no próximo primeiro dia
O primeiro dia do ano é sempre um jogo em modo Hard. Qualquer coisinha tem de ser especial porque é a primeira coisinha do ano e vai condicionar todas as outras coisinhas que se seguem ao longo da vida – que é até ao próximo primeiro dia do ano. Vou sair pelo lado direito da cama, assim viro-me para a janela, abro o estore (não, não é estoro) e recebo logo a luz da manhã – vou fazer sempre isto porque o sol faz bem e não sei quê. Roupa interior azul por ser tradiç… Não. Roupa preta, que é com ela que eu ando o ano inteiro e este primeiro dia tem de ser uma declaração do meu eu. Haha Desculpem. Não vou ver já as mensagens. Primeiro, tenho de falar com a minha mãe, com o meu pai e com o meu irmão. Só depois com as outras pessoas. Mas o telemóvel está mesmo aqui ao lado, vou ver, não posso, não consigo não ver, não vou ver, olá, pai, olá, mãe, olá, Pedro. Objectivo cumprido. Chupa, necessidade-de-estar-sempre-em-contacto! Acordei com esta música na cabeça, vou ter de a ouvir, vai ter de ser a primeira. Mas estou à mesa para tomar o pequeno-almoço e o comando da televisão está mesmo aqui ao lado. Preciso de pensar no Ghandi para resistir ao poder imperialista da falsa necessidade (mais uma) de companhia televisiva. Volto ao quarto e oiço a música que queria ouvir. Mais um checkpoint. Gravação automática do jogo. E, agora, o pequeno-almoço? O que comer hoje vou comer todos os dias do ano, tem de ser, tenho de criar uma regra, desta é que é. Feito. Vou ao banho. Água fria, claro. Diz que faz bem e eu quero coisas que me façam bem, é hoje que eu vou iniciar o Reich de Mil Anos do Banho de Água Fria. Claro que é. Game over. Try again. No próximo primeiro dia do ano.
metáfora bonita da minha vida
Hoje fui ao ginásio. Mas não fui, porque estava fechado. Metáfora bonita da minha vida, esta. Ando eu o ano inteiro em luta com a necessidade de sair da zona de conforto para, quando a consigo vencer – ou quando lhe consigo ceder, dependendo do ponto de vista -, olha, afinal não era preciso, desculpa lá o incómodo. Ridículo, isto. Tanto isto de eu não ter confirmado os horários do ginásio, como isto da necessidade de sair da zona de conforto. Que necessidade? Qual é a ideia? Ir para uma zona de desconforto? Porquê? Eu quero estar bem, quero estar confortável, portanto, quero estar – rufem os tambores para esta bomba nuclear ao nível da lógica – na minha zona de conforto. Ai, mas eu gosto é de estar na minha zona de desconforto, diz um iluminado do poder do agora e das terapêuticas do caralhinho. Não, não gostas, digo eu. Primeiro, porque é uma contradição linguística que eu não vou estar a dissecar por ser demasiado óbvia. Ok, vou dissecar, adoro dissecar o óbvio: se gostas de desconforto, é porque te sentes confortável com isso. Portanto, essa tal tua zona de desconforto passou a ser zona de conforto a partir do momento em que gostas dela. Segundo, porque é ridículo uma pessoa sentir-se bem sentindo-se mal. Pronto, é isto. Vou para casa. Mentira, já estou em casa. A foto é em minha casa. Ia agora fazer uma dissertação sobre o conforto com uma mochila ao ombro, todo desconfortável? Era o que faltava. Isso e vontade.
cultura nesta terra linda
O Jornal de Leiria insiste em dar-me voz. (Não entendo.) Desta vez, usei-a para escolher, sabiamente, a Personalidade e o Acontecimento de 2021 na área da Cultura nesta terra linda que é Portugal.
Acontecimento do Ano:
O lançamento da Lotaria do Património Cultural foi, sem dúvida, o acontecimento do ano. É certo que a Cultura não está bem, mas, sem esta raspadinha, é certo que estaria muito pior. É por isso que condeno, com bastante veemência (que é assim que eu gosto de condenar), quem diz que esta raspadinha é uma forma de deixar a Cultura à sua sorte. Nada mais errado. Está escrito na sua definição: “jogos de azar”. Nem a sorte nem a Cultura têm nada que ver com isto.
Personalidade do Ano:
Uma que são duas. Uma dupla personalidade, portanto. Uma que adora a Cultura, mas que prefere a Primark. Uma que critica o encerramento das salas de teatro, mas que nunca se sentou numa plateia. Uma que chora a morte de um escritor, mas que nunca leu um livro seu. Uma que acha que um músico merece receber mais, mas que prefere pagar-lhe em likes. Uma que vai para a rua gritar, mas só se a rua for o Instagram. Uma que fecha museus, mas que abre igrejas. Uma que se lamenta ao microfone, mas que só dá o microfone à bola. Uma dupla personalidade, portanto. E com tão pouco lá dentro.
uma canção que não existe
O meu pai está sempre a cantar uma canção que não existe. Faz aquele murmúrio sem palavras e sem direcção ao chegar de algum lugar ou, não chegando, estando nalgum que o faça cantar, não cantando. O meu pai canta essa canção que, mesmo não sabendo qual é, não poderia ser outra. Se ele soubesse, se eu soubesse, deixaria de ser a canção que o meu pai está sempre a cantar para ser uma canção qualquer, uma canção vulgar. Na verdade, a canção existe e é a que ele quer, mas só naquele lugar desconhecido que faz do meu pai, sempre depois de eu o ter ouvido, um homem que é tudo menos triste. E não é só por eu o ouvir. É por ele sentir que é mesmo feliz. E canta essa felicidade. Mesmo não sabendo de onde vem nem a sua definição. O meu pai é esse murmúrio que ele tem, e eu sinto-me sendo a sua canção.
vem cá
vem cá dar-me um bocadinho
daquilo que tens guardado
que eu não consigo sozinho
ter o que está desse lado
tens que ser tu a trazer
não custa nada, anda lá
que eu tenho esta mão a doer
e a outra também está
vem agora, mas devagar
para eu ver com atenção
o teu jeitinho ao chegar
perto do meu coração
mas não te chegues tão perto
que ele não lida tão bem
com o batimento incerto
que o teu coração tem
diz que perde a cadência
que fica tonto e perdido
ao sentir a iminência
de voltar a ser partido
por isso é melhor não vires
deixa guardado o que é teu
que o coração que partires
está sem guarda e é meu
não sendo imortal
Sendo o universo infinito, sendo ele tudo isto, quando eu morrer, quando eu deixar de ser, não morrerei nem deixarei, direi que existo. Porque, nesse momento, tudo o que eu sou irá para algum lugar. Mesmo não dizendo nem sabendo se vou, vou lá estar. Não existe lugar nenhum – assumindo que tudo é permanente. Portanto, serei um que será tanta gente. Serei assim, igual – este conflito. Mesmo não sendo imortal, sou infinito.
ensaio sobre a despedida
O Jardim das Cerejeiras, de Tchekhov, é um ensaio sobre a despedida. Tudo o que está em palco, que é cenário e que é personagem, está a dizer adeus. Tudo diz adeus a tudo. A personagens, a lugares e a si mesmo. E a peça mais não é do que esse processo de abandono, de partida. Diz-se adeus a uma casa, a um jardim, a uma terra, a um armário, a dinheiro, mas também se diz adeus a uma governanta, a um mordomo, a uma família, a um amor e, dizendo adeus a tudo isto, diz-se adeus à memória. E o regresso que é gatilho desta peça para esta despedida é mais doloroso por um outro adeus que ainda custa a dizer – por não se saber dizer, o adeus a um filho, que vai existindo como um ruído de fundo que vai encaminhando o mundo de cada um para um fim esperado. Há crítica social, lutas de classes, futilidade cultural e outras irrelevâncias que, claro, pouco importam para isto. Esta peça é sobre despedida e sobre o doloroso dever de a viver. Entre poucas dolorosas interpretações – pedinchando dinheiro e desfilando espingardas, sobressaíram as de quem já anda nisto há uma vida e as de quem, não andando, parece que sim. Felizmente, há actores que estão e que conseguem ser aquilo que querem parecer, sendo aquilo que o teatro deve ser, vida. Mesmo sendo, tantas vezes, um ensaio sobre a despedida.
