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o meu sonho sempre foi

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O meu sonho sempre foi ser o meu pai. Ainda é. Ele ainda está. E eu ainda sonho. Mas o tempo passa e eu, por obra e graça de alguém ou de ninguém ou, sendo de alguém, será de mim, sou tristonho. Talvez por eu ser, talvez de nascença, assim. Qualquer parecença com o meu pai é só coincidência. Ele fica e vai com a mesma urgência de viver. Ele existe, luta, também cai, mas não se deixa vencer. Não por ser super-herói, mas por transformar tudo aquilo que lhe dói em alegria, por vezes aparente, como é vulgar acontecer, mas numa espécie de magia de ficar contente, sem doer. Nem um ai. Nem um André. O meu sonho sempre foi ser o meu pai. Ainda é. E ele ainda está. Um dia, serei. Só não sei quando será. Quando for, que, entre mim e o meu pai, tudo o que há é amor.

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encontrando ausência

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Podia ir lá para fora,
mas não vou.
Mas parece que estou lá agora,
mas não estou.
Como se fosse
sem sair daqui.
Fui eu que me trouxe
ou fui eu que me fugi?
Como se estivesse
num e noutro lugar
e não pudesse
lá estar.
Sou assim
em permanência,
procurando por mim,
encontrando ausência.

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se um dia a juventude

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Se um dia a juventude voltasse
e me dissesse «voltei»,
talvez eu a olhasse,
a despisse, a beijasse
e ficasse onde fiquei.
Ela veio e eu falei
com ela como se fosse
uma conversa vulgar.
Ela voltou e só trouxe
o que eu sabia lembrar.
Tudo o resto ficou
lá no lugar do passado
onde também está quem eu sou
e não só o lembrado.
Que lembrança ficou de mim,
desta lembrança que agora
me deixa perto do fim
por ouvir «fui embora»?

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nenhum deles voltou

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No mesmo avião, foram 26 jogadores. No mesmo avião, voltaram 14. A ganhar o Mundial, para festejar e para receber aplausos e notas, teriam voltado, no mesmo avião, os mesmos 26 jogadores que partiram. Perdendo o Mundial, voltaram apenas os que se sentiram verdadeiramente derrotados, verdadeiramente nobres. Os outros, certamente desolados, coitadinhos, ficaram tristes, tão tristes, a festejar no lugar onde nenhum deles perdeu, porque nenhum deles voltou.

Imagem: Fauzan Saari

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sempre só com ele

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Não é por não marcar nem por não jogar como jogava. É por festejar e por chorar como sempre o fez: sozinho. Nunca foi pelas equipas nem pela Selecção, sempre foi só por ele. Ronaldo existe sozinho. Sempre existiu. Para ele, os outros não existem. Por muito que tenha contribuído para o sucesso das equipas e da Selecção, ele sempre existiu só para ele. Por isso é que, festejando ou chorando, ele nunca está com os outros. Está sempre só com ele. E ele está como sempre esteve: sozinho.

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a tragédia começa no nariz

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Tenho o nariz entupido. Tenho medo de morrer. Um clássico, eu sei. Sou homem e os homens não podem apanhar uma gripezinha que ficam logo não sei quê inserir clichê dito por mulheres que são todas muito fortes. Eu não sou. Nem mulher nem forte. Não neste caso que, para mim, é de vida ou morte. E não me ajuda nada falar ou escrever sobre isto porque, falando ou escrevendo, estou a lembrar-me constantemente de que tenho o nariz entupido e de que, ordem natural das coisas, vou morrer. Então falo e escrevo sobre isto, que esperteza. Acho que nunca nenhuma pessoa morreu por ter o nariz entupido, mas eu tenho sempre a forte convicção de que eu serei a primeira. Por isso é que, há coisa de meia hora, depois de ter passado o efeito de umas super gotas, saí do quentinho da minha casa para partir em busca de uma caixa de victans. Se é para morrer por culpa do nariz entupido, ao menos que esteja drogado, a dormir. Também encontrei uma pomada toda ninja. E tenho livros e um gato e um caderno onde aponto o que encontro e me apetece guardar. «”A comédia começa nas pernas”, Jacques Tati». (Só aponto o que encontro no caderno, não no gato, por vezes nos livros.) Sou capaz de morrer um dia destes, nunca se sabe. Já sei. A tragédia começa no nariz, André Pereira.

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uma noite e uma tarde

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Uma noite e uma tarde no Teatro da Comuna. Sozinha, com tanta gente ao lado, a Maria riu, cantou e chorou. E fez com que tanta gente tivesse rido, cantado e chorado – a toda esta gente eu só posso dizer obrigado. Eu, que apenas escrevi e ajudei a criar, ri, cantei e fartei-me de chorar. Culpa da Neide, Maria sem lugar.

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palavra de honra

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JÁ NÃO HÁ PACIÊNCIA… para abacate. É abacate ao pequeno-almoço, abacate ao almoço, abacate ao lanche, abacate ao jantar, abacate na torrada, abacate no frango, abacate no soro da quimioterapia… Raios partam o abacate.

DETESTO… ter o nariz entupido e tomar decisões. 

A IDEIA… é bastante polémica, não sei se o mundo está preparado para ela, mas cá vai: não sair da zona de conforto. Se é zona de conforto, e se conforto significa prazer, por que raio é que temos de sair de lá?

QUESTIONO-ME SE… é assim tão saudável eu questionar-me. Se não seria preferível eu andar por aí a fazer perguntas aos outros e não a mim.

ADORO… não ter o nariz entupido e tomar decisões.

LEMBRO-ME TANTAS VEZES… de jogar num campo que ainda existe, mas que o Presidente da minha terra diz que não.

DESEJO SECRETAMENTE… nada. Desejo sempre de forma pública. Um beijo, Lúcia Moniz.

TENHO SAUDADES… de ambientes que não são intimistas, de exposições que não são imersivas e de amigos que não são amigos dos seus amigos.

