo, não se sujou nada. A. Melhor. Sensação. Do. Mundo.

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avenida q

Comentários fechados em avenida q bloco de notas, teatro

São espelhos. Do que somos e do que temos. Do que fomos e do que queremos. Do que sentimos e do que fingimos. Não são bonecos. São memórias. Fortes e felizes. Antigas e futuras. Fofinhas e repugnantes.

Não são bonecos. São gente. Com tomates e sonhos. Com mamas e alma. Com tripas e coração. Não são bonecos. São vida sem merdas nem paninhos quentes nem frios nem mornos. São vida sem merdas e sem paninhos. São infância nua e adolescência crua. São renda para pagar e sonhos para destruir. São paixões, poetas, canções, punhetas, gemidos, ofensas, grunhidos, crenças, realidade, humor e, acima de tudo, verdade e amor. Tudo em corpo e voz.

Não são bonecos. Somos nós.

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noite

Comentários fechados em noite bloco de notas

O problema da noite é existir entre duas vidas, o dia que acabou e o dia que está para começar. É o contraste que lhe faz a essência, o existir vida antes e depois dela, sempre antes e depois, apenas antes e depois. O problema da noite é a sua maior e única virtude, ser contraste da vida. Ser nada por instantes. Ser morte que se repete ao infinito. Fim agora. Fim sempre. É por isso que é de noite que sonhamos. E que dormimos.

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a noite

Comentários fechados em a noite bloco de notas

A noite só é escura porque fechamos os olhos enquanto ela existe. Não respeitamos a noite. Aproveitamo-la para dormir. Para deixar de existir durante um bocado. Não faz sentido. O dia é o menino querido do universo. A noite é o parente pobre. A noite é dos loucos e dos gatos. O dia é das crianças e dos passarinhos. Não faz sentido. Há uma conspiração contra a noite. No cinema. Na música. No teatro. No trabalho. Na poesia. Na vida. Sou pela noite. Digo noite. Grito noite. Berro noite. Os loucos e os gatos também são vida. O meu já dorme. Eu para lá caminho.

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natal

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Até me dói continuar a dizer isto em pleno século XXI, mas Jesus foi um tipo normal que nasceu de uma foda entre duas pessoas: José e Maria, vamos supor que era assim que se chamavam.

Não houve anjo Gabriel, não houve estrela-guia, não houve reis-magos, não houve nada. Só existiu vaca se acharem que a Maria fodeu com o anjo. Só existiu burro se acharem que o José acreditou na história da mulher. Mas deus blá blá blá e o anjo blá blá blá e jesus blá blá blá é o messias blá blá blá. Bem, se têm inteligência para ler o que acabei de escrever, também têm para pensar (raciocínio demasiado lógico que até chega a ser ridículo).

Boas festas com quem gostam. Comida, bebida, amor e essas merdas. O resto que se foda (e bem, que é como se deve foder, sem inexistências pelo meio).

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adormecer

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Sempre tive medo de adormecer. Esperar pelo sono aterroriza-me. Num instante, estamos conscientemente acordados, no outro, estamos inconscientemente dormindo. E não damos conta disso. Não em consciência. É um clique que nos divide deste mundo do outro dentro deste. Se pensarmos todos nisto, todos vamos ter medo, ou receio ou respeito ou lá o que é, por esta repentina mudança para uma quase-morte. Por isso, deus deu-me uma doença. Toma, puto, só para não andares por aí a dizer que eu não existo. Chama-se narcolepsia (a doença, não deus). A narcolepsia não me faz ficar muito tempo à espera da escuridão da minha consciência. Fecho os olhos e adormeço. É assim tão simples. O horror é adiado para o dia em que ficar curado (espero que nunca). Ouviste, deus? Obrigado, deus. Vou dormir. Mas continuo com medo.