parou, deixou de ser
Fui ver uma peça de teatro, mas não a vi até ao fim. Um actor sentiu-se mal, e a peça acabou. O actor está melhor, e o personagem parou, deixou de ser. Perdeu, naquele momento, o coração que lhe dava vida além do guião, o actor. E ele, o personagem, sem órgão muscular, vai estando com a vida parada até à vida do actor voltar. É um gesto de amor dar a vida para que outra exista também. E o actor lá vai existindo sem saber bem qual é a sua. Representa uma e outra ou não representa nenhuma? Alguma delas é assim tão nua que dispense representação? Ou são as duas, despidas ou vestidas, que fazem delas o que elas são e do trabalho do actor um trabalho em vão? Para mim, ver uma peça de teatro é ver a duplicar. É ver actor e personagem cada um na sua vida, e ficar sempre sem saber se uma despedida impede alguma vida de voltar.
a repetição das coisas boas
Foi mais do mesmo. E ainda bem, que a repetição das coisas boas faz bem e quase ninguém as faz – mesmo não sendo exactamente repetição. Cada palavra e cada gesto são improvisação, mas tudo é feito com o talento que se repete em cada palco onde eles estão. Eles são o César, o Carlos e o Gustavo. Com eles, o Guilherme, o Jaume e o Nuno. Todos são tudo o que um espectáculo deve ser: arte. E, apesar do espalhafato de caixas e luzes, o que há em palco é apenas vazio, invenção, regresso à infância pelo caminho mais simples e mais bonito, o da imaginação. Agora ele era um pescador, e há barco e há mar. Agora ele era uma beata, e há deus e há sacristia. Agora ele era um cão, e há cauda e há chão. E, sendo tudo o que imaginam, havendo tudo o que não existe, levam a gente dali para fora para um lugar que, de tão alegre, chega a roçar o triste sem chegar a ser tristeza. É uma espécie de beleza melancólica que, de tanto nos fazer rir, nos aproxima do que somos: crianças com o talento mágico de ver quem não está e o que não há. E isso faz-nos sentir. Não apenas rir.
o lugar onde não nasci
Não nasci nos Marrazes. Os meus pais não nasceram nos Marrazes. O meu irmão também não. Ninguém da minha família. Mas não me sinto de outro lugar. Sendo de algum, sou deste. Porque este lugar recebeu-me, deu-me casa, deu-me amigos e deu-me clube. O meu clube deu-me escola. O meu clube é muito mais do que duas balizas e uma bola. O meu clube é ir sempre, esteja a torrar ou a chover, é saber ganhar e aprender – embora com forte resistência – a perder, é entrar a pés juntos quando tem de ser. E pouco disto tem que ver com futebol. Não nasci nos Marrazes. Mas não me vejo noutro lugar que não no círculo central do velho pelado, número 7 nas costas e corvo coladinho ao lado esquerdo do peito. O meu clube faz hoje anos. Eu, não fazendo, mas sendo quem sou graças a ele, faço também.
capitão artur
PRAIA DO OSSO DA BALEIA
Eram sete. Resta um, Artur. Com a ideia de facilitar o acesso à Praia do Osso da Baleia, foi criada uma comissão de sete homens. Em 1977, começou a abrir-se caminho. Devagarinho, só aos sábados, mas com vontade de ver aquele sonho transformado em realidade. Artur orientava, e muita gente vinha, e toda a gente trabalhava. O almoço era por conta de Artur, e Artur conta que era um convívio bonito de se ver. Hoje, vê o caminho até à praia e não vê ninguém que o ajudou. Há gente que já não está, e a que está “não sabe quem sou, não sabe que fui eu que fiz isto”. Há mágoa, mas o orgulho é maior. “Dantes, vinha-se de carro de bois ou de tractor”. Ou a pé, para os mais aventureiros. “Eu vinha a pé. Só comecei a vir de tractor em 1968, quando a minha mãe me deu autorização”. Em 1969, Artur apanhou o barco para Angola. Esteve na guerra, mas não a viu. “Foi a vida melhor que eu tive. Nunca fui destacado para lado nenhum, nunca tive nenhum dissabor”. A única dor que sentiu foi depois de ter dado sangue para ajudar uns camaradas vítimas de um acidente. “Fecha a mão, abre a mão, fecha a mão, abre a mão… Aquilo era uma garrafa de cerveja cheia de sangue. Depois, deram-me uma bifana mas, nos dias seguintes, o corpo mordia-me por todo o lado. Com o tempo, lá recuperei. Deram-me um louvor e 15 dias de férias”. Voltou ao quartel e, mais tarde, voltou à terra. Teve uma empresa de cerâmica e outra de materiais de construção. Pelo caminho, abriu caminho até à praia. “Tomara eu ter essa idade e voltar atrás, mas o tempo não volta”. Eram sete. Resta um, Artur.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitão acácio
PRAIA DO BALEAL
“O mar era tudo para mim. Hoje, já não tenho capacidade para nada”. Acácio foi pescador, mariscador e nadador salvador. Apanhou robalos, douradas, percebes e gente. Hoje, apanha memórias que lhe navegam dentro. Lembra-se de ser menino e de ir com o pai para a pesca. Era feliz. Mas também se lembra de ser menino e de ir com medo para a escola. Era triste. Acácio sofria bullying. “Na altura, ainda não havia essa palavra, mas os mais velhos insultavam-me e batiam-me. Chegaram a atirar-me a bicicleta pela ribanceira abaixo”. Mas Acácio não caiu. Trocou a escola pelo pai e a matemática pelo mar. As contas, essas, foi fazendo-as ao longo da pesca. Havia dias em que apanhava mais de 200kg de percebes. Hoje, o limite é de 20kg por pessoa. “Ganhei dinheiro, mas também ganhei muitos sustos. Um deles veio numa onda que me foi buscar à rocha e me arrastou. Rasgou-me o fato, as costas, os braços e as pernas”. Foram elas que o traíram numa queda a transportar peixe no Prainha, o restaurante de família construído pelo pai há 60 anos. Foi operado, mas uma embolia pulmonar quase lhe tirou a vida. “O que me salvou foi eu ter os pulmões tão saudáveis por ter nadado tantos anos”. Sobreviveu, mas ficou parado. Das pernas e do que lhe ia dentro. “Eu chorava, chorava, chorava… Cheguei a ter consulta de Psiquiatria marcada, mas pensei: «tu és mais forte do que isto tudo». Fui dar umas voltas junto ao mar e atirei os problemas para trás das costas”. O mar foi mesmo tudo para Acácio. A vida, a queda e até a sua terapia.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitão albino
PRAIA DE SANTA CRUZ
Tinha 13 anos quando se atirou ao mar, pela primeira vez, para salvar alguém. Ela, uma miúda, estava aflita. Ele, um miúdo, também. Mas ele conseguiu, ela sorriu e cada um voltou à sua vida. A dele, na praia, começou ainda bebé. “A minha mãe costurava as barracas, o meu pai alugava-as. Aos três anos, já aqui estava com eles, a comer a papinha e a dormir a sesta”. O seu pai era o que Albino seria durante a vida toda, banheiro. “Às seis da manhã, já andava a montar as barracas e a limpar a praia”. Eram mais de 300 metros de extensão de areia e mais uns quantos de extensão de mar. Sempre que lá ia, tinha de voltar. E voltou sempre, cansado, mas com gente que se afligia e quase lá ia ficando. Houve um homem que ficou. “O mar estava bravo – como sempre está nesta praia – e o homem estava estranho. Entrou no mar, mas eu chamei-o. Duas vezes entrou, duas vezes saiu. Pediu-me desculpa. À terceira, foi e já não conseguiu sair. Alguém o trouxe e ele acabou por ficar. Acho que aquele homem ia com aquela vontade de não voltar”. Albino entristece ao lembrar esta história, mas a memória dá-lhe mais alegrias do que tristezas. “Salvei muita gente e fiz muitas amizades”. Tantas vezes contra a corrente, Albino sente saudades. Das ondas, mas também das canções que chegou a tocar em bailaricos para pôr gente a dançar. Os corpos ondulavam e Albino, de certa maneira, lá voltava a ir ao mar.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
clareza: o falhanço
Julgo sempre que falhei. E, sim, talvez tenha falhado. Não deveria ter dito, ter feito nem ter estado. E o efeito de tudo isso é este julgamento constante onde estou sozinho e sou bastante. Tenho este compromisso de desilusão e balanço entre a dúvida e a certeza do que aconteceu. Mas sempre com esta clareza: o falhanço sou eu.