O MEDO QUE TIVE… quando, a 11 de Maio de 2013, vi o Roderick Miranda a aquecer… Confirmou-se.  

SINTO VERGONHA ALHEIA… de quem leu este início de frase e disse vergonha alheira.  

O FUTURO… a Deus pertence, claro está, visto que nem um nem outro existem.

SE EU ENCONTRAR… a palavra Liberdade no primeiro discurso de Paulo Raimundo como secretário-geral do PCP, inscrevo-me no Partido*. Até agora, ainda só encontrei as palavras Força 18 vezes e Luta 21 vezes. *10 vezes

PROMETO… uma feira medieval e uma cidade sobre rodas todos os fins-de-semana. Votem em mim!

TENHO ORGULHO… orgulho em ser uma vaca. (Assim mesmo, com dois orgulhos.) A frase não é minha. Nem de nenhuma amiga. É da Vaca Glória, da Rua Sésamo. É parte da letra de uma canção que está na minha cabeça desde os anos 90.

Jornal de Leiria

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dói-dói no menino

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O Ronaldo sente-se muito injustiçado, coitadinho. Então, como qualquer adulto que se sente injustiçado, decide fazer birra. Diz que não treina, diz que não joga e tudo o que tem a dizer não diz a quem deve, diz na televisão. Sai de casa, bate com a porta, chora, grita, faz queixinhas e deixa o clube a arder. Esconde-se debaixo das saias da mamã Fernando Santos, pede colinho aos meninos da Selecção e espera que alguém olhe para ele e lhe dê o brinquedo que ele tanto quer: voltar a ser reconhecido como o melhor. O que lhe interessa não é o que ele pensa que é, é o que os outros pensam. E os outros, pelo menos os mais lúcidos, já não pensam que ele é o melhor. E isso faz dói-dói no menino. O Ronaldo, que sempre foi de jogar, lutar e marcar, está, neste momento, a rebolar no chão por uma falta que não existiu. Ele é que tropeçou nele próprio.

Imagem: AFP

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a ditadura da ignorância

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Toda a gente que vota no Bolsonaro é apoiante do Bolsonaro. Nem toda a gente que vota no Lula é apoiante do Lula. Esta é uma eleição de um só candidato. O outro é só o pouco que se arranjou para impedir a ditadura da ignorância. Triste Brasil que deixa a alegria para o samba.

Imagem: Helder Oliveira

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isto não é um campo

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«Isto não é um campo.» O Presidente da União das Freguesias da minha terra olha para o Parque de Jogos do Sport Clube Leiria e Marrazes e diz que não é um campo. Ao dizer que não é um campo, o Presidente da União das Freguesias da minha terra está a dizer muito mais. Por detrás destas palavras, como por detrás do muro trancado a cadeado e vedado a tijolos, vejo outras palavras: desrespeito, desprezo, ingratidão. Vejo todas elas por toda a História do clube e da terra, por todas as pessoas que construíram o campo e por todas as pessoas que por lá passaram e que por lá fizeram e deram vida. Por detrás do muro das palavras «isto não é um campo», vejo uma lixeira mais suja do que aquela que o Presidente da União das Freguesias da minha terra deixou alastrar no Parque de Jogos do Sport Clube Leiria e Marrazes. Para ele, «isto não é um campo». Para mim, isto não é um presidente.

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libório, o barbeiro

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Depois de um agricultor, de uma operária fabril, de uma costureira e de uma agente funerária, chegou a vez de um barbeiro. Neste último vídeo da Rua Saramago, Jorge Libório lê e é «O Homem Duplicado».

Produção de Neide Simões, realização de Andreia Mateus e participação especial heavy metal de Fernando Ribeiro (Moonspell).

Município de Leiria | Leiria Cultura | Semlimites Produções | Dr. Barber

Vídeo aqui.

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santiago, para outro lugar

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Há duas velocidades nesta história, a do caminho e a do confronto. Demora até lá chegar. Quando lá chega, vai de repente para outro lugar. Mas, seja qual for a velocidade a que se caminha, há talento. Na ideia e na criação – a de quem não aparece e a de quem dá a cara, a voz e tudo o resto que um actor dá para que tudo pareça real. E para que nós caminhemos com ele. A Lúcia leva-nos pela mão durante este primeiro episódio. Aperta-a com força e não a larga (parece que aperta a mão do Ivo – que também nos leva – mas é a nossa). É uma espécie de encantamento que nos faz ir com ela. É tão leve a ir de um lugar de dentro a outro e tão pesada a parecer o que é em cada lugar. É uma ilusão constante, com aquele ar de menina bonita e frágil que não faz mal a ninguém, e nós ali, a olhar para ela e, num instante, é ela que nos tem. Como a Leonor, a Lourdes da história. Quase não fala, nem tem de falar. Tem um carisma que fala por ela, uma inquietação que passa para quem a vê, mesmo que ela esteja no cantinho do plano. Mais um bonito engano. E, por falar em beleza, César Mourão. (Este elogio tem o patrocínio de mais convites destes.) Faz tudo bem (aqui, fez a ideia e a produção), à excepção de escolher agremiações clubísticas. Desafiou-me a ir e desafiou-me a terminar o texto que eu iria escrever, este, com as próximas palavras sobre o primeiro episódio de Santiago. São estas, mas não são apenas sobre o que estava no ecrã. São, também, sobre ele. (Ainda bem que não é.): «Se é português? É, mas podia não ser.»
 
| SANTIAGO. Realização: @pedrovarelalx; Criação: @cesartmourao@diogovbrito e @ines.o.braga; Produção: @313features@blanchefilmes e @sicoficial; Argumento: @ines.o.braga@pedrompgoulao e @pedrovarelalx; Elenco: @luciamoniz@ivocanelas@_barbarabranco_ , @carla_maciel_strangles@leonor_vasconcelos e outros que são tantos que eu não os escrevo aqui que não há espaço – encontrem-nos na @opto.sic |

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sêco, a agente funerária

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O fim da morte, por quem vive dela. Quarto vídeo da Rua Saramago, com produção de Neide Simões e realização de Andreia Mateus.