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prolongamento

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Nem cancro, nem sida, nem leucemia, nem nada. Hoje, toda a gente morre por doença prolongada. Não se diz o nome, tapa-se com o paninho quente e maciozinho da doença prolongada. É menos doloroso, é menos inquietante, é menos cru. Acontece que a morte é dolorosa, é inquietante, é crua. Morrer de cancro é morrer de cancro, morrer de sida é morrer de sida, morrer de leucemia é morrer de leucemia. Ninguém morre de nada. É doença prolongada que se diz agora, tal como se diz lol em vez de ahah ou tal como se diz ter relações em vez de foder. Todos morremos de tudo. E esse tudo é feito de partes com nome. É urgente chamarmos as coisas pelos nomes que elas têm. E que a única doença prolongada seja a vida.

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a dona conceição

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Foi embora a dona Conceição.

E eu fui com ela, pelo menos parte de mim, aquela parte inteira da infância que teima em se hospedar nas entranhas da memória. Foi embora a dona Conceição. E o Dinis foi com ela, o papagaio tagarela que me falava sempre que, pelas mãos dos meus pais, ou à revelia das mãos deles, me via a espreitá-lo da porta e lhe falava e me escondia e lhe tornava a falar e me tornava a esconder, esperando que ele me espreitasse e me falasse e não se escondesse. Ele estava ali, sempre ali, naquele corredor misturado de sombra e amarelo, naquele corredor que corria para muitos lados e que hoje está perpetuamente parado no lugar onde estão estas palavras. Corria para a cozinha gigante do hotel, a copa, parque infantil dos grandes onde os pequenos comiam pão com manteiga e bebiam leite, naquela mesa grande cheia de tachos e panelas e pratos e colheres e farinhas e açúcares e nenúfares, talvez não fossem nenúfares, talvez o sonho, que é memória, me dê invenções ao pensamento, mas tanto faz, era coisas boas que lá havia, era tudo em tudo grande, e eu por lá andava, pequeno, por onde andavam os grandes, que foram os meus pais e os meus tios, os meus primos e eu próprio, mais tarde, depois de ser pequeno como era neste tempo de que me lembro agora. Corria lá para fora e demorava pouco, queria conhecer o muito que estava dentro do hotel, tanto muito, tanto tanto que eu nunca o encontrei. Aos pedacinhos, toquei-lhe os dedos, mas pouco mais. E a dona Conceição por lá andava, vestida com um daqueles trapos antigos de quem manda em casas e em cozinhas, de cabelo branco e voz das típicas avós que sentem mais do que falam (eram os olhos que a denunciavam, e eles sorriam). E ela sorria. E eu sorria para ela e o meu irmão sorria para ela e os meus pais sorriam para ela e falavam, os grandes, das coisas dos passados que lá viveram, das coisas dos passados naquele hotel, casa grande onde os meus pais fizeram vida e deram vida às vidas deles, no primeiro olá, no primeiro encontro, no primeiro beijo, ali, num hotel de praia e de pinhal, com a melhor vista para o melhor pôr-do-sol do mundo, ao fundo, ao fundinho da rua, na areia e no mar de São Pedro de Moel. E eu e o meu irmão, que ainda sorríamos, andávamos por ali como se aquilo fosse o céu e como se o céu fosse nosso, e era o céu, e era mesmo nosso. E tinha pingue-pongue, e tinha sofás que faziam dormir, e tinha cortinas de filmes de cinema, e tinha uma televisão que dava os Jogos Olímpicos, e tinha um bar com garrafas e vinhos e batatas fritas, e tinha tapetes no chão, e tinha alcatifas, e tinha labirintos para lugares que nunca descobrimos. No céu, havia chocolates. Era a dona Conceição que os tinha e que os dava, a mim e ao meu irmão, ele não gostava, não fazia mal, eu ficava com os chocolates que a dona Conceição lhe dava. Ainda os tenho comigo. Foi embora a dona Conceição. E nós fomos com ela. Fecharam-se as cortinas, calou-se o papagaio, taparam-se as janelas e os labirintos e as salas e a cozinha, e foi tudo comido pelas sombras. Hoje, não há hotel nem há mais nada, só aquela parte inteira da infância que teima em se hospedar nas entranhas da memória.

Foi embora a dona Conceição. E eu, que sou toda a gente que a lembra, fui com ela.