capitão antónio
PRAIA DE SÃO MARTINHO DO PORTO
“Ovos, açúcar, fermento e farinha. É assim que eu faço, à maneira antiga”. À maneira de António Pedro, na antiga Pastelaria Concha, ambos nascidos nos anos 50. “A massa brioche deve ser sempre feita de um dia para o outro”, e parece que foi ontem que António aqui entrou. Tinha 13 anos quando veio aprender com os pasteleiros que, no Verão, vinham de Lisboa ajudar no negócio. Um deles, o Gonçalves, “era um artista, fazia rosas de caramelo como eu nunca vi ninguém fazer”. E ele, o António, foi aprendendo, até que chegou o dia de tomar conta da pastelaria. Tinha 20 anos, e já não era preciso ninguém de Lisboa. Havia António, de São Martinho do Porto. E, com ele, pastéis de nata, tranças, areias, bolachas, palmiers e outras maravilhas que eram uma delícia “para a malta que vinha da Green Hill, às cinco e seis da manhã, já com os copos – ainda saí com o rolo para dar na carola de um ou outro”. São muitos os que fazem fila para entrar – “nesta altura do Verão, chegamos a atender mil pessoas por dia”. O de António Pedro começava às quatro da manhã e terminava à meia-noite. Agora, o horário é outro, que António já está reformado, mas o gosto é o mesmo. É por isso que continua a vir, a vestir o avental, a pôr o chapéu de pasteleiro, a amassar, a enfornar e a deixar toda a gente que lá vai com vontade de voltar. À sua maneira, ao seu lugar.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
sou ironia (nada)
Sou uma pessoa muito humana, amiga do seu amigo, que está de bem com toda a gente. (menos consigo) Sou muito humilde e tenho a mania da perfeição. Estou sempre contigo. (comigo é que não) Sou muito frontal, sou dono de mim. Sou apaixonado pela vida. (embora mais pelo seu fim) Sou a minha melhor versão, a minha arma é o sorriso. (sou vítima do que quero e não do que preciso) Só me atrevo a escrever aquilo que não sou. Quando escrevo, sei não ser e recebo mais do que dou. Sou um sonhador, um perfil de fachada. Sou ironia. (nada)
eu com ele, onde ele não há
Para eu estar num lugar, tenho de estar na iminência de o deixar. É uma urgência que tenho em mim, estar. Mas só estou se sentir a dor da perda por antecipação. Só estando, não. E o lugar pode ser casa, café ou coração. É tudo aquilo que é e que eu só quero quando estou a perder. E, depois, quando ele não está, estou eu com ele onde ele não há, longe de mim. Para eu estar num lugar, tenho de estar na iminência do seu fim.
o dia são tambores
É o barulho. Tudo é barulho. O sol, o almoço, o vento, o cheiro, os cafés, os cães, as janelas, os cigarros, os carros, os pensamentos, as cores, os sorrisos, as flores, a rua, a estrada, a escada, o passeio a pé. Nunca sei o que ouvir porque oiço tudo como tudo é. Porque oiço tudo, se tudo é? Se o tudo fosse leve… mas o tudo são dores. O dia não me serve. O dia são tambores. Não quero ouvir tambores. Não quero ouvir estrondos no peito. Mordo o dedo indicador e fica a marca. Aceito, e sinto a carne e o osso ao morder. É uma espécie de grito contra mim. Mordendo, vomito, e doendo e aflito vou sendo o que grito, uma espécie de aproximação do fim. Culpo o dia, mas a culpa vem de mim. Não devia, não sejas assim… Sou, e ela é minha. E eu só verdade. Mas só à noitinha, quando me chega a saudade.
capitão manuel
PRAIA DA AREIA BRANCA
Não é capitão, é herói. Sem capa e sem vaidade, Manuel Marques salvou a vida a muita gente. “Eu só queria que ninguém morresse, bastava-me ouvir um obrigado”. Ouviu muitos, tantos, que, ao recordá-los, o mar parece ganhar ondas nos olhos velhos que o olham. “Um dia de mar bravo, estava bandeira vermelha, e dois irmãos vão ao mar. «Ó mano, salva-te que eu vou morrer», dizia um. «Aqui ninguém morre», disse eu, e trouxe-os, um em cada mão, para terra”. Em cada mão, também, uma medalha de tantas que guarda em casa. Dizem Coragem, Abnegação e Humanidade, palavras recebidas por “actos de salvação marítima e de socorros a náufragos”. O que se sente ao ser-se herói? “É bonito, sinto-me feliz. O meu corpo serviu para trabalhar”. Salvando gente, abrindo guarda-sóis, preparando as barracas, cuidando da praia. Manuel era banheiro. O título de Nadador Salvador só o ganhou em 1959, quando fez o curso – o primeiro em Portugal, “no ano da inauguração do Cristo Rei”. Os braços, abertos às gentes que salvava, também se abriam às algas que ia buscar ao fundo do mar… “e a algumas senhoras que se demoravam na água”, sorri Manuel, o “malandro jeitoso” daqueles tempos. Sorrindo, e lembrando, Manuel é banheiro outra vez, sendo herói. Desta areia, deste mar.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitão alberto
LAGOA DE ÓBIDOS / PRAIA DA FOZ DO ARELHO
Alberto sempre sonhou ser pescador. Na escola primária, o primeiro trabalho manual que fez foi um barco de cortiça. Não queria ser jogador de futebol, nem polícia, nem professor. “Queria ser pescador”. E foi, e ainda é. Por influência do avô, que o levava para a Lagoa e o ensinava a apanhar amêijoas, berbigões e mexilhões que depois serviam de complemento ao almoço que a avó lhes vinha trazer. Aos 16 anos, comprou um barco. Deu-lhe o nome de ALGOJA – as primeiras sílabas de Alberto Gonçalves Jacinto. Mais tarde, com as suas mãos, deu vida ao BEGOTO – o mesmo jogo de palavras em sílabas diferentes. “Fui eu que o fiz quando saí da tropa. Estive em Mafra pouco tempo, mas adorei – era motorista”. Mas nunca deixou de ser capitão. De lagoa, nunca de mar – “nunca senti o entusiasmo, e aqui é mais sossegado”. O mais próximo que esteve dele, do mar, trabalhando, foi ali ao lado, na Praia da Foz do Arelho, há uns 30 anos. “Vendia amêijoa, berbigão, caranguejo, pevides, tremoços, amendoins… Gostava muito, mas voltei para aqui”. É aqui que se sente feliz. “Todas as manhãs venho à Lagoa. Tiro uns caranguejos, vejo as artes das enguias e, à tarde, vou trabalhar”. Alberto faz manutenção de máquinas numa empresa aqui perto. Já trabalhou numa cerâmica, é agricultor, canalizador, percebe de mecânica e até ensina, mesmo não tendo ido longe nos estudos, biólogos e professores sobre a sua arte. Já apanhou alguns sustos na pesca, mas apanha mais caranguejo. Aqui, nesta Lagoa que conhece como as palmas das suas mãos.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitã orlanda
PRAIA DA NAZARÉ