Município de Leiria | Leiria Cultura | Semlimites Produções | Funerária Seco

Vídeo aqui.

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não sou de lugar nenhum

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Acho que escolhemos de onde somos pelo lugar onde gostaríamos de morrer. Eu não gostaria de morrer em lugar nenhum. Não sou de lugar nenhum. Nasci onde não estou. Morrerei no lugar onde não gostaria de morrer. Quando lá estou, no lugar onde nasci, sou de longe. Quando estou aqui, sou de longe também. Acho que sou sempre do lugar onde não estou. Nem é estar bem onde não estou ou querer ir aonde não vou. Não é isso. É não estar onde estou, é não ir para onde vou. O meu lugar é sempre lá, longe. Não longe de mim, longe daqui. E aqui é em todo o lugar. E eu sem lá estar.

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rosalina, a costureira

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Lá está a costureira, dona Rosalina.

Terceiro vídeo da Rua Saramago, com produção de Neide Simões e realização de Andreia Mateus.

Município de Leiria | Leiria Cultura | Semlimites Produções

Vídeo aqui.

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lurdes, a operária fabril

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Diante dos nossos olhos (e ouvidos), Lurdes, operária fabril. Segundo vídeo da Rua Saramago, com produção de Neide Simões e realização de Andreia Mateus.

Município de Leiria | Leiria Cultura | Semlimites Produções

Vídeo aqui

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ferreira, o agricultor

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Fui para a rua ouvir Saramago. Levei livros, trouxe gente.

O senhor Ferreira trabalha a terra, é agricultor. É ele o rosto e a voz e as mãos do primeiro vídeo deste meu novo projecto, Rua Saramago. Cinco vídeos de cinco pessoas de Leiria lendo o nosso Nobel no exercício das suas profissões. Produção de Neide Simões, realização de Andreia Mateus. Palavras de Saramago.

Vídeo aqui.

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rua saramago, o princípio

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Este sábado, todas as ruas de Leiria vão dar à Rua Saramago.

Às 15h, na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria, apresento o meu novo projecto feito de palavras do nosso Zé e de gente da nossa cidade.

Vídeo-teaser aqui.

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magia com os pés

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Foi bonito voltar. E cansativo como o raio. Já não me lembrava da necessidade de correr para jogar à bola. Em boa verdade, já não me lembrava da necessidade de saber jogar à bola para jogar à bola. A bola estava vazia, era isso. E não tinha as dimensões adequadas para a prática do futebol de elite que se esperava ver no Campo nº1 da Aldeia do Desporto do Sport Clube Leiria e Marrazes. O relvado também não estava em condições, claro que não. Era relvado, eu sou vedeta é em pelado. No entanto, houve rasgos de magia, em particular quando a bola desapareceu uma série de vezes para o pinhal, e rasgos de um ou outro músculo que agora não se acusa mas que amanhã, ao acordar, vai dizer bom dia aos gritos. Foram, aliás, gritos, estes de entusiasmo e de regozijo (bem, talvez tenham sido todos de espanto), que eu ouvi depois de, na sequência de um cruzamento milimétrico vindo da ala direita, eu ter efectuado um exímio movimento técnico de cabeça que fez a bola balançar as redes. Sem hipótese de defesa. Incrível. Primeiro golo de cabeça que marquei na vida. Primeiro golo do primeiro treino do regresso das Velhas Guardas do clube da minha vida. Foi bonito voltar. Obrigado a quem me recebeu – e a quem compreendeu esta minha forma muito peculiar de fazer magia com os pés.

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a partícula de deus

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O sistema de senhas do Hospital de Leiria é um dos grandes mistérios da Humanidade. E ainda bem. Porque, tendo em conta as horas de espera naquelas cadeiras de plástico viradas para um ecrã a mostrar como lavar as mãos, sempre vamos ocupando a cabeça a tentar decifrar este enigma da ordem de chamada. A minha senha M0288 foi chamada antes da senha M009 e depois da senha M978152726388. A culpa é minha, eu sei. Eu é que ainda não percebi a razão para este complexo sistema de funcionamento de anunciação, anunciamento, anunciamentação, sei lá, estou cansado, do número da senha. Certamente, há uma organização perfeita, funcional, eficiente, produtiva, prolífera, profícua, válida, resumindo, ao calhas que explica isto. Eu é que não percebo – e estava ali para tratar do ombro, não da cabeça. Na verdade, nem eu nem ninguém percebe. E é essa incompreensão de algo que deveria ser facilmente compreendido que faz com que eu aplauda este sistema de senhas todo ninja criado pelos génios da informática hospitalar. As pessoas estão ali sem fazer nada, horas e horas e horas e horas à espera de uma consulta de cinco minutos para ouvirem ah dói-lhe o ombro?, então temos de tratar disso, muito obrigado, senhor doutor, novidade do caralho, ponha gelo e tente não tocar onde lhe dói, vamos fazer análises, a próxima consulta é já em 2025. Bem, já estou a escrever demasiado e o meu ombro já está a gritar, estou velho, mas as pessoas também e estão ali à espera. Então, fazem um sudoku da compreensão do mecanismo inteligentíssimo de senhas. Em vez de tirarem um curso e irem para o CERN tentar decifrar a partícula de deus, arranjam uma tendinite e vão para o hospital tentar decifrar a partícula do totoloto das senhas. Bem, vou aproveitar e tirar senha para Psiquiatria.

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a obrigação da felicidade

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Sou obrigado
a ser feliz.

Toda a gente,
em todo o lado,
me diz
que tenho a obrigação
da felicidade.

Eu acho que não,
que não tenho obrigação
de nada,

muito menos
dessa coisa inventada.

Não tenho de a ter
nem de a procurar.

Mas até que gostava,
assim sem a saber,

de a encontrar.