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o luto

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O luto, na morte como no amor, carece da urgência do sofrimento imediato, a tempo e horas e em excesso, sempre em excesso, para que, mais tarde, quando vem a puta da saudade, ela não nos apanhar sem as forças que, sem luto, sem sofrimento excessivo como todo o sofrimento deve ser, não teríamos. A urgência do sofrimento imediato, a tempo e horas e em excesso, sempre em excesso, é colocar a vida no abismo para a morte, mas sofrer com paninhos quentes no instante imediato, sem choros nem insultos, sem gritos nem torturas, é morrer constantemente durante a vida toda, em simulado contentamento e disfarçada ansiedade, escarafunchando cada pormenor do sofrimento, sempre, que é sempre, que vem a puta da saudade.

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se a religião

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Se a religião, ou parte dela, ou grande parte dela, ou quase toda ela, assegura uma deslumbrante vida após a morte, ou durante a morte que, basicamente, é isso que se defende, pois bem, se é isso que a religião permite, então, aqueles que matam por ela amam as suas vítimas. Aqueles que matam por ela querem o bem das suas presas inocentes porque querem que elas morram, ou querem que elas morram porque querem o seu bem, seu, delas, não deles, porque eles continuam por cá a impor, coitados, trabalho duro e pesaroso, a vida eterna, carregadinha de paraísos, nuvens, anjos e virgens, a quem por cá anda. Matando, despacham o processo de chegada à, aleluia, aleluia, vida eterna, aleluia, aleluia, ao paraíso, aleluia, aleluia ou lá ao que existir nessa coisa infinita, aleluia, aleluia. Maravilhoso amigo o que nos deseja o prazer, o regozijo, a imortalidade, a delícia do céu da vida eterna, obrigando-nos a dizer adeus ao triste e horrível e mau e ruim inferno que é a vida que agora pisamos. Os que nos odeiam, os que nos querem matar, os filhos da puta dos terroristas que nos matam pela religião são os filhos da mãe dos altruístas que mais nos amam, que se preocupam connosco do fundo do seu tique-taque no coração. E, assim, por enquanto, por fim, daqui se lê que, ou quem nos mata é estúpido por não se matar sozinho ou somos nós que não entendemos a sua encantadora e peculiar forma de amar. De todo o modo, não querendo dizer que não ao amor, não querendo rejeitar a afeição maior que o mundo, este, vivo, tem, peço que me deixem não entender, que me deixem ser e estar e viver, ou ir vivendo e deixando viver, prefiro assim, do que compreender e matando, deixando-me morrer.

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henrique

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Foi hoje, noutro ano que não este, que tu foste embora, que tu partiste, não, que tu morreste. Não há palavrinhas bonitas nem eufemismos nem outras coisas escritas que dêem verdade ao que te aconteceu. Morrendo, porém, não deixaste de existir, de ter pai, de ter irmã, de ter mãe. Não deixaste de ter amigos e família que te velam como se fosse uma vigília da memória, por vezes, como se fosse uma história daquelas más, com lágrimas e gritos, morte, como foste capaz? E nós aqui aflitos. Foste capaz, aconteceu, e agora, para nós, ninguém te traz, mas nós esperamos e lembramos e choramos e cá estamos. Sós. E, quando a voz nos sai em gritos e clamores, só assim, só dessa maneira, resta-nos a escrita e, escrevendo, vão-se calando as dores, vai-se adiando o fim e dando à choradeira outra forma de ser aflita. Foi hoje, noutro ano que não este, que tu foste embora, que tu partiste, não, que tu morreste. Foi hoje, foi ontem e foi todos os dias que ainda não o são que tu, não falando, não ouvindo, não sentindo, foda-se, que não estando, vives na tal vigília da memória que nos parte e reparte e nos deixa na pior parte dessa história que nos vela o coração.

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lá se foi a vida

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Era a morte chegar
e eu não dar por ela.
Chegar sem aviso,
sem ser preciso
nada que me apoquentasse.
Era ela vir num repente
e me levar,
fazendo-me ficar
aqui ausente.
Que ela viesse e me levasse
e que deixasse
– como sempre o faz –
a vastidão do que ela traz:
a crueza da sina decidida.
Era a morte chegar e… Zás!
Lá se foi a vida.