“Ó mãe, não sei se sou capaz”, lamentou Orlanda, ainda menina, quando a mãe lhe sugeriu tomar conta do seu negócio de arrendamento de quartos e apartamentos. “Pegas nesta plaquinha, sentas-te ali e perguntas às pessoas se procuram um lugar onde ficar”, respondeu-lhe a mãe. “Pela minha mãe, eu fazia tudo”. Então fez e então ficou – já lá vão 36 anos. A vergonha passou e ela começou a ganhar um gosto que nunca mais a largou. “Hoje é disto que eu vivo e não me vejo a viver de mais nada”. O trabalho dá-lhe tudo o que lhe é importante – “algum dinheirinho” e tantas lágrimas, todas elas de alegria pelas amizades que vai criando com os hóspedes. “Quando se vão embora, ou choram eles ou choro eu”, diz, chorando. Encosta as costas das mãos aos olhos, enxuga as tais alegrias e volta a sorrir. Sorri mais nos três meses de Verão e na Passagem de Ano, no Carnaval e na Páscoa, quando há mais gente à procura de estadia. A dela é sempre ali, na sua terra, com a sua gente, arrendando apartamentos, quartos, rooms, chambres e zimmer. Alegria incluída.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
uma espécie de batota
Quem me vê sozinho, não me vê sem um livro. Ando sempre com um para não me sentir apenas um – por medo do vazio aonde isso me possa levar. Andando sozinho, com um livro, não ando sozinho. O livro é-me companhia, é-me bóia de salvação para quando começo a ficar sem forças por falta de talento para estar assim, só eu, em mim. É uma espécie de batota, eu sei, andar com alguém que não é alguém, que é só papel, mas sem ele custa mais andar, estar e permanecer quando ando, estou e permaneço sozinho – que, em boa verdade, é quase sempre. Mesmo quando estou acompanhado sem um livro. Com gente.
capitão orlando
PRAIA DA VIEIRA
Amor de Mãe. Orlando Faustino tem o nome da sua primeira embarcação tatuado no braço forte e choroso da memória. O nome vinha dos antigos donos, e assim ficou. E Orlando fica longe quando lembra a sua infância junto da mãe e do seu amor, junto do pai e das suas redes. Orlando foi apanhado por este ofício ainda criança – “tinha uns seis ou sete anitos” quando começou a fazer redes e a ajudar o pai na pesca do camarão. O barco era pequeno, Orlando também, e os medos da mãe eram maiores por ver os dois amores entregues à pesca e ao mar. Por vezes, acompanhava o coro que se ajoelhava na areia a rezar para que os pescadores marinheiros voltassem bem. Orlando e o seu pai sempre voltaram. E sempre se acompanharam nestas andanças, mesmo quando, ainda menino, com 11 anos, Orlando foi trabalhar no vidro. Aos 17, de corpo e mãos já calejados, mudou-se para a metalurgia, onde limpou limas e fez a contabilidade da empresa. Veio a guerra, veio a tropa e, quando veio o fim, veio o sonho da emigração, mas o Exército disse-lhe que não. Ficou por cá, desfez-se o sonho e fez-se marido. Voltou a fazer-se ao mar, pescando e fazendo redes. Remendou algumas como remendou a vontade de aventura sendo bilheteiro do cinema, dirigente do clube e secretário da biblioteca da terra. “Como diz o outro, só estou bem onde não estou”, a não ser que esteja onde sempre esteve. No mar.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitão quiaios
PRAIA DO PEDRÓGÃO
Quem conhece a Praia do Pedrógão, conhece Manuel. Foi lá que ele nasceu, foi lá que ele cresceu e é lá que ele quer continuar a viver e a trabalhar até não conseguir mais. “Nunca pensei sair daqui. E, se ainda não saí, já não saio”, diz, e continua. “Meteu-se-me na cabeça desenvolver a minha terra, e acho que tenho conseguido”. Parece que sim. Pelo jeito como as pessoas lhe falam e pelo jeito como os lugares, calados, dizem as memórias que guardam. O café Casino, que abriu quando tinha 17 anos, é uma espécie de ponto de encontro para as gentes que passam pela praia. As esplanadas, há pouco tempo destruídas pelo temporal e agora renascidas por Manuel, são lugar de peixe à mesa e pés na areia. A discoteca Stressless também diz memórias, mas é Manuel quem não quer lembrar. “Evito lá entrar, é um choque muito grande”, quase chora. Agora, é só um esqueleto do que foi. Ele, tendo sido tanto, é feliz. Levanta-se às quatro da manhã e vai para o mar. Pega no barco e nunca sabe quando volta. Por vezes, até faz para se demorar, preferindo, à terra, o mar. “É uma paixão minha”, volta a sorrir. Ao voltar, traz robalo, linguado, raia, pregado, dourada e cansaço. Mas tudo passa quando veste o avental e se põe ao grelhador. Há dias em que só o deixa à noite. “É amor. Faço tudo com amor”.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
capitã lurdes
PRAIA DE SÃO PEDRO DE MOEL
“E tem sido assim uma vida”. As palavras são de Maria de Lurdes; a vida, sendo também a sua, é a de São Pedro de Moel. Aquela praça junto à praia não seria a mesma sem ela, que faz dela sua casa desde 1975. Na altura, trabalhava como contínua na Escola Primária da Pocariça durante a semana e, aos fins-de-semana e feriados, vinha a São Pedro vender tremoços, pevides, amendoins, pinhões, bolos e merendeiras. E foi vindo, e foi ficando, e hoje já ninguém lá vai sem passar por ela, sem pedir um euro de tremoços – dos mais rijinhos -, um bolinho bem cozido e um saco pequeno de pinhões, se faz favor. “Dois e trinta, três e trinta, quatro e trinta, aqui tem, obrigada, até amanhã”. Parece que foi ontem que chegou ali, sorri lembrando ao fazer as contas ao tempo que ali está. A conta dá 46 anos, mais uma mão-cheia de pevides para compor. Lembra os primeiros tempos, lembra as crianças que deixou na escola e que hoje a deixam emocionada por a visitarem já adultas. “Tenho muitas saudades das crianças”, quase chora. Mas agora não se vê noutro lugar. “Quero continuar aqui. Eu, sem São Pedro, acho que deliro”. São Pedro, sem ela, não seria.
[uma parceria com a Rede Cultura Leiria 2027]
o silêncio faz parte
E agora? O que é que eu faço? O que é que eu digo? Sorrio? Não sei sorrir. Desvio o olhar e a atenção para outro lugar? Finjo não estar? Como é que eu posso fingir não estar se toda a gente me vê? Para fingir não estar, tenho de estar. Se não, não seria fingimento, seria realidade. E todo este momento não seria momento porque seria verdade. É melhor não ser. E eu não sei. Não sei quem sou nem sei quem são estas pessoas que me olham. São más? São boas? Podem acumular ambas as condições – são pessoas, não são soluções. E eu sou outra pessoa. Ou outras, uma só, multidão… Por enquanto, sou tanto. Um dia, serei pó. Tudo em vão. O que é que eu sou? O que é que eu faço? O que é suposto fazer? (além de esconder o embaraço de não saber) Poesia… Deveria dizer poesia. Aqui, em cima destas mantas, perante estas pessoas que eu não conheço. E são tantas! Poesia… O que raio é isso? O que tem de ser? É rimar? Ou é só parecer? “Arte”… O que é que eu vou dizer?