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tantos que são ninguém

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Tantos que são
ninguém.
Quem?
Eu não.

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ai que linda que é a vida

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ai que linda que é a vida
coisa linda de se ver
ora alegre ora sofrida
ora como tem de ser

ai que linda que é a vida
quando ainda só começa
mas lá vem a despedida
e lá vai a vida à pressa

ai que linda que é a vida
das birras do coração
será mesmo linda a vida?
talvez não

ai que linda que é a vida
coisa linda pelo fim
será morte a própria vida?
talvez sim

ai que linda que é a vida
coisa linda de dizer
quem me dera saber a vida
mas eu não a sei viver

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não é de
amor

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amor
poesia

não é de amor
nem de saudade
não é de asma
nem de vaidade
não é de apneia
nem de ilusão
não é de um mal
nem de hipertensão
não é de bullying
nem de rinite
não é de falta
de apetite
não é de gota
nem de alergia
não é de culpa
nem de apatia
não é de orgulho
nem de indiferença
não é de nenhuma
doença
não é de medo
do escuro
eu sofro de passado
e de futuro

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tudo isso que não há

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Como se cala o que não aconteceu, o que nem sequer existiu? Toda essa inexistência me grita aos empurrões. Tudo isso que não há, mas que eu oiço e que eu sinto e que eu tento calar e que eu tento parar e que eu não consigo. Tudo isso não me pára de gritar. Nada aconteceu. Nem eu comigo.

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fartinho de chorar

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Ainda éramos miúdos, ainda jogávamos, cada um na sua modalidade, quando o Simão me ofereceu o seu stick de hóquei – já não o usava, e achou que ficaria melhor nas mãos de quem nunca o iria usar. Eu nunca soube jogar. Nunca soube, sequer, andar de patins. Mas aquele stick que ele me deu, e eu nunca lhe disse isto, foi uma das coisas mais bonitas que recebi. Guardo-a como uma relíquia. Sei do Simão desde sempre. Das brincadeiras, das escolas, das férias, das catequeses, das festas, das ruas, dos Marrazes – da paixão pela terra, da paixão pelo clube. Conheço muita gente apaixonada, não conheço ninguém com a paixão do Simão. Uma paixão que vem do amor imenso, que lhe vem da história, pela sua gente e pela sua camisola – mesmo quando foram outras que vestiu. O Simão é o Simão porque, à paixão do amor, sabe ter o trabalho, a humildade, o profissionalismo, a exigência, a seriedade e tantas outras qualidades, e defeitos, claro, como qualquer ser humano que se preze, que fazem dele quem ele é. A nossa equipa de hóquei garantiu a subida à Segunda Divisão. Ele é o treinador. Ele, um puto da minha idade a ser treinador dos seniores. Estamos velhos. No domingo, eu vi o Simão como poucas vezes vi. Feliz da vida, fartinho de chorar. Ao seu lado, dentro dele, toda a gente – atletas, amigos, dirigentes, adeptos, família – que lutaram por esta alegria com tudo o que tinham, acima de tudo, suor. Pela nossa terra, pelo nosso clube. Com o nosso Simão.

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fausto, ninguém dança

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“Fausto” é uma peça de teatro que é uma peça de dança. Ninguém dança nesta peça. Mas tudo o que acontece não pode ter outra definição. Dança quem representa, quem entra e sai, dança quem nem sequer tenta, quem vai andando por ali à procura do seu papel na plateia que não há, porque apenas há palco. E todos dançamos como se fôssemos todas as personagens que ali estão. Ninguém dança, é tudo invenção. Mas acreditamos que sim, que dançamos – toda a gente. Culpa e talento de quem nos faz dançar. O Diabo não existe. O Hugo só existe com ele. Não poderia ser outro a vestir-lhe a carne – a que anda, a que corre, a que sorri, a que ri, a que grita, a que fala, a que canta, a que sussurra, a que range, a que beija, a que morde, a que desaparece. “Fausto” tem arte em muitos lugares e em muitas pessoas. O Hugo, sendo este Diabo que não existe, é arte de todos os lugares e de todas as pessoas. Pelo meio de todos eles e de todas elas, lá vai dançando e lá vai fazendo dançar como se esta dança da representação fosse, para ele, uma infantil forma de brincar. O Hugo agarra toda a gente pela boca e não deixa ninguém respirar ao longo de toda a peça. Ele é personagem de dentro e é personagem de fora, de quem representa e de quem não. É uma espécie de encenador em pontas que vai dizendo o que devemos fazer, pensar, temer e venerar. O Diabo não existe e poderia ser outra pessoa, como é em todas as outras representações de “Fausto”. Mas, quando o Hugo dança, ninguém sabe dançar.

| “Fausto”, no Teatro da Comuna. Texto de Goethe, com adaptação e direcção de João Mota. Interpretação de Hugo Franco, Carlos Paulo, Rogério Vale, Luís Garcia, Miguel Sermão, Gonçalo Botelho, Francisco Pereira de Almeida, Ana Lúcia Palminha e Patrícia Fonseca. Cenografia de Renato Godinho |

Fotografia: Bruno Simão

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uma canção do medo

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A escuridão magoa. Mais do que uma bolada na cara ou um pontapé nos tomates. A escuridão, que nem sequer nos toca, tem o incrível talento para nos deixar estendidos numa valeta. Quando estamos com ela, quando ela nos tem, não tem mais nada, não temos mais ninguém. Estamos inteiramente dentro do escuro, que é incerto, indefinido, indeterminado, desconhecido e que, pela certeza de toda esta incerteza, nos faz ter medo. E o medo, por muito que nos digam que faz parte de quem é inteligente, é bem capaz de nos partir, destruir, como faz com tanta gente. A escuridão traz o medo num carrinho de bebé. Tão pequenino que parece, tão grande que ele é. A escuridão tem outro talento além da força. A escuridão é sempre uma coisa e o seu oposto. A escuridão é sempre o monstro e a formiga, apenas sendo o monstro ou a formiga quando deixa de ser escuridão. Mas, sendo escuridão, é sempre maior do que é na realidade, porque é sempre monstro e formiga, nunca só um.