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o gatilho para a crença

Comentários fechados em o gatilho para a crença poesia

A morte é o gatilho
para a crença,
deus é o segredo
(apenas existe no medo),
nós somos a doença.

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solidão, dá a patinha

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não fala e, não falando,
não nos pode aconchegar
a dor de o ver partir,
não nos pode dizer
o que nos sente
porque, simplesmente,
não fala,
cala
e nós aqui a sentir
a dor de outras palavras
que julgamos ouvir
dos olhos que nos falam a ganir
e nos fazem chorar por ver os seus,
a vida volta a ser coisa sozinha,
solidão, dá a patinha
senta, deita… adeus.

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longe coração

Comentários fechados em longe coração bloco de notas

Quando os amores estão longe, os corações estão longe também. Quando eu estou longe dela, quando ela está longe de mim, os nossos corações estão longe também.

Mas não é o meu coração, comigo, que está longe do coração dela, com ela. Não. O meu coração está longe de mim, do meu corpo, da minha razão, e o coração dela está longe dela, do seu corpo, da sua razão. Estando os nossos corações longe de nós próprios, embora perto de mim e dela (comigo e com ela), torna-se difícil suportar esta coisa que é viver de coração afastado (o meu) e de coração forasteiro (o dela). Porque, nesse momento, fugaz ou eterno, não somos nós que mandamos no nosso coração. Ele está longe, perto dela (com ela). É ela que o comanda. Tal como o dela está perto de mim (comigo) e sou eu que bem decido o que lhe fazer.

O problema é que nem eu nem ela sabemos lidar com corações que não os nossos. Ninguém sabe. E esta incapacidade para lidar com corações alheios provoca trapalhadas, sonhos, ansiedades, ilusões, borboletas, pedras, palavras, filmes, lágrimas, cabeças no ar, loucuras. Ou, noutras palavras que é só uma, amor. O amor não é o meu coração a bater no meu peito, é o meu coração a bater no peito dela.

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pretos e brancos

Comentários fechados em pretos e brancos bloco de notas, cinema

Pretos e brancos a preto e branco. Não é a cor que define uma pessoa. Não é a cor que define um actor. Não é a cor que recebe um óscar.

Se há revolta na terra dos filmes por haver mais brancos a vencer óscares do que pretos, é porque (talvez por um assombro qualquer da realidade ou, até mesmo, por um temor lunático da lógica) tem havido mais brancos a representar melhor do que pretos. Mas é a primeira vez que penso nisto, eu não vejo brancos nem pretos, vejo actores, bons, maus, gordos, magros, altos, baixos, bonitos, feios, apenas actores, acho que é disso que se trata quando se fala de cinema. Pretos e brancos? Não, nem no resto da vida. Humanos, de várias cores e tonalidades, mas sem cor ou tonalidade que os defina ou que os sujeite a um tratamento diferente.

Os olhos de quem vê pretos e brancos, os olhos de quem vê mais brancos a receber óscares do que pretos, os olhos de quem organiza manifestações e boicotes tendo por base a cor dos candidatos, nomeados, vencedores e vencidos, os olhos de quem vê pretos e brancos são, tão simplesmente, olhos que olham a preto e branco, colocados num cérebro que pensa a preto e branco, por cima de uma boca que fala a preto e branco e por dentro de um vazio que existe (assustadoramente) a preto e branco.

O racismo é uma coisa linda, é a origem do preto e do branco, é o epicentro da dualidade, é o efeito da junção de dois contrários. Como o arco-íris.

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ter dito companheira

Comentários fechados em ter dito companheira poesia

Deixei cair o meu olhar no teu vestido
e senti o cheiro do teu cabelo,
fui a sítios aonde nunca tinha ido
e toquei o teu corpo só de vê-lo.

Descobri que eras feita de incertezas,
todas elas mais confusas do que a vida.
Dissolvi o meu corpo de impurezas
e desejei que fosse minha a despedida.

Mas, por obra do destino, tu voltaste
daquele sítio para onde tinhas ido
e, ao voltares, voltou tudo o que levaste
e eu voltei a despir o teu vestido.