Respira, André. O silêncio faz parte. A poesia é também o que não é. Como o amor, o vazio, a fé. Sorrio, é melhor sorrir. Sim, mesmo não sabendo como fazer. Acho que é assim. Pelo menos, vejo pessoas a sorrir para mim. Deve ser por compaixão. Umas olham, outras não, e eu em revolução por não saber fingir. Nem sorrir. Tenho de me mexer! A mão. Sim, a mão! Faz qualquer movimento com a mão! Abre. Fecha. Abre. Fecha. Não. Deixa… Não faças nada! Tens de falar. Sim, fala! Diz qualquer coisa, abre a boca, mostra os dentes, ajeita o cabelo, aclara a garganta e diz o que sentes. Não deixes que a ansiedade te obrigue a calar. Tens de falar! Não quero falar. Não quero estar aqui. Quero chorar… Sorri. Não consigo. Sorri! O que é que eu digo?! Falar, ou o ensaio para a fala, cansa-me o peito. Se calhar é defeito de fabrico o meu peito querer sempre fugir do lugar onde eu fico. E eu fico aqui. Sorri. Não consigo. Sorri! Não tenho jeito… O meu peito manda e anda e corre e quase morre de cansaço. E agora? O que é que eu faço?
Sei sempre o que fazer. Tudo! Nunca fico calado, parado, mudo, à espera que algo aconteça. Não sou desses malucos que ouvem vozes na cabeça. (embora pareça, eu sei) Como se desse para ouvir vozes noutro lugar que não na cabeça. No umbigo, no pé, no braço… Sou tudo aquilo que digo e não digo, sou o André, só não sei o que faço.
eram gentes escondidas
Duvido sempre de definições. Eu, que nunca soube quem era, mas que julgava ser alguém, dou por mim, agora, a ser ainda alguém, sendo outro que não o que julgava ser. Sempre me achei alguém com medo de gente, de praia e de solidão. Julgava ser assim. Parece que não. Hoje vim à praia conhecer gentes que ando a escrever de livre vontade, por trabalho e por amor. Não as conhecia, fui eu que as quis conhecer e escrever. Pisei a areia, fui ao mar. Sempre pensei que fossem duas coisas que eu iria sempre odiar. Parece que não. Senti-me bem sozinho, andando devagarinho, sem pingo de solidão. Enfrentei, como tenho tentado quase sem querer, alguns medos ou receios ou ilusões de tudo aquilo que eu julgava ser. Definições indefinidas do que eu achava de mim. Eram gentes escondidas. Parece que sim.
eu sei que é um gato
Os nomes dos animais só são nome de gente para a gente corajosa. Perder um Vitorino dói bem mais do que perder um Pantufas. Aconchegar um Vitorino ou um Pantufas, pelo contrário, aconchega-nos de igual modo. A coragem está no enfrentar da dor e não no enfrentar da alegria. Esta coragem de dar nome de gente a um animal nasce, no entanto, de uma cagufa da solidão. O meu gato, tendo o nome Vitorino, sendo um nome de gente, é um gato que transporta todo o peso, não sendo, de ser gente. Se fosse Pantufas, seria um gato, não poderia ser outra coisa, sendo Pantufas. Não é o problema de ser gente ou de ser gato, é a questão de ser gato sendo gente ou de ser gato sendo gato. E a verdade é que os gatos são gatos sendo gatos, sempre, apesar de todas os jeitos de gente que os donos dos Vitorinos lhes possam dar. Nós, eu, é que lhes atribuímos nomes de gente para alimentar a ilusão de que eles não miam mas falam, de que eles não nos adormecem em cima pelo calor mas pelo carinho, de que eles não são gatos mas são gente. E gente precisa de gente, ou de ilusão de gente, para se sentir parte. O meu Vitorino é um gato, eu sei que é um gato, mas é gente. E eu para aqui todo medricas cheio de coragem.
a margem do tempo
Uma peça de cinco minutos que demora sessenta. Uma pessoa em duas personagens. Uma velha, uma nova. Vivem pela casa e não se cruzam. A velha vê a nova, vendo a lembrança do que foi. A nova sente a velha, sentindo o que será. Não há palavras ditas e todas as que há estão nas que imaginamos pela tremenda seca que a peça causa em quem a vê e tenta compreender. A verdade é que a peça vê-se e compreende-se nos primeiros cinco minutos. Tudo o resto é desnecessário. Há música a acompanhar o desnecessário, música perfeitamente em linha com ele: inquieta ao início (primeiros dois minutos e meio), reveladora durante (segundos dois minutos e meio) e repetitiva no fim (últimos cinquenta e cinco minutos). Todos os (poucos) momentos que aproximam personagens e público são criados, apenas, pela música e pela luz. Sem música e sem luz, esta peça não seria teatro – o que significa que esta peça, se fosse apenas teatro, não seria teatro. É uma pena ver uma actriz como a Eunice fazer isto, mas também acaba por ser bonito – há uma espécie de beleza na decadência da peça que, por qualquer razão, vai bem com ela. A neta está lá e parece-me que o que faz faz bem. A peça, como está, não dá para mais. Talvez porque não seja uma peça, mas sim um exercício teatral que tem mais cinquenta e cinco minutos do que aqueles que deveria ter.
robocop vs. ansiedade
Estou aqui com uma dúvida. Quem acham que venceria esta luta: o Robocop ou a minha ansiedade? Por um lado, este meu estado é muito forte na previsão de qualquer golpe. Por outro, gasta muitas energias a combater inexistências. Já o Robocop é uma máquina de guerra e tem uma pontaria dos diabos. No entanto, é mais chapa do que carne. E segue um pensamento lógico. E é previsível. E não tem coração. Robocop. Sim, o Robocop. Ganha o Robocop.
contentamento e cagufa
Contentamento e cagufa. É o que sinto sempre que subo a palco para falar sobre mim ou sobre o que eu faço – nem sempre o que eu faço é sobre mim. Fico contente por me darem voz e por a quererem ouvir. Fico a tremer por me darem voz e por a quererem ouvir. Acho sempre, sem falsas modéstias e sem estar aqui a pedinchar elogio, que vou falhar perante os outros e que, sei lá eu porquê nem com que fundamento, irei ser desmascarado – afinal o gajo não sabe escrever, afinal é igual aos outros, afinal é só uma carinha laroca com uns lindos olhos azuis a temperar um incrível corpo escultural. Ontem, senti contentamento e cagufa. Por ter falado sobre mim e sobre o que eu fiz, o meu Lágrima, e por ter estado tanta gente de quem tanto gosto, da plateia ao palco, a ouvir-me e a querer saber de mim – e do que eu faço. Obrigado. Tremo, mas sorrio.