Nós estamos na escuridão. E o medo já não vem de carrinho, vem pela mão. Tudo o que lá está – que é tudo o que nos tem – é muito menos do que aquilo que imaginamos. É a imaginação que nos trama, o idealizar que há ali qualquer coisa que é chama, que nos chama. E nós vamos, acreditamos no que imaginamos, e a imaginação é real como um corpo ou um sonho. E está lá o monstro, a formiga, as famílias dos dois, os passados e futuros dos dois, os sonhos dos dois, as conversas dos dois, as fodas dos dois, e depois? Depois não há razão, pelo menos enquanto houver escuridão. Mas há pele, há guerra, há mel, há terra, há chão, há sorte, há não, há morte. À escuridão, nada lhe falta, por pouco ou nada que ela tenha. Quietinha no seu canto, completamente alastrada em nós, a escuridão não faz barulho, grita como se toda ela fosse voz. Não mexe uma palha, deixa-se estar à espera da canalha que venha brincar. E claro que a canalha, que somos nós, vem sempre. A gritar.

Desejamos a escuridão na exacta medida em que a negamos. Somos todos gente feliz nos cafés, nas ruas e nas redes sociais. A escuridão não nos existe. Jamais! Mas assim que pagamos a bica, cruzamos olhares ou bloqueamos o telemóvel, lá vem ela, essa galdéria escondida, trincar-nos as ilusões. Nós, que andamos por aí a fingir nas entrelinhas da vida, esquecemo-nos de ouvir a nossa batida. Vivemos vidas que não são as nossas, vestimos roupas que não temos, usamos máscaras que nos tapam da cabeça aos pés. Eu não sei como sou. E tu, sabes como és? Verdadeiramente, sem merdas, sem adjectivos com caracteres contados para a bio do Instagram ou do Facebook. Realmente, sem maquilhagem, sem photoshop, sem mamas, sem abdominais. Eu não sei para onde vou. E tu, sabes para onde vais?

Há qualquer coisa de atracção na escuridão. Eu sei, cedo-lhe tantas vezes. E tardo-me em sair de lá, culpa minha, claro, que a escuridão não existe sozinha, só com gente que a veja. A escuridão parece que beija. Com dentes. Aleija. Eu acho que sinto. E tu, sentes? A escuridão é uma espécie de materialização do futuro. Sabemos o que é, mas não sabemos o que tem. Olhamos, pensamos, imaginamos, mas não vamos além. Não conseguimos, não sabemos, e seguimos e logo vemos. A escuridão tem tudo o que julgamos que ela tem. É por isso que nos intimida, que nos faz sentir ainda mais sós. A escuridão é a nossa vida. A escuridão somos nós.

, texto na Grotta #5 (edição Letras Lavadas).

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não chorei, claro que não

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Não chorei, claro que não. Eu sou lá gajo de choradeiras. Este puto, que este domingo deixou a bola, é o puto que, há mais de trinta anos, me deixou na pré-primária para ir para a escola dos maiores. Naquele dia, eu chorei. Neste, não chorei, claro que não. Nem disfarcei nem nada. Nem me lembrei das futeboladas de rua, com pedras a fazer de baliza. Nem dos passes teleguiados deste menino para os golos deste puto. Há provas. O meu pai filmou alguns jogos ao lado do pai do Miguel. E as mães ao lado uma da outra. Só partilhávamos um ano por escalão. Ele descia a equipa, eu subia. Miguel, sabes que é verdade. Mas também é verdade que ele dava uma magia diferente àquela magia que é o futebol. Mesmo em campos de terra, com linhas tortas, sem relva. À homem. À garoto. Não conheço ninguém que não goste do Miguel. Também não me lembrei da escola. Nem dos copos. Não vale a pena falar disso agora. Felizmente, não há provas. Só tive um clube, o Sport Clube Leiria e Marrazes. O Miguel teve outros, mas só teve um. Este clube deu-nos família. Eu já tinha, e ainda tenho, o Miguel.

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nada a não ser ver sofrer

Comentários fechados em nada a não ser ver sofrer bloco de notas, maria sem lugar, teatro

Não decorei o texto. Não subi a palco. Não representei. Não tenho como agradecer à Neide, que fez tudo isto por uma personagem que eu apenas escrevi. Não fiz nada a não ser ver sofrer, sofrendo também. Custou-me a antecipação das luzes. Doeu-me a barriga. Tive prazer. Disse todas as palavras que a Maria disse. Fiz todas as marcações que a Neide fez. Fui o que ela foi. Estive onde elas estiveram. Ver a Maria viva, real, criada pelo nervo e pelo corpo da Neide, foi de uma estranheza tão assustadora quanto bonita. Como ela é. Como elas são. As duas. E toda a gente que encheu a sala. Não tenho como agradecer a ninguém. Ela sem lugar, e eu sem palavras.

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do choro uma coisa bonita

Comentários fechados em do choro uma coisa bonita bloco de notas, música

A Carminho tem o dom de chorar com a garganta. Quando canta, faz do choro uma coisa bonita com todo o desespero e com todo o prazer que só a beleza tem. A voz da Carminho é verdade, e é ela que vem quando ela a chama. Ela não embala, estremece. É uma voz que cala quem não a esquece e a continua a lembrar mesmo depois de ela deixar de cantar. A voz da Carminho é uma espécie de lágrima arrastada arrancada ao coração. Não precisa de mais nada. Só assim, já é canção.

A Carminho veio ao Teatro José Lúcio da Silva cantar com a Orquestra Jazz de Leiria. Chorou com a garganta, mas pouco se ouviu, porque se ouvia o que não se deveria ouvir, o típico virtuosismo gabarola de quem tem talento a tocar, mas não o tem a compreender o que se ouve, o choro. É habitual em quem procura mais o aplauso do que a emoção, por só encontrar a sua vaidade no lugar do coração. A Carminho veio sozinha e foi sozinha que ela esteve em palco – apesar de toda a gente que o pisava. Eles não ouviam, mas ela chorava.