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a dor de quem tem

Comentários fechados em a dor de quem tem poesia

A dor de quem tem o nosso coração
dói mais do que a dor que inventamos
para sofrer.
Pode doer-nos o corpo,
da cabeça aos pés,
da pele aos ossos,
pode até doer-nos a dor de um amor falhado,
não amado,
fracassado,
esfarrapado
ou a dor de um ser perdido,
perdido,
perdido,
simplesmente, perdido,
pode, dói,
claro que dói,
muito,
mas esse muito é demasiado pouco
para o tamanho da dor
de quem tem o nosso coração.
E esse alguém não somos nós, claro que não,
o nosso coração
nunca é apenas nosso
e, quando é
(nas poucas vezes em que é),
dói e deixa de doer
ou dói e deixa-se morrer.
Mas, quando o nosso coração
está em quem sofre sem invenções,
que é sem saber, sem querer ou não querer,
sem pensar, sem estar, sem ter,
tendo mais de muitos corações em apenas um,
que é o nosso,
quando isso acontece,
a dor é-nos mais forte,
mais amor,
mais corte,
mais morte,
mais dor.
A dor é-nos mais dor.
E, quando quem a sente,
não a sabe dizer
nem escrever
nem ladrar
nem miar,
faz, do silêncio à deriva,
fraqueza,
motim,
solidão.
E nós, com esta dor em carne viva,
que é mais carne,
que é mais dor do que a tristeza,
que é mais viva,
que é mais vaga em incerteza,
sofremos desta forma estando assim,
não sabendo se é a norma ao ver o fim
em quem tem o nosso fraco
coração.

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fosse a vida

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Fosse a vida outra coisa que não isto.
Amor, silêncio, cor, canção…
Ou fosse nuvens. Simplesmente, nuvens.
Ou céu, se desse ser.
Nuvens brancas em forma de algodão
doce como o cheiro do prazer
de não ter consciência de saber
que isto não é tudo o que a vida é.
Isto – o que não é, o que deveria ser –
é pequena parte que nos parte daqui,
do coração,
brincando à sorte.
Mas a beleza que só nele existe
é como a estúpida ilusão que não desiste.
Fosse a vida outra coisa menos triste.
Fosse a vida outra coisa que não morte.

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a minha febre

Comentários fechados em a minha febre poesia

Quem me dera ser ignorante,
passar pela vida contente.
O pouco que sabe é bastante
e o nada que é não o sente.

Quem me dera perder o que tenho,
ter só o que posso tocar,
ser parte do fútil rebanho,
que parte o que tem a pastar.

Quem me dera ser tão comum,
tão nulo do meu coração,
trocar os meus sonhos por um:
sonhar que só tenho razão.

Quem me dera saber ser feliz,
sem medo, sem mágoa escondida,
ser fruto da minha raiz,
ser morte desta minha vida.

Mas eu não sou verdadeiro,
tenho emoções nos meus ossos!
Quem me dera ser eu por inteiro
e não o que eu sou em destroços…

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tão lindo

Comentários fechados em tão lindo bloco de notas

É tão lindo banalizar a morte com a criança afogada. Com o touro espetado. Com o cão degolado. Com o homem enforcado. Com a mulher apedrejada.

E depois disto? Depois desta banalização? Depois desta insana normalidade? Depois deste banho de sangue e de esqueletos e de entranhas servido em ouro aos nossos puros olhos de homens e de mulheres e de crianças? E depois disto? E depois desta morte?

Haverá morte, verdadeira morte, que nos mate verdadeiramente, espetando-nos com a essência da vida, com a sua rara e preciosa e sublime existência, antes de morrermos? Haverá, simplesmente, morte, depois disto? Depois desta morte? É tão feio isto da vida com a linda morte deitada na nossa cama.

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não dizer

Comentários fechados em não dizer bloco de notas

A solução é não dizer. Se um leão morre, não podemos dizer que é triste porque mais triste é a morte das criancinhas em África. Se um puto rouba velhinhas, não podemos dizer que é ladrão porque mais ladrão é aquele ministro que nos rouba os impostos. Se um homem viola crianças, não podemos dizer que é pedófilo porque mais pedófilo é aquele que só as viola se não estiver de batina branca a rezar o terço.