não sei do meu caderno
Não sei do meu caderno e não sei onde ele está. Sei que não saber onde ele está é a definição de não saber de, mas, ao dizer que não sei onde ele está, digo que sei que não está nesta realidade, está noutra, ele ainda agora estava aqui na mesa, junto ao portátil e agora não está, peguei nele, no caderno, e, de um momento para o outro, é sempre de um momento para o outro que as coisas acontecem, desapareceu. O meu escritório é pequeno e ele não saiu dele, do escritório, talvez tenha saído dele, do caderno, sendo agora outra coisa que não era, que era caderno. Mas aqui não está. Procuro em lugares onde não cabe o meu caderno, nem metade do meu caderno, nem metade de metade do meu caderno, vou com as mãos a sítios que já olhei por desconfiar de que não estou a ver bem. É muito aflitivo não saber como se traz uma coisa que foi para uma outra realidade por não se saber, lá está, como se vai para outra realidade, e essa coisa lá está, e eu aqui, sem saber dela. Repito movimentos de mãos e de pés, repito lugares, repito pensamentos e o caderno continua sem estar. Eu tenho a certeza de que ele não está, porque não o vejo. As coisas não estão se não as vemos, mas, se não estão, continuam a ser ou deixam, também, de ser por não as vermos? Se deixa de estar, pode não deixar de ser, mas, se deixa de ser, deixa de estar. Resta saber se continua a existir, ou sendo e estando ou estando e sendo ou não sendo e não estando. O meu objectivo já nem é encontrá-lo aqui, é ir ao outro lado buscá-lo. É essa a minha aflição, como é que eu vou lá? E vem outra, como é que eu o trago de lá? Como é que se abre a porta da realidade paralela? Será paralela? Se fosse, não tocaria nesta e não me levaria o caderno. Não, não é paralela. Como se vai? Como se entra? Há bilheteira? Onde é? Onde está? Se calhar não há e é tudo invenção minha. Vá, distracção de pessoa habituada a ser e a estar sozinha. Não sei de nada, não aponto nada. Só no caderno que não tenho. É nele que aponto o que fiz. Se eu não o encontro, não encontro o que fiz, se não encontro o que fiz, não fiz nada e não posso fazer nada porque o futuro passado do que faço deixa de existir. O que é que eu faço? Quem sou eu? O meu caderno?
não tenho de nada
não tenho de ir
posso ficar
que ao ficar
não deixo de existir
não tenho obrigação
da praia ou da esplanada
posso dizer que não
não tenho de nada
não há pessoa ou lugar
onde deveria estar
e não estou
o que me grita para sair
é o medo a rugir
a ansiedade a ladrar
por isso permaneço
não vou
que se for só pareço
quem não sou
na ilusão de pertença
Preciso de likes para continuar a viver na ilusão de pertença e de companhia que a constante aprovação externa me dá porque a interna é uma merda talvez nem exista por ser de um ser demasiado exigente que por medo de falhar aos outros mas essencialmente a si mesmo deposita toda a responsabilidade do seu bem-estar em duplos toquezinhos de dedinhos de seres aleatórios que muitos deles não conhece além do ecrã e que chama de amigos mas que não são mais do que seres aleatórios que fazem duplos toquezinhos com os dedinhos num ecrã numa foto de alguém que não conhecem ou que apenas conhecem da internet e que por isso não sabem quase ninguém sabe se a pessoa está feliz triste apática gorda ou com vontade de gritar e de fugir porque não sabe lidar com esta constante necessidade de se mostrar para existir sabendo no entanto que não é mostrando que existe mas que por vezes não resiste à tentação de uma enxurrada de likes para lhe matar a fome à ilusão. Obrigado.
aflito em permanência
tenho dias em que não estou
em que tudo o que sou
é ausência
fujo dos outros que me estão
corro para o meu chão
e nele habito
aflito
em permanência
e gostando odeio lá estar
odiando ando sem ar
e cavo fundo
a terra cai-me no ego
das lembranças que carrego
devagarinho
e eu sozinho
no mundo
não é a vida, nem é a morte
Sou eu e não sei quem sou. Apenas sei que não sou este que me mostro aos outros. Também não sei bem se sou este que me mostro a mim mesmo. Sei que sou qualquer coisa de intermédio ou qualquer coisa de absoluto que ainda não descobri. É difícil definir-me quando me sinto bem e mal de tanta forma diferente, como tanta gente. Por isso, a nossa dimensão é ser polivalente nisto das emoções.
Tanto jogo na baliza como no desespero – um homem normal, portanto, com carimbo no passaporte. Feliz e miserável como qualquer homem normal. Insignificante, também. E extraordinário. Tenho um esqueleto que sustenta aquilo que eu julgo ser o meu corpo. Nele, ajeita-se um fato e uma gravata do tempo da outra senhora – a que morava em minha casa mas que, por razões corriqueiras de um tiro nos cornos, deixou de morar (dão-nos tantas coisas, dão-nos beijos, dão-nos pão. dão-nos marujos de papelão, dão-nos balas). Bem amarrados aos ossinhos que compõem os pés, uns sapatos gastos pelas calçadas da existência. Cá em cima, um crânio com dois olhos azuis e um ou outro pensamento que espeta os cornos no destino – a grande maioria deles irrelevante e, até mesmo, ordinária. O meu nariz é grande e a minha boca é pequena. As minhas orelhas são duas orelhas, apenas, nem grandes nem pequenas, nem finas nem gordas, nem fascistas nem outra coisa qualquer. Sei lá o que dizer das minhas orelhas, não vejo grande interesse em fazer-lhes uma descrição. Nos ossos da mão esquerda, nada. Nos da mão direita, gente (dão-nos gente, mas não nos dão o animal).
Gente que há na minha vida e que, por isso, lhe pertence. Gente com quem me cruzo no café, na recepção do edifício onde faço terapia, no caminho para o lixo, em qualquer lugar por onde eu passe. Gente que vive nas entrelinhas da minha vida, nem a meio-campo nem a ponta-de-lança, gente que é falso 9 e baralha a linha defensiva do adversário. Eu sou o adversário, e esta gente, que me existe por acaso, é minha família.
Chama-se Álvaro e é barbeiro. Olhos claros, mãos antigas, um avião e um violino. Pouco cabelo e muita conversa. De dinheiros e de poleiros, de escolas e de vidas. Das muitas que me disse, só me contou a sua. “Dão-nos um nome e um jornal”, diz. Nasceu, cresceu e foi palhaço “do nosso corpo mais adiante, aquele que não se vê e chega longe, percebe?”. “Para organizar já o enterro, deixem-me pôr já o nariz vermelho”. Está bem, senhor Álvaro. Fez rir, andou em terras, aldeias, cidades, países, bem vestidinho, com embutidos de diamante. “Mas o riso é o choro com outra voz, sabe, e eles, que lá estão no camarote, dão-nos aplausos mas angústia, dão-nos um sonho, mas só um sonho, dão-nos um esquife feito de ferro”. Esmurrou o patrão, quis matá-lo, esteve preso. A forma da alma que o procura era ele próprio. Hoje, não procura ninguém. Deixa-se estar, quieto, baixinho, para que o corpo não pareça o que é de verdade. Fez-me a barba, e uma cabeça presa à cintura. À homem.
Dão-nos um cravo preso à cabeça, agora bem fresquinha pelo corte. Eu cortei caminho e cheguei mais cedo do que o previsto. E lá está ele. Eu não o vejo, ele não me vê. Não sei quem é, não sabe quem sou. Mas ele sabe que eu vou, que passo por ele sem parar, ao entrar e ao sair. Não faz, nem faria, sentido ficar. Ele está ali para ver passar, e eu nem chego a estar. Todas as quartas-feiras de todas as semanas, para pentearmos um macaco, dois minutos antes das sete, toco à campainha e passo. Digo-lhe boa tarde e espero pelo elevador. Dão-nos um pente e um espelho, e um pacote de tabaco, e eu penteio-me, e eu fumo. Dão-nos a capa do evangelho, e eu leio. Ele responde de volta, como um eco de personagens de assombro, e espera por ninguém. Está ali, quieto, olhando, quieto, estando. Somos vazios despovoados, é o que é, que adormecemos no seu ombro. É sempre, todas as quartas-feiras de todas as semanas, a última, dois minutos antes das sete, e a primeira, oito minutos antes das oito, pessoa que me liga à realidade dos outros. No quarto piso, tenho terapia. Lá, a realidade é a minha, só a minha, escura, sombria e funda de mão dada com quem visita comigo esse meu lugar. Temos fantasmas tão educados… Subo ao rés-do-chão, vindo do quarto piso, e ele lá continua. Não sei quem ele é, não sabe quem eu sou. Mas ele está, sempre, faz parte do processo de entrada e de saída do Inferno (outra palavra para o medo). De passagem.