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vitorino sem angústias

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Tenho a impressão de que o meu gato sabe tudo da vida e por isso é que não anda para aí com angústias sobre o que é ou deixa de ser. Limita-se a viver, e viver assim, desta maneira, parece-me ser demonstração de uma inteligência fora do vulgar, inteira. Desde que tenha comida e protecção, o meu gato está onde tem de estar, aqui, e é o que tem de ser, feliz. É, pelo menos, o que me parece. Tem, também, um ou outro coração que lhe dá colinho, festinhas e algumas palmadas – que tantas vezes merece, tantas vezes de mim -, e isso é capaz de ajudar à minha crença de que ele é feliz. Espero que sim. Ele não me diz.

Vitorino, a viver sem angústias – e com algumas palmadas, que tantas vezes merece – desde 17 de Março de 2016.

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é a maria, e a maria sou eu

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A Neide é a Maria, e a Maria sou eu – eu sou sempre o que escrevo, e a Neide é sempre o que ela quiser. Ela pediu-me palavras, eu escrevi Maria. Sem lugar.

MARIA SEM LUGAR
Teatro, Monólogo
25 de Março, 21h
Auditório Municipal Padre Bento da Guia, Moimenta da Beira

Sinopse: Maria não tem lugar porque não sabe que lugar é o seu. Maria tem dúvidas sobre o que é e sobre o que quer, mas tem certezas de que o seu lugar nunca é o lugar onde ela está. Ao longo de 40 minutos, Maria desabafa a sua normalidade que tanto parece anormal aos olhos do mundo segmentado e polarizado dos dias de hoje. Uma mulher e algumas palavras num palco que, naturalmente, também não sente como seu.

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quietinhos e caladinhos

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Hoje é o Dia da Mulher. Mas, homens, muita atenção! Não podemos dizer que hoje é o Dia da Mulher. Qualquer menção ao Dia da Mulher, qualquer gesto de carinho para com a mulher neste dia, apenas vai reforçar a discriminação do homem em relação à mulher por haver um Dia da Mulher. Portanto, nada de dizer que hoje é o Dia da Mulher. E nada de gestos carinhosos, de beijos, de poemas, de chocolates, de flores, de jantares. Não devemos pronunciar Dia da Mulher em lado nenhum, em nenhum momento. É discriminatório. Reforça a desigualdade. A mulher que aproveita o Dia da Mulher para condenar o Dia da Mulher não quer que o homem aproveite o Dia da Mulher para elogiar a mulher. Deixemos a mulher criticar, no Dia da Mulher, quem utiliza o Dia da Mulher para não a criticar. Deixemos a mulher usar o Dia da Mulher como bastião de uma relevância que a mulher não precisa de ter (pela simples razão de a mulher já ser igual e não precisar de nenhum dia para que essa evidência seja realçada) para ela criticar quem usa o Dia da Mulher como bastião de uma relevância que a mulher não precisa de ter (pela simples razão de a mulher já ser igual e não precisar de nenhum dia para que essa evidência seja realçada). Hoje é o Dia da Mulher. Mas, homens, muita atenção! Vamos defender a igualdade, obedecendo, quietinhos e caladinhos, às ordens da mulher.

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não ter medo não existe

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Não ter medo não existe. Todos temos medo. Quem foge e quem luta. Quem diz que não tem medo não quer dizer que não tem medo, quer dizer que tem coragem. “Não tenhas medo”, “Por que é que tens medo?”, “Não sejas medricas” são frases de uma narrativa da fraqueza sobre o medo que nos é metida pela goela abaixo desde o berço. Ter medo não é fraqueza. Só é corajoso quem tem noção do perigo que enfrenta e que teme. Não é corajoso quem enfrenta o que não faz mal, o inofensivo. A coragem vem da noção da existência do medo, não da sua negação. Todos temos medo. Sobretudo quem acha que não.

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só um bocadinho

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Um garoto a curtir Moonspell. Cinco anitos, mais coisa menos coisa, de mini-metaleiro empoleirado aos ombros da mãe. Eu, mais velho um bocadinho, quase nada, fui também aquele pirralho de cabelo em pé e deditos trocados no ar. Foi bom voltar a sentir aquela inocência de quem ouve metal pela primeira vez. Caraças, que maravilha, bateria, guitarra, baixo, teclas, voz, potência, irmandade e delicadeza. Fiquei à beira de chorar mas, como bom metaleiro que sou, chorei mesmo. Só um bocadinho, quase nada.

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génio e sombra de génio

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Hipólito, Fedra, Teseu, pouco importa. Poderia ser João, Maria, Manuel. Importa a culpa. Só ela, sempre ela, do princípio ao fim da peça, do princípio ao depois do fim das personagens. A culpa assumida por Fedra por estar apaixonada por quem não deveria estar, a culpa atirada a Hipólito por não venerar uma deusa que deveria venerar e por desejar uma humana que nunca desejou e nunca teve, a culpa escondida de Teseu por ter condenado à morte quem não merecia morrer. Fedra escolhe a morte, Hipólito rende-se a ela, Teseu morre deixando-se viver. Há palavras e gestos que não são deste tempo, tal como há génio e sombra de génio que não deveriam existir no mesmo palco. E isso importa, apesar de tudo. E tudo é culpa. Não deixando de ser teatro.

| “Hipólito”, pela Companhia de Teatro de Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite. Texto de Eurípides, encenação de Rogério de Carvalho, interpretação de Carolina Dominguez, Cláudio da Silva, Elsa Valentim, Joana Francampos, Marques Arede, Miguel Eloy, Pedro Fiuza, Sofia Correia e Teresa Gafeira |

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palavra bonita dita pela boca