Foda-se. Se uma figura pública sorri para as câmaras e despreza as pessoas quando não há claquetes, não é hipócrita porque, mais hipócrita, é toda a gente que me diz para eu não dizer. A solução? Não, o problema.

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o horror de adormecer

Comentários fechados em o horror de adormecer poesia

O horror de adormecer,
o zás do sono a cair
em chão de vidro, em som de corte.
Deixar, simplesmente, de ser,
sendo o mesmo, mas a dormir,
como se fosse um estágio
para a morte.

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sem filtro

Comentários fechados em sem filtro teatro

Fui ver a Ana Bola ao Teatro Villaret. Foi ontem e foi único. A minha admiração por ela vem de longe. Pela diferença, pela inteligência, pela ousadia. Pelo talento. Ontem, nada mudou. De longe se fez perto. E tudo se manteve. A diferença, a inteligência, a ousadia. O talento. Ontem, a Ana Bola sentiu e fez sentir. Fez das tábuas sentimento e das palavras sofrimento. Fez danças, piruetas, contou histórias, cantou letras. Fez ouvir a sua voz, que é a nossa, mas calada. Disse o que não dizemos nós, falou tudo, não calou nada. Foi ao estômago das emoções, fez das tripas corações e lançou-os pelo ar. Gritou homens e mulheres, pôs a vida em tupperwares e fez rir para não chorar. Fui ver a Ana Bola ao Villaret. Foi ontem e deveria ser para sempre.

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guerra

Comentários fechados em guerra contos, preguiça magazine

José Manuel Castro Feliciano ou Zé Manel para os amigos ou Feliciano para os camaradas da caserna onde assentou praça e costados e balas e bofetadas naquela guerra antiga mas real que lhe matou amigos no corpo e amigos na cabeça, estes que morreram de cabeça foram os que morreram de verdade, morreram estando vivos, morreram para eles e morreram para os outros que os conheciam de outra forma que não desta que os faz estar enterrados nos lençóis, com tiques nas mãos e comprimidos na mesa-de-cabeceira e na goela, coitados, morreram e agora são outras pessoas, outros cidadãos, outros homens que não nasceram do útero da mulher mas sim do ventre de uma guerra antiga mas real, sacana da guerra, puta da guerra, guerra da guerra. Feliciano sobreviveu sem maleitas no corpo nem na cabeça. Eu não. Esta história é sobre mim.

Eu sou um tipo normal, chamam-me pelo nome e tenho para cima de muitos anos. Para dizer a verdade, nem eu sei a minha idade, a memória já não é a melhor e o cartão do cidadão já não o tenho, perdi-o quando andei à caça de leões ali no pátio da velha com o filho deficiente em casa, coitadinho do puto que não tem culpa nenhuma que deus lhe tenha dado mais baba do que aos outros, mas a vida é mesmo assim, e lá está a velha a tomar conta do puto que não é puto, porque já tem para cima de muitos anos, precisamente a minha idade, quem diria, digo eu que estava à caça de leões ali no pátio da velha quando perdi o cartão do cidadão e nunca mais o achei porque nunca mais o procurei, que se lixe o cartão, que se lixe o cidadão que o que interessa é a nota, que se lixe quem eu sou que o que interessa é a minha história.

Tudo começou em mil novecentos e troca o passo, estava eu todo contente a emborcar copos de água da torneira quando, por obra e graça do espírito santo, que é um santo sem corpo e só com espírito, como diz o próprio nome, vi a melhor moça do mundo, e eu digo moça e não digo gaja porque eu sou um gajo bem-educado, nossa senhora de Fátima, meu deus do céu, que moça linda e afinada, com tudo no sítio, tim tim por tim tim, nem mais um centímetro para baixo, para baixo, para baixo, ai para baixo, nem menos um centímetro para cima, para cima, para cima, ai para cima, que era mesmo para cima que eu estava a ir, não só na imaginação como também na, na, na, na, até fico gago só de pensar. Mas tenho de continuar que tenho uma história para contar.