Culpa da vida, que me faz isto. O que é isto, sequer? Deixo-me de metafísicas e vou comer. Um bifana e meia-dose de vulgaridade, por favor. Está bem, pode ser sopa da pedra. Sento-me ao balcão, junto de peludos regos de camionistas e de exagerados tacões de putas, e contemplo. Não deveria contemplar, faz mal aos olhos e não nos soa na memória da nossa história sem enredo. Mas contemplo os sabores, os cheiros, as coisas e as realidades que roçam as vidas que ali existem na mesma medida que existe quem está ali. E há um que existe mais, parece-me. Não lhe conheço o nome. Pode ser João, Fernando ou Aladino. Pode ser qualquer coisa, que pouco me importa. Mas, podendo ser qualquer coisa, é um filósofo. Ele é Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche, Platão, Voltaire e Sartre. Ele serve bifanas e sopas da pedra como quem pensa na morte, serve camionistas e putas como quem olha longamente para o abismo. Não deveria contemplar. Volto à estrada, como eles e elas. Dão-nos um bolo que é a história, mas eu como a bifana, ainda. E vou, agora sim.
Encostadinho à direita, mãos nos bolsos e olhos no chão, como mandam as regras de quem sofre. Connosco, quando estamos sós. Os felizes vão na faixa da esquerda e os idiotas na do meio. Na verdade, os idiotas, para jamais nos parecermos, não vão na faixa do meio, estão na faixa do meio, moram na faixa do meio. Tenho a certeza. Têm lá casa, um T2 com garagem e arrecadação. E código postal próprio. Dormem lá, fazem o almoço, o jantar, estendem a roupa na marquise e passam pelas brasas, com as cabeleiras das avós, no sofá da sala. Penteiam-nos os crânios ermos e, ao fim-de-semana, fazem-se uns furos na parede do corredor para pendurar uns quadros e uns grelhados mistos para ver a bola. Pagam IMI e tudo, levado à cena num teatro. Tenho a certeza.
Tenho lá eu a certeza de alguma coisa. Dão-nos bilhetes para o céu e pouco mais. Estou para aqui a enganar-me para quê? Para tirarmos o retrato? Dão-nos um barco e um chapéu. Certeza? Só a de que duvido de tudo, sem pecado e sem inocência. Da roupa que visto de manhã à existência de deus, da mão que devo usar para abrir a porta ao pé que devo usar para enxotar o gato. Dão-nos um prémio de ser assim e eu tenho o prémio tatuado nos cavalos que me galopam o dia inteiro no peito, sim, o sempre, esse cabrão. Refugio-me no sono para dar corda à nossa ausência, mas gostava de me refugiar no vazio. Mas nem conheço o vazio. Dão-nos a honra de manequim, mas sem roupa. Sou sempre tudo em todo o lado e esse ser tudo em todo o lado faz com que eu não seja, faz com que eu apenas esteja. Não decido por dúvida e por medo de errar. Mas vou errando. Não por duvidar, mas por deixar que a dúvida seja a minha corrente. Eu não sou, vou sendo. Talvez.
A dona Fernanda é que deixou de ser. Foi embora, partiu. E, com ela, foram embora, partiram, pedaços da minha infância onde não vem a nossa idade. O bibe, a plasticina, o recreio, a dança, o colinho, a sestinha. Mais um relógio e um calendário. Não sei por que razão me lembrei dela, apenas lembrei, sem qualquer associação, pelo menos consciente, a um sítio, a um cheiro ou a um som. Lembrei, apenas. A dona Fernanda deu-me sorrisos, palmadas e corações. A dona Fernanda deu-me aconchego. Eu pouco lhe dei para o muito que dela recebi. Dei-lhe choros, birras e inquietações. Sem saber, dei-lhe outros tantos corações. Eu não sabia. Ela sabia. Ela sentia. Hoje, sinto eu. Muito. A dona Fernanda chamava-me “olhinho azul”. Eu chamava-a, simplesmente, dona Fernanda. Hoje, ela já não me chama. Hoje, eu ainda a chamo. Mas ela já não me ouve. A dona Fernanda foi embora. Partiu. Mas os corações ficam comigo. Em pedaços.
Fica a memória, que tem a forma de uma cidade. Valha-me isso, essa galdéria que tanto me anima como me cospe. É tramado ter memória. É tramado não ter memória. Dão-nos um mapa imaginário, e é tramado, pronto. Que pessimismo chato. Tenho de parar com isto. Já páro, só mais um bocadinho de memória. É que me parece que é ela que comanda a vida do senhor que me existe à frente todos os dias no mesmo lugar. Lembrei-me dele porque tropecei nele. Agora mesmo, não o vi. Logo ele, que está sempre cá. E digo que é a memória, e não o sonho – como diz o poema – porque acho que ele já não sonha. O sonho deve ter-lhe morrido no instante em que lhe morreu um camarada por estilhaços de uma granada no meio do mato. Angola ou Guiné, escuridão de certeza. Ainda hoje. A guerra, raízes, hastes e corola, ou qualquer outra coisa muito pior, fervilha-lhe nos gestos, corre-lhe no sangue que lhe corre pelo corpo inteiro, nas pernas que não falham um passo, nas mãos que não falham uma reza, na boca que não falha uma passa do charuto que chupa todos os dias sentado num pequeno muro de pedra. Tem o batalhão inteiro a caminhar com ele e o dever patriótico de cumprir a missão diária que lhe dá razão aos dias. Não sai da rotina, não muda o trajecto. Só quando chega a mãe, que lhe pede ajuda com os sacos das compras, é que ele despe a farda e sorri, cospe o charuto e fala, larga o tempo e ganha cor. Ela vai embora, ele volta. E volta às voltas que a memória lhe dá. Angola ou Guiné, mais um letreiro que promete. Escuridão de certeza. Amor de mãe.
Mãe. A minha mãe. É tão bonito dizer “a minha mãe”. É como dizer poesia em apenas três palavras. A minha mãe. Talvez “a minha mãe” seja a única poesia que há no mundo inteiro, a única poesia que realmente interessa dizer, a única poesia que deu origem a isto tudo que nos é e que nos tem. A minha mãe. Eu, que amo palavras mais do que amo a vida, trocaria todas elas para dizer, até à eternidade, “a minha mãe”. A minha mãe é berço e leito, a minha mãe é a minha noite onde me deito. A minha mãe é grito e carinho, a minha mãe é o meu próprio ninho. A minha mãe é luta e choro, a minha mãe é ouro. A minha mãe é Freud e Vitorino, a minha mãe é o seu destino. A minha mãe é terra e verdade, a minha mãe é a mãe da saudade. A minha mãe é beijo e abraço, a minha mãe é mãe de um palhaço. A minha mãe é come a sopa e cuidado com o frio, a minha mãe é tens mesmo o meu feitio. A minha mãe é mãe-galinha, a minha mãe é minha. A minha mãe é preocupação, a minha mãe é exagero do coração. A minha mãe é princípio, meio e fim, a minha mãe é igualzinha a mim. A minha mãe é riso e melancolia, a minha mãe dá-me cabo do juízo, e o que eu lhe dou é poesia. E uma alma para ir à escola.