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António Costa, rejeitando qualquer conversa com o CHEGA, está a rejeitar qualquer conversa com 385.559 pessoas. Para ele, por pensarem diferente, estas pessoas não existem. Ele não diz que elas têm ideias diferentes – isso ele diz sobre todas as outras que votaram noutros partidos ou que não votaram, de todo. O que ele diz é que esta gente que votou neste não existe. É vazio. É nada. Ele nem considera a hipótese de tentar perceber as razões para esta gente ter as ideias que tem – ou, não as tendo, ter votado em quem votou. Ele, simplesmente, olha para o lado e finge, dizendo, que esta gente não existe. É ele que diz ser o primeiro-ministro de todos os portugueses. É ele que tem o dever de o ser – mesmo daqueles que têm ideias diferentes, por muito abjectas que possam parecer ou ser. António Costa, rejeitando qualquer conversa com o CHEGA, está a rejeitar aquilo que diz defender: a democracia, a igualdade, a liberdade – nada disto pode ser apenas palavra bonita dita pela boca de qualquer um. Tudo isto deve ser dito por inteiro, com toda a definição que tem. Catalogar parte do seu povo como inexistência é catalogar-se como isento de pensamento, de tolerância e de humanidade. Rejeitar quem é como nós – porque somos todos iguais, ou não somos? – é rejeitar-se a si próprio. É assumir uma única inexistência, a sua.

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benfica vs. benfica

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Se aquele golo tivesse contado, talvez o Benfica tivesse vencido. Mas duvido que tivesse começado a jogar um futebol incrível. O Benfica tem sido prejudicado uma ou outra vez pela arbitragem, mas não me parece que isso tenha assim tanta relevância. A arbitragem é sempre o bode expiatório de qualquer clube que está mal. É a tal necessidade de um vilão. A História explica isso, como diria o filósofo António Costa. E essa explicação vai da realidade à banda desenhada – o Batman não seria tão herói se o Joker não fosse tão vilão. Quando o Benfica não tem hipóteses de ter o Sporting nem o FCPorto como vilões (tendo em conta as distâncias pontual e de futebol praticado), atribui esse papel à arbitragem. Esta atitude de transferir o alvo para outro que não para si é natural no comportamento humano, mas não é uma inevitabilidade. Mas, ao que parece, parte da nação benfiquista acha que sim – ou melhor, não acha, aceita sem pensar em achar o que quer que seja. Mas só aceita porque não pensa, ou porque pensa mal. Porque, na verdade, o vilão do Benfica é o Benfica. E isso, se já custa pensar, custa ainda mais assumir. Mas é a verdade, é o passe a rasgar. E é o único caminho para o crescimento, para o golo.

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somos todos chega

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Ao longo do ano, somos todos CHEGA: todos criticamos, provocamos, insultamos quem nos governa. Cuspimos frases feitas, sem conteúdo, sem noção e sem saber. Assim que uma pessoa igual a nós faz exactamente o mesmo que nós, mas na televisão, à frente de um partido, com gente aos ombros, nós deixamos de ser CHEGA. O nosso ódio ao CHEGA não vem do que ele diz ou defende. O nosso ódio ao CHEGA vem da nossa parecença com a gente que faz dele o que ele é. Não somos contra ele, somos contra nós. E bem. Mas seria saudável, e inteligente, se tivéssemos coragem para o admitir.

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não votar também é votar

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Não votar também é votar. Quem não se interessa, quem não quer saber, quem não acredita, quem é contra, toda esta gente que não vota por não querer é gente que diz tanto como a gente que vota. Eu voto. Acho que devo votar. Mas também acho que, se nem toda a gente o faz, que é tanta, e se devemos ser uma sociedade que represente toda a gente, devemos aceitar quem não se interessa, quem não quer saber, quem não acredita e quem é contra. Que não votar também é votar.

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nem os homens são iguais

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A doença da esquerda é acreditar na fábula da igualdade. A doença da direita é acreditar na fábula da superioridade. A esquerda diz-se superior por defender a igualdade dos homens. A direita diz-se igual para defender a superioridade além dos homens. Ambas defendem a utopia. Nem os homens são iguais, nem há nada acima deles. A doença da esquerda é a mesma doença da direita: uma absoluta aversão à humanidade.

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a aceitação do caos

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Tenho de aceitar este meu caos. Gostava, ou gostaria?, está bem das duas maneiras, mas uma é mais certa do que a outra, será que é certo afirmar que uma maneira é mais certa do que a outra?, não necessariamente uma maneira, mas alguma coisa ser mais certa do que outra coisa, assumindo que ambas são certas?, se ambas são certas, o que interessa além daí?, é como usar pontos de interrogação a meio de frases, ou letras minúsculas ou vírgulas depois de pontos de interrogação, será?, não sei, ou não usar pontos finais, cuspir na, pontuação; certa! e andar por: aí escrevendo o que bem me apetecesse da maneira que bem mapetcêsse, caraças, usei o gerúndio, adoro usar o gerúndio, pouca gente usa, dá a ideia de erro, mas só dá essa ideia a quem, não sabendo escrever ou não sabendo saber, que ainda é mais grave, é um erro, e agora estou a confundir quem me lê por não estar a acompanhar esta barafunda de, ora aqui está outra palavra bonita, barafunda, gosto, não sei bem por que razão, até porque, escrita, não é lá muito bonita, e dita também não é linda, mas é o que é, gosto da palavra, não tenho de arranjar uma justificação lógica para gostar dela, ou tenho?, como se o amor, oh não, lá vem ele falar de amor, não, não vou, porque agora emperrei, aqui está outra palavra gira, ou melhor, outra conjugação de uma palavra gira, emperrar, numa interjeição, é oh não ou ó não?, ou tem vírgula lá no meio?, eu acho que tem, mas não a usei, também não a vou usar agora, que já foi numa linha passada, perceberam a graça?, uau, muito giro, avançando, não saindo do lugar, a verdade é que gostaria, vamos manter gostaria, sim, de ser organizado, de ter a minha vida arrumadinha, as minhas meias, os meus apetites, as minhas palavras, os meus ódios, tudo ajeitadinho num degradê de cores, da mais escura para a mais clara, como se fosse uma mensagem subliminar para os fios condutores, possivelmente eléctricos, da minha vida, olhem lá, oh seus mandriões, ou ó seus mandriões, clareiem-me a vida, se fazem favor, ora aqui está outra conjugação bonita, estou cansado comigo. Tenho de aceitar, eu sei que tenho, eu juro que tento, mas não consigo.