Olhei para ela e imaginei todas as coisas possíveis e impossíveis que lhe poderia fazer, qualquer uma mais javarda do que a outra, mas em que havia eu de pensar? Sou um homem, os homens têm este tique de levar tudo para lá e é para lá que eu vou, deixo-me levar sem medos que a vida é para ser vivida e não podemos estar a pôr barreiras à nossa imaginação, já nos bastam aquelas que nos põem na comida e nos impostos, sacanas, que eu mato-os a todos, mas não posso. E fui. Fui, pronto, que posso eu dizer? Fui, ela levou-me pela mão sem sequer se mexer, estava quietinha, nem deu por mim, quase nunca ninguém dá, mas ela nem sequer tocou com os olhos no meu corpo, nem com os olhos nem com nada, mas pronto, e eu ali fiquei a imaginar tudo o que poderia fazer e refazer a uma gaja, perdão, a uma moça, que nem sequer tinha conhecimento da minha existência. Existência pobre, mas existência.

Estava eu nestes preparos mentais quando, de um momento para o outro, sem quê nem para quê, zás, a moça boa cai de boca no lancil do passeio. Pumba, escangalhou a fronha toda. Só me apeteceu chorar, mas como sou um homem de barba rija e testa grossa, não chorei. Fiquei ali especado, de olhos abertos e boca aberta. E ela deitada, de cara espalmada no alcatrão. Que desperdício. Mas estranhei. Isto de as moças caírem ao chão e não gritarem não é de moças, é de homens. Oh, caraças, queres ver que esta moça bem boa afinal é um homem? Cruzes credo, xô xô xô, brrr que me arrepiei todo, desde a ponta da espinha à ponta do sapatinho de verniz que muito estimava na altura e muito estimo ainda hoje, engraxadinho todos os sábados de manhã, sem falta, enquanto se grelha um peixinho-espada e a minha Amélia aspira a sala.

Na altura, já tinha Amélia, mas também tinha olhos, e foi por isso que vi a moça boa que, afinal, tudo levava a crer que fosse um homem. Cheguei-me ao pé dela, ou dele, e uma poça de vermelho começou a circundar-lhe a cabeça. Era sangue, pois claro que era sangue, estou bem fodido, agora a moça morreu-me aqui à minha frente, e só eu é que vi, parece que toda a gente desapareceu. E agora estou aqui sozinho, acorde menina, acorde, parece mesmo uma menina, com um corpinho tão bem feito e um rabinho tão empinado, nem sei como tive a coragem e a estupidez de pensar que esta delícia dos deuses tinha pila e maçã-de-Adão. Mas esta beleza não se mexia. Coitadinhos dos seios encostados ao chão, coitadinhas das pernas rijinhas todas amarfanhadas de arranhões. Não te apaixones agora, pá, que esta não é hora para um gajo se apaixonar, primeiro porque a moça está morta, e depois porque, se por alguma razão, não estiver, precisa de uma ambulância e não de um ramo de flores. Cedi à razão e gritei com todas as forças da minha goela. Veio a ambulância. Perguntaram-me o que se tinha passado, não soube responder e levaram-me com eles. Mais ninguém apareceu. No mundo, só morava eu, aquele docinho escangalhado e os dois toninhos da ambulância.

Fui com eles. O caminho era esguio e sinuoso. Batemos em pedras e caímos em buracos. Capotámos duas vezes e despistámo-nos seis. Quando chegámos ao destino, o Hospital Doutor de nome importante, a gaja já não era gaja e eu já não era eu. Só os toninhos da ambulância é que continuavam toninhos da ambulância, com as barrigas salientes e os bonés vermelhos estilo Robbialac. Eu era um mosquito e a moça era um mata-moscas. Zás. Matou-me e eu acordei de rajada. Sem ar, sem moça, sem ambulância, sem Amélia, sem nada. Foi tudo um sonho e eu não gosto de sonhos, cabrões dos sonhos, vêm mansinhos pela noite, escorregam-me pela nuca e enroscam-se bem cá dentro da mioleira, porra, que dor de cabeça. A culpa é do Feliciano, que tem amigos mortos da cabeça. Vou dançar.

Ilustração de João Pedro Coutinho

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