Não dou mais porque não sei. Continuo o caminho na estrada fria, clarinho por fora, nublado por dentro. Como um palhaço ou uma flor. Extremamente feliz a quem olha, extremamente triste a quem olha um bocadinho mais. Sigo o caminho e só vejo gentes, sigo o caminho e só me vejo a mim, eu e eu. Estas gentes dão-nos um lírio e um canivete, e pouco mais. Estas gentes só existem em mim, em mais lado nenhum, iguais. Dizer-lhes adeus – tem de ser, está a ficar tarde – é dizer adeus a mim mesmo. E eu nunca fui bom a dizer adeus. Por não gostar ou por não ter jeito, não faço ideia. Por não assumir que há fim ou por não assumir que o fim nunca haverá, não sei. Mas digo adeus muitas vezes, por obrigação ou por vontade, tem dias. Hoje, é um dia. Cada adeus, bem ou mal dito, bem ou mal feito, é o princípio de uma outra coisa qualquer, de um poema.
o dia é da rua
o dia é da rua
da festa
da canção
a noite é da lua
do que resta
do coração
não quero voltar
não quero voltar
porque não posso
é a melhor forma
de não querer
seguir a norma
do não poder
até ao osso
gosto do sporting
Sou do Benfica. Gosto do Sporting. Quando era pequenino, gostava sem saber nem conhecer. Gostava porque via os meus tios a gostar, e gostava dos meus tios, e gostava do Sporting – como gosto ainda. E tinha uma bandeira que, por qualquer asneira minha, foi atirada para a fogueira como castigo. Fiquei triste e devo ter chorado – porque choro sempre que fico triste. Foi aqui, talvez, que me encontrei pela primeira vez com este sentimento de perda que ainda não fui capaz de perder – o verbo, sendo esta a cor, não poderia ser outro. Este ano, mudou, é outro, e ainda bem. Mas eu sou o mesmo. Sendo do Benfica, gostando do Sporting e gostando de ver os meus tios – e mãe e irmão e primos e amigos e tanta gente – a gostar também.
sabendo o que serei
não sei o que escrever
e não sabendo
sei mais do que o que escrevo
que escrevendo
vou tendo
uma forma de mostrar
que afinal sei
e que a arte de esconder
eu não a tenho
que escondendo
até a mostro a um estranho
que não sabe
sabendo
o que serei
os movimentos do ego
Fui ver. O Ruben toca, a Daniela canta e o Rodrigo estraga. O Ruben e a Daniela interpretam letras do Rodrigo. O Ruben e a Daniela são uma espécie de Chopin a musicar cocó. O Ruben e a Daniela são o Anthony Hopkins a recitar O Prédio do Vasco. O Ruben e a Daniela estão na sombra do Rodrigo. O Rodrigo é o sol que neles faz sombra e que nas palavras faz cancro. O Rodrigo não sabe estar em palco. Não sabe onde pôr as mãos nem o ego, então, mete-os em todo o lado. Nos bolsos, na cara, na postura e no desprezo com que interpreta, haha, “interpreta” aquilo que escreveu. Ele lê, ele canta – porquê?, ele faz movimentos com os braços imaginando ser Hamlet sendo João Baião. Ele é ridículo, não ao ponto de dar a volta e ser bom, como é o caso das coisas muito más, mas ao ponto de ser muito mau, não dando volta nenhuma porque não há volta a dar naquele vazio, como é caso das coisas que não chegam a ser coisa alguma. O amontoado de letras a que o Rodrigo chama de poesia é isso mesmo, um amontoado de letras a que o Rodrigo chama de poesia. Mais ninguém chama, só ele. E é só ele em palco. O Ruben e a Daniela lá estão e lá sorriem com a clara vergonha de quem chafurda em hemorróidas, e tentam ser Midas, mas não conseguem, coitados, não são mágicos e o Rodrigo não é poeta. Nem escritor. Nem actor. Nem intérprete. O Rodrigo queria ser tudo isso, é o que os movimentos do ego dizem a quem os vê, mas o Rodrigo não é. E ele não vê. Fala do amor, da depressão, da violência doméstica, dos maus-tratos aos animais, mas não fala de nada disso. Quando grunhe, vomita clichês linguísticos e conceptuais que envergonham, desculpem, eu falei em cocó?, cocó é génio! Agora é sobre amor entre duas pessoas, uau, incrível, Rodrigo, e, agora, o que é esse amor? Ele não sabe e, como não sabe, escreve e vai para palco “interpretar” e “cantar” – porquê? – o que escreveu. Falou dos seus livros, da sua exposição pública, das suas lutas e de tudo o que não interessa num espectáculo que não é sobre ele. Se fosse, seria perfeito. E o Ruben e a Daniela não estariam ali a fazer nada. Seria Rodrigo como ele foi e como ele gosta, não sendo, de ser: o país e o mundo.
nem corpo nem coração
nem corpo nem coração
nem foda nem paixão
nem sonho nem saudade
não
intimidade
é embalar a solidão
antes e depois do abandono
intimidade
se houver explicação
é qualquer coisa
como partilhar o sono
se não fico por ir
quero sair
não sei se quero
se saio
desespero
se não
fico por ir
ficando sem saber
saindo sem querer
sendo a suar
tendo a cansar
rindo a sofrer
indo a ficar
ficando a andar
sem me mexer
distância:mente jovem| diana
Carolina, Edgar, Beatriz, Joana, Matilde, José, Isa, Inês, Gabriela e, hoje, Diana. Ao longo de dez semanas, falei com estes dez jovens de Leiria sobre estes tempos difíceis que estamos a atravessar. Todos eles me falaram, aliás, nos falaram sobre o que pensam e, essencialmente, o que sentem. Hoje, Diana. Uma adolescente que sorri quando fala do que sente mais falta: dançar, estar com os amigos, ir à praia e, como todos nós, estar junto de quem tem perto.
Distância:mente jovem, um podcast sobre o que está confinado na mente dos jovens leirienses.
[autoria: André Pereira | música: Ruben David Marques | entidade promotora: Câmara Municipal de Leiria]
da ternura que não vejo
olhar
de desprezo
sou assim
não me olho
de outra forma
que não fim
à procura
da ternura
que não vejo
em mim
fotografia de um cravo
A liberdade custa-me um bocadinho, dá-me opção, deixa-me escolher, e eu fico sempre sozinho na inquietação de não saber o que fazer. Escolhendo, acabo, inevitavelmente, por excluir. E não ir. Mas parece que é esse caminho excluído que eu começo a caminhar. Não vou, mas é como se tivesse ido. É ele que fica a carburar cá dentro, perguntando porquê, pensa outra vez, olha para mim, sou o que és. É quase sempre assim. Olho a possibilidade de escolher como uma obrigatoriedade de deixar morrer. É mais isto, e não tanto a liberdade como definição. De qualquer jeito, não desisto. Mesmo custando, vou lutando, sou revolução.
distância:mente jovem| gabriela
Distância:mente jovem, um podcast sobre o que está confinado na mente dos jovens leirienses.
[autoria: André Pereira | música: Ruben David Marques | entidade promotora: Câmara Municipal de Leiria]
estar sem estar com ele
Hoje não estou. Sou o que sou nos outros dias. Mas não estou. Desde que o meu primo foi, neste dia, que eu não consigo estar sem estar com ele. Se ele não está, eu não estou. Se a minha madrinha, o meu tio e a minha prima estão não estando, eu estou com eles, assim, não estando também. Só com ele, nas lembranças, quando éramos – ainda somos – crianças.
deste nó que me é descalçar
Não sei se é falta de tempo se de vontade mas, sempre que me descalço, tenho pressa no momento. Não sou capaz de me parar, de me sentar, de me inclinar, de me desatar deste nó que me é descalçar. Piso os calcanhares, um por um, claro está – que a impossibilidade ainda não me é permitida, chuto o que calço à baliza invisível e deixo, descalço, o calçado ao deus dará. Ao ladooo! Ao voltar, é que é tramado. Os reencontros são sempre tristes, isso é sabido. Lá está eu e o calçado, cada um para seu lado com nós por desatar. O jogo regressa, jogo perdido. Tanta pressa, tanta pressa, mas tenho sempre de parar.
distância:mente jovem| inês
Distância:mente jovem, um podcast sobre o que está confinado na mente dos jovens leirienses.
[autoria: André Pereira | música: Ruben David Marques | entidade promotora: Câmara Municipal de Leiria]