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representação do engano

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Sempre nos queixámos da falta de sinceridade e da constante representação do engano levada a palco pelos nossos políticos. Quando nos aparece um que diz tudo sem joguinhos de palavras – concorde-se ou não com o conteúdo, não é isso que estou aqui a discutir -, nós ficamos muito ofendidinhos porque ele é demasiado directo, porque ele é demasiado aberto, porque ele elogia ideias dos adversários, porque ele admite erros, porque ele sorri, porque ele explica e porque ele não tem postura de político. Condenamos o fingimento e o engano, mas não sabemos, nem queremos, viver sem eles. É isto, não é?

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doença de domingo à noite

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Gosto de assistir ao processo de desenvolvimento de doença mental dos canais generalistas ao domingo à noite. Na RTP1, há uma banalidade do génio. Todos são incríveis, e ai como é difícil ter de escolher um para não ir à final, porque até me arrepiei com o teu sublime, que não é interpretar nem saber dizer as palavras, é só gritar e ter as unhas pintadas. Na SIC, há a imposição do medo por um chef prepotente que grita e manda e insulta e destrói, e só assim sabe ser porque só assim é que se vai a algum lado, o mundo é fodido e por isso temos de ser fodidos com o mundo, não há cá boa educação para ninguém, só demonstração de força, que é só a completa ilustração da ausência de força. E de amor. Na TVI, o elogio da mediocridade, os holofotes no reles e na acefalia colectiva, votem em mim que eu quero ser famoso, e a fama dá-me tudo, e eu sou tudo porque apareço, se desapareço, não sou, e obrigado aos portugueses lá em casa que votaram em mim, sem eles não sou nada. E não é mesmo. Tenho de ir dormir, que isto faz-me mal aos olhos.

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adeus tristeza, e eu chorei

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Adeus tristeza, e eu chorei. Só parei de chorar muito tempo depois de ele ter parado de cantar. O Fernando Tordo veio a Leiria. Veio, também, como sempre vem quando o Fernando vem, o Ary. E eu ali, a lembrar histórias de canções que não vivi, mas que sempre fizeram parte do que fui sendo. Mesmo antes de ser. Eu ainda não existia, e sinto que já ouvia a poesia na melodia das canções. Lá, na Rua da Saudade, número 23, rés-do-chão direito. Esta poesia nesta melodia à desfilada no meu peito. Estas canções. Culpo o meu pai e a minha mãe, que me davam a ouvir o mais bonito que a beleza tem. Adeus tristeza, e eu sem saber se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto. Pesada e leve, secreta e pura, e eu chorei tanto.

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quem se diz de esquerda

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Quem se diz de esquerda é feito da mesma matéria de quem se diz de direita. Não apenas da mesma matéria corpórea, mas da mesma matéria de pensamento. Quem se diz de esquerda, como quem se diz de direita, só se diz do respectivo lado apenas por dizer o que já está dito por outros e não por eles. Quem se diz de esquerda, como quem se diz de direita, defende uma ideologia que não dá liberdade ao pensamento, uma cartilha que não permite ter outras ideias e comportamentos que não os inscritos nas bíblias de um e de outro lado. Quem se diz de esquerda, como quem se diz de direita, deveria pensar antes de dizer o que quer que fosse. Há tudo em todo o lado, e as boas e as más ideias não são de um lado ou de outro. As boas e as más ideias são, sempre, de um lado e de outro. Portanto, quem se diz de esquerda, como quem se diz de direita, talvez se pudesse definir melhor se não se definisse de forma tão redutora. Sem ideologias, mas com ideias – venham elas de que lado vierem.

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ó minha coisa tão boa

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ó minha coisa tão boa
sei lá eu por que fugiste
deixando esta pessoa
assim tão triste

já procurei nos lugares
que partilhámos felizes
e além de não estares
só encontrei raízes

foi por tua vontade?
foi alguém que te levou?
é que eu já sinto saudade
nem sei bem onde estou

se foi por culpa minha
manda uma carta ou assim
que esta vida sozinha
não é para mim

prefiro não estar aqui
à espera sei lá de quem
dizem todos que é de ti
talvez seja de ninguém

mas ao que tudo parece
já foste e nem um adeus
e agora quem te esquece
se todos os tempos são teus?

só me resta esperar
mesmo sendo uma ilusão
de que esse preciso lugar
tenha acordo de extradição

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tenho achado graça a isto

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Foi o dia mais frio do ano, este de 1985. Pelo menos para os meus pais. Para mim, até àquele dia, este, de 1985, também foi o mais frio do ano e de sempre. E também o mais quente. E o mais ameno, também. Foi o meu primeiro dia. Passados alguns, os meus tios, o meu pai e a minha avó foram buscar-me nesta alcofa vermelha com uma botija de água quente. Passaram 13.514 dias (sim, pedi ajuda ao meu irmão para fazer as contas), e aqui estou eu a escrever um texto no Instagram semelhante a todos os outros que escrevo neste dia para, por um lado, escrever – uma coisa que eu até adoro – e receber alguns miminhos de pessoas que, muitas delas, só estão a fazer um scroll infinito no Instagram e deram de caras com esta alcofa vermelha de bebé e acharam graça. Eu tenho achado graça a isto desde aquele dia frio de 1985. Não sei bem porquê. Mas desconfio de que o cogumelo bordado na alcofa seja uma pista.

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